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Correio da Paraíba

Cientista defende óculos genéricos

Publicado em 09 maio 2010

Agência Fapesp - O professor Rubens Belfort Júnior vem de uma linhagem de médicos oftalmologistas paulistas. A Clínica Belfort foi fundada pelo seu avô em 1933 e herdada pelo pai. Hoje, da família, trabalham lá Belfort Júnior e Rubens, o único de seus quatro filhos que decidiu seguir o mesmo caminho. Apesar da tradição familiar, o lugar preferencial de Belfort é a universidade. É lá que ele ensina pesquisa, orienta e cria projetos que vão da pesquisa mais pura aos estudos aplicados de amplo interesse público.

Nos últimos anos, Belfort tem insistido em dois temas. O primeiro é a necessidade de o governo distribuir óculos genéricos para a população carente acima de 50 anos como forma de melhorar a qualidade de vida. O segundo é um alerta constante para os cuidados que médicos em geral e oftalmologistas em especial devem ter com a crescente população de idosos. Sobre esse último assunto organizou em 20Q9 o livro Oftalmogeriatria editora Roca , em parceria com Marcela Cypel.

Professor titular da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo Unifesp , Belfort é o único oftalmologista brasileiro membro da Academia Brasileira de Ciências, da Associação Nacional de Medicina e Academia Ophthalmologica Universalis e integrante do prestigioso International Council of Ophthalmology, além de ter sido presidente do Congresso Mundial de Oftalmologia. Até o ano passado comandava o Instituto da Visão, vinculado ao Departamento de Oftalmologia da Unifesp, para o qual conseguiu erguer um novo prédio, a ser inaugurado este ano. Hoje é o presidente da Sociedade Paulista de Desenvolvimento da Medicina, a maior entidade filantrópica brasileira na área de saúde e ligada à Unifesp, dona do Hospital São Paulo, administradora de 30 unidades de saúde e com mais de 26 mil funcionários em diferentes estados do Brasil.

Aos 64 anos, tem na ponta da língua numerosos projetos em andamento ou por fazer. Nem todos são meramente acadêmicos, mas todos nasceram a partir de seu trabalho na universidade. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

A Entrevista

No ano passado, seu livro em parceria com Marcela Cypel, Oftalmogeriatria, ganhou o Prêmio Jabuti como o segundo melhor de medicina do país. Por que a oftalmogeriatria se tornou importante? - É simples, a população está envelhecendo no mundo inteiro e o prolongamento dessa fase da vida resulta em um grande impacto na medicina. Se você pensar em três ou quatro doenças oftalmológicas, vai provavelmente se lembrar de glaucoma, catarata e degeneração macular. As três ocorrem na velhice. E é justamente nos países subdesenvolvidos onde se espera um aumento maior da população acima de 70 anos. É importante saber disso para entendermos os diferentes cenários de planejamento de pesquisa, ensirto e atividades assistenciais. Não me refiro às pessoas de 65 anos, mas às de 80, 90 anos e daí por diante. Os centenários serão muito mais comuns entre nós. E os olhos dos pacientes mais idosos precisam ser vistos de modo diferente.

Tratar os olhos do idoso é mais difícil?

- Há uma série de valores médicos que não costumam ser aplicados adequadamente ao paciente idoso. Chega uma idade em que as pessoas se tornam mais lentas. Temos que respeitar o tempo da resposta e manter algo muito importante, que é a autonomia do paciente. Quando alguém de 80 anos vai à consulta com a filha, às vezes com a neta, há a tendência do médico de conversar apenas com quem acompanha, e não diretamente com o idoso. Há importantes aspectos psicológicos e de comunicação. E não podemos esquecer que, de todas as tecnologias, a mais importante na medicina segue sendo acomunicação. Mas há outros aspectos, igualmente importantes. Por exemplo, o ato de abrir um vidro de colírio e pingar no olho é trivial para o jovem. Mas para um indivíduo em que a mão treme e não enxerga o rótulo é muito mais difícil. O paciente idoso, às vezes, toma 15 tipos de remédio por dia. Trocar ou adicionar um medicamento sem necessidade não tem apenas impacto econômico, mas também social. E se o paciente não enxerga ou enxerga mal é muito mais complicado de realizar as atividades do dia a dia. Temos que contribuir para melhorar a qualidade de vida do idoso e não nos preocuparmos apenas em curar doenças. Até porque, algumas vezes, elas serão incuráveis. Precisamos perceber as doenças que têm impacto na qualidade de vida e concentrar esforços ali. Muitas vezes o paciente tem alterações já cognitivas, de memória, e elas não são evidentes. Ele vai à consulta, conversa de maneira aparentemente normal, sai com uma receita e, de repente, é como ter dado uma receita para uma criança de 4 anos que não sabe o que fazer com o papel. Isso é percebido quando o familiar liga e diz, O que o senhor falou para meu pai quando ele esteve aí? Ele não se lembra de nada . O livro Oftalmogeriatria trata desses problemas, além das situações técnicas oftalmológicas, e é, em parte, fruto da tese de doutorado da Marcela Cypel, para a qual acompanhamos octogenários, nonagenarios e centenários. Já temos mais de 50 centenários em que estudamos a qualidade visual.

Vamos falar de suas origens. O senhor vem praticamente de uma dinastia de oftalmologistas, correto?

- São cinco gerações de doutores. Meu bisavô, José Nunes Belfort Mattos, em 1900 e pouco, era astrônomo, diretor do observatório de São Paulo, e registrava a temperatura e o clima da cidade. Por exemplo, ele registrou que em 1918 nevou na cidade de São Paulo. Na casa dá família, na avenida Paulista, estava instalado o observatório particular dele, que depois foi integrado ao governo de São Paulo e a própria história da astronomia e meteorologia paulista e da Universidade de São Paulo USP . Talvez por causa disso e das lentes, meu avô, na medicina, tenha se interessado por oftalmologia. Ele trabalhou em Campinas no Instituto Penido Burnier, na década de 1920. Em 1930 veio para São Paulo. Era oftalmologista, político, comunista. Meu pai também foi oftalmologista, assim como eu e um dos meus filhos, que concluiu uma bolsa sanduíche de doutorado no Canadá e nos Estados Unidos. Mas é apenas uma feliz coincidência. Tenho quatro filhos e só um foi para medicina. Dos outros três, um foi para economia e as duas filhas para administração de empresas.

Por que fez primeiro doutorado em imunologia e depois em oftalmologia?

Durante minha graduação gostava das questões de medicina preventiva, epidemiologia, moléstias infecciosas. Trabalhei com os médicos Walter Leser e Roberto Baruzzi, além dos irmãos Villas-Boas. Mas no final do curso mudei. Comecei a fazer especialização em oftalmologia e me interessei por doenças infecciosas oculares. Fiz um curso de ciências básicas nos Estados Unidos, onde a imunologia celular estava começando a aparentemente resolver muitos dos nossos poblemas. Tive a sorte de encontrar aqui na Escola Paulista de Medicina o brilhante Nelson Mendes, pouco mais velho que eu, já titular da imunologia. E fiz o curso da OMS [Organização Mundial da Saúde] no Instituto Butantan sobre o tema. A partir daí, com a boa orientação do Nelson e de outros na década de 1970, percebi que mais importante do que um doutorado em oftalmologia era fazer umem imunologia como oftalmologista. Afinal, transplante de córnea, uveítes, doenças infecciosas e mesmo retinopatia diabética e problemas chamados degenerativos à época mostravam-se já envolvidos com a imunologia e, hoje, biologia molecular. Como a pós-graduação em oftalmologia só existia na Universidade Federal de Minas Gerais, trilhei o caminho inverso: fiz o mestrado em imunologia e o doutorado em imunologia com o Nelson Mendes na Escola Paulista e, simultaneamente, apesar de proibido, fiz o doutorado em oftalmologia com o Fernando Oréfice e Hilton Rocha, em Belo Horizonte.

Como surgiram os mutirões para cirurgia de catarata?

- Sempre achei que não adianta ter uma medicina cada vez melhor e cada vez mais distante da população. E, na década de 1980, graças ao meu pai, eu e o Newton Kara José conhecemos Carl Kupfer, na época diretor do Instituto Nacional de Olhos dos Estados Unidos. Kupfer era um americano atípico, internacionalista e avançado, que nos iniciou nessas ideias. Quando se fala em mutirão da catarata, temos sempre de lembrar do Newton. A grande liderança foi dele, que, à época, já era titular da Unicamp, lugar onde não o atrapalhavam e permitiam criar novos sistemas de atendimento.

O Newton começou a fazer uma crítica radical sobre a ineficiência dos serviços hospitalares nos quais se operava uma ou duas cataratas por dia e se achava ótimo. Aí ele começou a fazer 12, 20 cirurgias diárias de cataratas. Isso gerou um conhecimento novo e, em mim e em outras pessoas, uma vontade de fazer mais e melhor levando ao novo conceito de atendimento em escala sem comprometer a qualidade. Quisemos então fazer 50 cirurgias por dia. E começamos a concorrer. O Newton sempre foi um líder. Ele ia para algum lugar do Brasil fazer o mutirão dele e eu ia para outro, sempre competindo. Seguimos amigos há mais de 30 anos.

O fato de dar óculos é algo desvalorizado entre os oftalmologistas?

- Desvalorizado de todas as maneiras. É fácil demais de fazer, não tem glamour, mas receitar óculos certos pode demorar mais do que realizar uma cirurgia de catarata. Óculos inadequados continuam sendo uma queixa frequente em pacientes de todos os níveis no Brasil. E essa desvalorização de algumas atividades é muito ruim, porque a desqualificação do trabalho de dar óculos, de certa maneira, é como desqualificar o trabalho que faz o indivíduo enxergar. Fizemos inicialmente no programa Alfabetização Solidária, com o apoio do ótico Miguel Giannini e do empresário Álvaro Ferrioli, no Nordeste, o que culminou com um projeto que precisa ser retomado pelo SUS, que é evitar terminar a consulta com um tome aqui sua receita e vá embora . Foi constatado há muitos anos no Hospital São Paulo que os nossos pacientes frequentemente já tinham passado em outros hospitais e recebido a receita. O problema não era conseguir a prescrição, mas o que fazer com ela. É um problema do acesso da população. Não quero me envolver em política, mas durante a gestão do Serra no Ministério da Saúde ele topou um projeto piloto que era, ao término da consulta, dizer ao paciente, O senhor precisa de óculos, escolha entre esses três modelos . Em três dias ele voltava e recebia os óculos bifocais prontinhos e incluídos na consulta do SUS.

A cegueira vem caindo no Brasil?

- Não. Ela tende a crescer e não é por culpa do governo. Todos terão de operar a catarata algum dia se não morrermos antes e não há nenhuma possibilidade de qualquer outro tratamento previsto para os próximos 10 anos. É um problema mundial. Há muitas centenas de milhões de pessoas com cataratas aguardando para serem operadas em todo o mundo. Talvez logo se chegue próximo a meio bilhão de pessoas. O brasileiro agora vive muito mais e a cegueira e a baixa visual do idoso é algo para o que com grande frequência a medicina ainda não tem resposta. É o que ocorre, por exemplo, com a degeneração macular. Também está aumentando muito a cegueira relacionada ao diabetes, complicações oculares relacionadas a avanços da medicina como transplantes e cura ou adiamento da morte em alguns tipos de câncer. O diabético vive mais, mas infelizmente pode passar muitos anos com neuropatía, cegueira etc. A cegueira relacionada ao glaucoma também vai aumentando muito com a idade.