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Cientista cria pele humana em laboratório

Publicado em 23 junho 2005

Campinas (SP) - Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, reproduziram pele humana em laboratório, a partir de amostras do tecido. A reprodução em duas camadas, derme e epiderme, é inédita na literatura médica, embora existam várias pesquisas em andamento sobre culturas de células da pele. O trabalho foi premiado no 4º Congresso Mundial de Banco de Tecidos, em maio, no Rio de Janeiro.
A pele reproduzida em laboratório pode ser usada em pacientes com úlceras (feridas) difíceis de cicatrizar ou queimaduras, quando a área doadora é escassa e não há de onde tirar material para o enxerto. Segundo a coordenadora do projeto, a pesquisadora e dermatologista Beatriz Puzzi, também será possível utilizar a pele feita em laboratório para testes de novos medicamentos dermatológicos.
A principal vantagem da pele de laboratório é que não haverá risco de rejeição, pois o material será desenvolvido a partir de amostras de tecido do próprio paciente. Nas pesquisas, os cientistas usaram tecidos doados pelo Hospital das Clínicas da Unicamp provenientes de pacientes de cirurgia plástica de mama e abdominal.
O grande desafio da pesquisa foi reproduzir duas camadas de pele, derme e epiderme. A reprodução da derme ocorreu a partir da cultura dos fibroblastos, sua principal célula. Para reconstruir a epiderme foram desenvolvidas culturas separadas de queratinócitos e melanócitos. As células foram cultivadas em incubadoras, na temperatura de 37 graus, por uma semana em média, num processo totalmente estéril.
Em seguida, os pesquisadores aplicaram as culturas da epiderme sobre a da derme. Segundo Beatriz, nos primeiros experimentos, as estruturas das duas camadas se misturavam. A solução encontrada, depois de várias tentativas, foi utilizar colágeno bovino na cultura dos fibroblastos.
O material acaba sendo absorvido no processo e os fibroblastos passam a produzir colágeno humano, com função de dar resistência à pele. Com isso, derme e epiderme mantiveram suas estruturas mesmo depois de aplicadas uma sobre a outra.
O processo demora cerca de 30 dias até que a pele reproduzida possa ser implantada no paciente, onde 'crescerá' sobre a região afetada, contou Beatriz. Ela pode ser armazenada em nitrogênio líquido ou freezer, na temperatura de 180 graus negativos.
A técnica foi testada em um paciente com úlcera na perna, do Hospital das Clínicas da Unicamp, e alcançou resultado satisfatório. 'A úlcera de cerca de 15 centímetros fechou em 45 dias', disse Beatriz. A próxima fase será testar o procedimento em pelo menos 20 pacientes. Mas a dermatologista explica que ainda não há recursos para isso.
O desenvolvimento da pesquisa consumiu cinco anos e contou com apoio de cerca de 10 professores da Unicamp e da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), que atuaram como colaboradores voluntários. O Laboratório de Cultura de Células da Pele, na Unicamp, foi feito com verbas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e custou cerca de US$ 60 mil.
Mas os pesquisadores não obtiveram recursos para o desenvolvimento do projeto, mestrado do pesquisador Ricardo Souto. 'Acho que empresas e agências de pesquisa não observaram a amplitude da pesquisa', disse Beatriz. A proposta para a realização dos testes, ainda sem prazo, está concluída e deverá ser encaminhada a agências e empresas. Os pesquisadores deverão pedir o registro da patente do processo de reprodução da pele em laboratório.