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Jornal da Unesp online

Cientista cria material que usa celulose bacteriana para regenerar dentes

Publicado em 20 setembro 2010

A cirurgiã-dentista Sybele Saska, doutoranda do Instituto de Química (IQ), câmpus de Araraquara, criou uma membrana que pode substituir os atuais tratamentos para regenerar pequenos traumas nos dentes. O produto tem como base a celulose da bactéria Acetobacter xylinum, um microorganismo facilmente encontrado em frutas e legumes em decomposição. Testes in vitro e um ensaio-piloto em coelhos demonstraram que o biomaterial recupera tecidos ósseos em um período de 7 a 15 dias, dependendo do tamanho do dano.

O estudo foi orientado pelo químico Reinaldo Marchetto, professor do IQ, e teve co-orientação da físico-química Younès Messaddeq, também do IQ, e da odontologista Ana Maria Minarelli Gaspar, professora da Faculdade de Odontologia, câmpus de Araraquara. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) financiou o projeto, que também teve a cooperação dos pesquisadores Paulo Tambasco de Oliveira e Lucas Novaes Teixeira, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (USP).

O produto foi desenvolvido em cerca de um ano e meio, e sua patente foi depositada em maio, com auxílio do Programa de Apoio à Propriedade Intelectual (PAPI) da Fapesp. Testes em ratos estão previstos para o primeiro semestre de 2011. De acordo com os resultados dessa próxima etapa, os pesquisadores acreditam ser possível iniciar os primeiros experimentos em humanos.

Além da celulose bacteriana, a membrana regeneradora para os dentes também é composta de colágeno, hidroxiapatita (um mineral que compõe o esmalte do dente) e peptídeos sintéticos, que são sequências de aminoácidos e se caracterizam por serem estruturas menores do que proteínas. Os peptídeos usados são do tipo OGP (osteogenic growth peptide ou peptídeos de crescimento osteogênico), ou seja, eles são capazes de regular o crescimento do osso e por isso contribuem para sua regeneração.

As bactérias empregadas conseguem sintetizar as fibras de celulose em dimensões nanométricas (formada por milionésimas partes de milímetro). A estrutura nanométrica e os componentes utilizados são os fatores que garantem o desempenho mais ágil na regeneração dos dentes em relação aos tratamentos atuais, segundo explicação da pesquisadora. "Essa inédita combinação traz uma nova perspectiva para o processo de regeneração de tecido ósseo."

Sybele esclarece que apenas defeitos ósseos pequenos podem ser tratados com esse tipo de película, que é posicionada sobre a região traumatizada. Essas lesões podem ser causadas, por exemplo, ao redor de um implantante dentário, em processos de extração de dente ou quando há cistos ósseos. O biomaterial não substitui pinos, placas e parafusos de titânio, usados para consertar fraturas na dentição ou para realizar implantes.

Prêmio Internacional

Por essa pesquisa, a doutoranda ganhou um prêmio na 88ª Sessão Geral da Associação Internacional de Pesquisa Dentária (88th International Association for Dental Research General Session), em julho, em Barcelona, na Espanha. Sob o título New [bacterial cellulose-collagen]-hydroxyapatite nanocomposite with growth factors for bone regeneration, seu trabalho foi considerado o melhor na categoria Materiais Dentários. A distinção é concedida pela empresa alemã Heraeus, que atua na manipulação de metais preciosos, tecnologia, fabricação de instrumentos médicos e dentários e biomateriais. Na ocasião, outros quatro cientistas foram contemplados, oriundos de instituições de Japão, Inglaterra, EUA e Alemanha.

Sybele apresentará sua tese de doutorado em 2011 e já tem planos para o pós-doutorado. Nessa próxima etapa de estudos, a dentista pretende desenvolver, a partir dessa membrana, um modelo tridimensional chamado de scaffolds, termo em inglês ainda sem tradução para essa finalidade. "Com esse novo conceito vamos conseguir criar um biomaterial exatamente no formato desejado e o osso poderá se regenerar com mais precisão dentro desse molde."

Cínthia Leone