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Cientista brasileiro defende autópsia mais humana (econômica e invasiva) em mortos pela Covid-19 como uma forma de conhecer melhor e de combater o coronavírus

Publicado em 11 maio 2021

O médico patologista Paulo Saldiva ele já se preparava para um período sabático mas diante da pandemia decidiu ir para a linha de frente das autopsias da Covid-19 na Faculdade de Medicina da USP conforme nos informa a jornalista da Revista Fapesp Sarah Schmidt que colheu depoimento superimportante deste cientista que ao final do seu texto de relato nos mostra o lado humanitário da profissão de um pesquisador que atua no limite entre a vida e a morte

Médico patologista, pesquisador, ecologista e humanitário

O espaço vazio agora na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, por restrições da pandemia, causa tristeza ao médico Paulo Saldiva que já havia se acostumado com muita atividade no local e em um texto confessa que todos os seus planos mudaram com a tragédia no Brasil do Coronavírus. Depois de liderar por quatro anos trabalhos e pesquisadores no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), ele planejava tirar um período sabático tipo férias ou então começar uma nova linha de pesquisas, passando a fazer algo novo na sua vida no universo da ciência. "Uma coisa que fiz questão de manter e cultivar foi a capacidade de fazer autópsias e foi como o destino me dizendo que eu deveria seguir fazendo isso, ainda mais agora", escreveu o Dr. Saldiva, explicando que as autópsias tradicionais da Covid ficaram proibidas em todo o nosso país e em muitos países pelo alto risco de contágio. Não há salas com proteção de nível 3 no Brasil. Diante deste fato, ele fez uma proposta de testar as "minimanente invasivas": nesta técnica, não é preciso abrir corpos, na autópsia são retiradas amostras de tecidos, usando uma agulha muito fina. Na verdade, fazer autópsia é essencial para ajudar a entender os mecanismos de funcionamento desta doença fatal.

Dr. Paulo Saldiva defende técnica mais humana de autópsia...

...para que ela possa ser feita em vítimas da Covid-19

Paulo Saldiva comenta que no começo a sua proposta foi rejeitada pelo seu grupo de pesquisa porque além de ser idoso, ele é asmático. Mas ele tinha a convicção que poderia contribuir para um avanço cientifico e recebeu o apoio de sua família para não desistir do projeto. Como nos primeiros meses não havia certeza da segurança do procedimento, ele se manteve isolado até dentro de sua casa. Seus filhos moram fora e ele dormia separado da sua esposa, usava um outro banheiro. Como quase todos os médicos e profissionais de saúde nesse momento, buscava manter uma rotina muito segura para ele e para ela em sua casa, entrava pela porta de serviço, tirava toda a roupa, deixava na máquina de lavar e ia tomar banho imediatamente. Embora na sala de autópsias o ambiente seja muito contaminado, inclusive o ar, ninguém ficou doente nesse período, pelo sistema de proteção que ele criou à sua volta.

Ele procura se proteger dos desafios à sua volta e cuidar de sua saúde no seu trabalho de patologista e de pesquisador na USP

O cientista em seu texto conta que "nas autópsias, somos eu e a radiologista Renata Monteiro (doutoranda da Faculdade de Medicina da USP) que trabalha com ultrassom post mortem. Só a gente dominava essa técnica no Brasil, tendo o apoio de um técnico (Jair Teodoro), uma equipe de trabalho". Fizeram cerca de 180 autópsias desde março de 2020 até agora, nem todas elas de Covid-19 porque às vezes essa doença é descartada depois do processo de investigação. Também, autópsias minimamente invasivas de outras doenças raras passaram a ser pedidas a esta equipe pelo Hospital das Clínicas. Antes da pandemia, Paulo Saldiva já procurava destacar a importância da autópsia minimamente invasiva, algo que ele já havia estudado e desenvolvido em um projeto anterior, com o apoio da Fapesp. Ele explica que antigamente, quando ocorriam doenças endêmicas, como malária, esquistossomose ou o calazar Ique á a esquistossomose visceral), existia um serviço no Ministério da Saúde que usava uma agulha grande para a retirada após a morte do paciente de fragmentos do seu fígado. Isso funcionou no interior do Brasil até por volta de 1963. O grupo de pesquisa da USP introduziu o uso do ultrassom, que serve como guia para se localizar o melhor local para se retirar a amostra de tecido. E com a chegada da pandemia, Saldiva e sua equipe começaram do zero, estudando como usar a técnica minimamente invasiva com esta doença atual. O foco do trabalho passou a ser a Covid-19 sob este enfoque, sem pesquisar no caso a parte ambiental ou os determinantes sociais das doenças.

A autópsia minimamente invasiva é um avanço no cenário da luta contra a Covid-19

Paulo Salvida tem trabalhado neste projeto até aos sábados e domingos, quando necessário. E como já não há a necessidade de estudar tanto a doença do do seu ponto de vista geral, a concentração na sua pesquisa foi mais intensa. Quando aparecem mortes de gestantes, crianças, jovens ou pessoas infectadas com a variante P.1 (que surgiu em Manaus), aumenta o interesse para se conseguir o entendimento da doença. "Ajudamos a esclarecer o mecanismo de morte das crianças que tinham Covid-19 e sofreram com a síndrome inflamatória sistêmica pediátrica. Geralmente a doença age de forma diferente nelas e nos jovens. O comprometimento pulmonar não é tão intenso como nos adultos, mas percebemos fortes alterações cardíacas. O sistema imune das crianças e dos jovens monta uma resposta inflamatória tão exuberante que, no afã de matar o vírus, também destrói outros tecidos. Isso já foi visto na febre amarela. O que acontece é que crianças infartam. Imagine, uma criança de 11 anos ter um infarto", escreveu no seu relato Dr. Saldiva. Ele conta que há algumas semanas constatou uma menina cheia de áreas de microinfartos. Em parte das pesquisas feitas pela sua equipe, com base nos dados destas autópsias, ele indicou que o tratamento de crianças precisa ser diferente daquele usado em adultos. Descrever este mecanismo foi uma grande contribuição deste grupo de pesquisa. Ele está analisando também as complicações tardias, de pessoas que têm alta mas morrem. Há casos de pacieentes que já estão bem, já na enfermaria, porém morrem, geralmente, por eventos trombóticos. Outro ponto enfocado no trabalho deste grupo de pesquisa são as complicações da ventilação mecânica de longo prazo.

No seu depoimento Dr. Paulo Saldiva enaltece também o trabalho entre a vida e a morte dos profissionais de saúde

Paralelamente à descrição do processo de trabalho do grupo de pesquisa dirigido pelo Dr. Paulo Saldiva, ele se refere a alguns outros fatos, como a USP ser hoje a instituição que tem mais publicações científicas sobre autópsias da Covid-19 em todo o mundo. Ou sobre a paralisação provocada pela pandemia de um outro projeto, também apoiado pela Fapesp, que pretendia analisar a exposição de crianças à poluição do ar em creches de São Paulo. Projetava medir o impacto dela na saúde infantil e o que é preciso fazer para melhorar esta situação dramática. Quando o Coronavírus recuar, as aulas voltarem com regularidade, este importantíssimo objetivo será retomado.

Dr. Saldiva cita o sofrimento dos médicos e profissionais de saúde diante das vítimas da Covid-19

"Dei várias entrevistas para a mídia, faço participações no jornal da TV Cultura e mantenho uma coluna na Rádio USP, agora fui convidado também para ser colunista do Estadão, vou escrever sobre doenças, meio ambiente e como é possível mudar um pouco esta realidade" (Paulo Saldiva, médico patologista)

Um dos vídeos hoje aqui é sobre este livro que mostra também a visão humanitária deste cientista

(Mais tarde e amanhã mais depoimento deste médico e cientista e mais informações na seção de comentários deste blog ligado ao movimento ecológico, científico, de cidadania e da cultura da vida, nesta edição do Folha Verde News, teremos também dois vídeos, um deles da Fapesp sobre autópsias minimamente invasivas, estudo que envolve mais de 100 pesquisadores e um outro da série Mova-Se para divulgar novo livro de Paulo Saldiva Vida Urbana e Saúde e que mostra bem também o cidadão humanitário que é este cientista)

O cientista fala das mortes invisíveis

O lado humanitário do trabalho - O médico e cientista Paulo Saldiva às vezes fica desesperançado, como ele descreve, fala do sofrimento que é fazer autópsias em crianças e jovens. Ele sabe como é a história de vida de cada paciente, todos são entrevistados nesse sentido por duas enfermeiras. Mortes invisíveis. Não aparecem no jornal. Merecidamente são mostradas com destaque mortes de profissionais de saúde que se sacrificam no combate ao Coronavírus. Mas ficam anônimas outras mortes e sacrifícios. Ele se refere a um monte de mortos anônimos, gente que entregou comida. dirigiu carro de aplicativo ou trabalhou no transporte coletivo, que precisava trabalhar nessas condições adversas. "Não é só quem vai vai à balada em Maresias, no litoral de São Paulo, para para uma rave no Leblon, no Rio de Janeiro, que se contagia por falta de isolamento social. É muita gente que tem que ralar para sobreviver. Cada pessoa é uma crônica, uma história que desvendamos, tanto no relato das famílias, quanto podemos constatar nos seus corpos autopsiados. É como um observatório desta população invisível de vítimas da Covid-19", lamenta com sentimento humanitário este cientista e ser humano que atua no limite entre a vida e a morte.

É difícil atuar no limite entre a vida e a morte

Fontes: Terra - Planeta - Revista Fapesp - Rádio USP - Creative Commons - folhaverdenews.blogspot.com

Folha Verde News - 11/05/2021

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