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Jornal de Jundiaí online

Cientista avança em estudo de vírus

Publicado em 14 novembro 2010

Por ALEX M. CARMELLO

Pesquisa conduzida pela bióloga jundiaiense Maria Clara Duarte Fregolente, 28 anos, é responsável por um avanço significativo na caracterização genética do Picobirnavírus (PBV), detectado em amostras fecais de diferentes animais. Quando em contato com os seres humanos pode provocar diarreia. Maria Clara defendeu sua tese de doutorado sobre o assunto no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp (Universidade de Campinas). A ligação da pesquisadora com o PBV surgiu ainda na graduação, na iniciação científica, quando também trabalhou com cultura de células para produção de rotavírus e adenovírus. O que era para ser mestrado passou direto para o doutorado e, num primeiro momento, o objetivo foi fazer o sequenciamento completo do PBV. Entretanto, a pesquisa não conseguiu o sequenciamento completo para animais.

Atualmente, Maria Clara trabalha na área de Parasitologia, no setor de Patologia Clínica do Hospital de Clínicas da Unicamp. Após tanta qualificação, a doutora ainda está definindo seu futuro profissional, pois prestou vários concursos públicos para se tornar pesquisadora em instituições de ponta no Brasil. A pesquisadora recebeu a reportagem do JJ Regional no apartamento em que mora com seus pais, em Jundiaí. Ex-aluna de um tradicional colégio jundiaiense, nesta entrevista ela explica como se interessou por Biologia e qual sua vocação científica.

JJ Regional - Como você passou a se interessar por Biologia?

Maria Clara Fregolente - Ainda no Ensino Médio houve aquele "boom" a respeito da clonagem da ovelha Dolly. Interessei-me pelo assunto e tinha certeza de que iria acabar estudando genética. Quando comecei o curso na Unicamp, percebi que meu rumo era outro. Mas me lembro também que brincava muito de professora com minha irmã caçula, Maria Teresa, que é midióloga. Meus pais nunca se opuseram à minha escolha. Eles diziam que eu deveria estudar o que eu gostava e que o retorno financeiro viria depois.

JJ Regional - Por que você acabou estudando o PBV?

Maria Clara Fregolente - Na verdade, o PBV estava na linha de pesquisa de minha professora orientadora Maria Silvia Vacarri Gatti, do Instituto de Biologia. Quando eu terminei o segundo ano, ela me perguntou se eu gostaria de estudá-lo e eu aceitei. Em 2004, escrevi um projeto para obter financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e acabei ficando neste laboratório por oito anos. Outra característica que me chamou a atenção foi a de que não havia nada escrito sobre o PBV. Ele é um vírus novo em estudo.

JJ - Como ele se desenvolve?

Maria Clara - Ele está presente em amostras fecais de diferentes hospedeiros como cachorros, cavalos, coelhos, roedores e cobras. A transmissão se dá por via fecal-oral, portanto trata-se de um vírus entérico, que é eliminado e detectado nas fezes e que tem penetração pela boca. Se a pessoa tiver contato manual com as fezes de animais infectados e não fizer a higiene correta, pode ter os vírus introduzidos em seu organismo.

JJ - E o que ele acarreta ao ser humano?

Maria Clara - Ele pode ou não acarretar diarreia. Depende do sistema imunodepressor de cada um.

JJ - Não é um vírus letal, então qual sua importância para estudo?

Maria Clara - O estudo do PBV só tem importância para a academia. Como é um vírus novo, do qual se sabe muito pouca coisa é interessante observá-lo. No futuro, ele pode estar presente e ser responsável por outro processo.

JJ - Você não conseguiu terminar o seu sequenciamento genético? Pretende terminá-lo?

Maria Clara - Através das sequências disponíveis não foi possível estabelecer nenhum iniciador capaz de funcionar nas sequências de PBV de animais. Somente o PBV de humanos têm seus segmentos genômicos completos publicados na literatura. Ele é um vírus trabalhoso porque não se mantém em cultura. Como ainda não sei qual será meu futuro profissional, não sei se continuarei investindo no PBV. Pode ser que eu o mantenha como estudo paralelo.

JJ - O que te atrai na pesquisa?

Maria Clara - Gosto da Biologia porque tudo é perfeito. O funcionamento é lógico, uma coisa puxa a outra. É um desafio trabalhar com pesquisa. Quando você obtém um resultado positivo, é uma grande recompensa.

JJ - Qual o perfil de um pesquisador?

Maria Clara - Metodologia. Eu sou uma pessoa extremamente metódica. Você tem que ser extremamente organizada porque tem que cuidar de sua agenda semanal, agendar a utilização de equipamentos, tudo com prazo e uma atenção redobrada. Às vezes, um reagente que você esquece de pôr faz com que perca o trabalho de todo um dia ou de uma semana.

JJ - Você acredita que estamos mais à mercê dos vírus atualmente? Apesar de tanta tecnologia, veja o que aconteceu no ano passado com a possibilidade do H1N1 se alastrar pelo mundo. Por que isto acontece?

Maria Clara - O ser humano provocou mudanças no planeta Terra que acabam tendo consequências na propagação de doenças. Quando desmatamos e invadimos a floresta acabamos tendo contato com animais que não tínhamos anteriormente. Desta forma, o ser humano fica mais exposto. Além disso, a vida moderna acaba promovendo uma propagação rápida dos vírus, com o excesso de ar condicionado, por exemplo. Em um ambiente fechado, sem umidade, é mais fácil o vírus se propagar de um lado para o outro. Se for ar condicionado central, então, o problema é bem pior. A questão das viagens internacionais também é crucial na transmissão do vírus. Em poucas horas, o vírus de um local acaba contaminando pessoas de outros países. O avião é excelente para a sociedade em que vivemos. Entretanto, também há os contratempos.

JJ - É muito comum irmos ao médico e ele explicar que estamos com uma virose. Esta resposta nos deixa alarmados e pouco satisfeitos. Não dá para saber que virose temos? Qual o melhor tratamento?

Maria Clara - Costumamos brincar que se estivermos com uma virose se tomar remédio, ela sara em sete dias. Se não tomar, em uma semana. Não há realmente o que fazer. O que podemos é tomar remédios para tratar os sintomas. Os vírus mudam rapidamente e é impossível saber qual está fazendo aquele estrago em nosso organismo. Na verdade, precisamos nos conformar: estamos à mercê dos vírus.

JJ - E como se proteger?

Maria Clara - Podemos manter nosso corpo saudável, tornando nosso sistema imunológico combativo. Além disso, podemos evitar situações de risco, como grandes aglomerações, por exemplo.

JJ - Como se dá a comunicação entre pesquisadores atualmente?

Maria Clara - Antigamente, um pesquisador só conhecia o avanço de pesquisas mundiais folheando revistas nas bibliotecas das universidades. Perdia-se um bom tempo ali. Hoje, as comunicações são em tempo real. Sabemos os avanços das pesquisas em todo o mundo em questão de segundos. É formidável esta rapidez.

JJ - Mesmo assim, às vezes os resultados das pesquisas demoram. Veja, por exemplo, a utilização das células-tronco que apareceram como salvadoras da pátria, mas que hoje sabemos que ainda não são seguras. Isto é frustrante?

Maria Clara - Não. É melhor esperarmos para ver o que vai acontecer e garantir segurança aos usuários. Os testes biológicos são a longo prazo. Um exemplo disto são os transgênicos. Estamos usando, mas não sabemos o que irá acontecer no futuro.

JJ - Como será seu futuro profissional?

Maria Clara - Estou esperando o resultado de um concurso público que fiz para a Fiocruz, no Rio de Janeiro. Se for aceita ali, continuarei a ser uma pesquisadora. Também prestei concurso para a Universidade de Uberlândia para ser docente.

Não há mais espaço para minha pesquisa na Unicamp. E é importante que eu conheça novas pessoas, novas pesquisas para que não haja um esgotamento. Um pós-doutorado também não está fora das minhas pretensões. Se for fora do País, melhor.

JJ - Nunca pensou em uma carreira fora da Academia?

Maria Clara - Não, porque os laboratórios farmacêuticos não realizam pesquisas no Brasil. O País é só um produtor de medicamentos.