Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Cientificamente comprovado!?

Publicado em 30 agosto 2010

Quando queremos reforçar argumentos a favor de alguma coisa, pensamento, produto ou técnica afirmamos que é "cientificamente comprovado" e pronto. Na discussão todos se calam frente a este argumento em um passe de mágica.

A ciência representa a atividade humana em que se busca constantemente a verdade, uma verdade técnica, uma verdade mensurada e reproduzível em qualquer parte da terra. Na filosofia, mãe de todas as ciências, a verdade é uma coisa passageira, abstrata, temporária, praticamente não existe. Na ciência, a verdade é a obtida com os meios de hoje. Na dinâmica da ciência, a verdade necessariamente é mutável e neste momento tem-se uma verdade que vale, mas amanhã poderá ser diferente. A ciência implora para que se prove que ela está errada.

Para que qualquer coisa adquira um caráter científico, duas características são fundamentais:

1. ser publicado em um veículo de grande circulação no meio profissional específico;

2. oferecer uma descrição dos experimentos de tal modo detalhada que qualquer pesquisador em qualquer parte do mundo, sob as mesmas condições, possam reproduzir os testes, os métodos, os aparelhos, para obter os mesmos resultados e comprovar que realmente o conhecimento gerado deve ser levado a sério.

Como esta expressão é muito forte, ela foi e é muito explorada comercialmente no mundo da publicidade para conquistar o consumidor. Se no rótulo ou na propaganda estiver escrito "cientificamente comprovado" se deve perguntar: quem testou, onde foi publicado, como foi publicado? Foram cientistas independentes ou pesquisadores pagos pelo fabricante que publicaram? Em casos em que não se comprove o caráter científico de um produto em cujo rótulo ou peça publicitária conste que foi "comprovado cientificamente" pode se caracterizar uma publicidade enganosa.

Talvez possamos perguntar sobre quem controla a veracidade destas informações no nível governamental. Quando se trata de medicamentos, próteses, implantes, alimentos e produtos de higiene e limpeza, por exemplo, a colocação no mercado depende da autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Saúde e de outros órgãos oficiais. Para autorizarem a comercialização, requerem uma comprovação científica de que fazem bem e não prejudicam as pessoas e ou animais.

Os órgãos governamentais colocam restrições e limitações, regulam a propaganda, fazem testes, enfim a sociedade tem ferramentas para controlar se o que lhes são oferecidos foram "verdadeiramente" testados cientificamente. Esta é razão dos governos manterem os institutos de pesquisa e tecnologias. Mas para isto o consumidor deve ler os rótulos e identificar quem autorizou a comercialização do produto. Necessariamente o número e data da autorização devem estar explicitadas e os mais curiosos podem entrar no site e verificar se estas informações são verdadeiras.

O contrário de científico é o empírico, algo que se aprendeu com acertos e erros, sem testes, sem comprovação metodológica reproduzível e publicada. O fato de algum conhecimento ser empírico não significa que não tenha valor, como acontece com as nossas "experiências pessoais". Ser empírico tem suas características diferentes do conhecimento científico, apenas isto; necessariamente não significa que seja melhor ou pior! Aliás, a maior parte do que sabemos é empírica.

Quem ensinou-nos a ciência como uma atividade humana moderna foi Galileu Galilei. Ele afirmava: "Não se deixem guiar pela autoridade de alguém. Façam os experimentos, confirmem os fatos. Pensem! Não obedeçam cegamente ao que outros dizem só por terem a fama de sábios." A ciência representa uma atividade humana criteriosamente exercida para que possamos entender o que aconteceu conosco no passado, suportar o nosso presente e vislumbrar o que podemos esperar de nosso futuro. Ela está aí no dia a dia para nos servir. Vamos nos banquetear!

Observatório

Fraudes científicas - Estudo publicado na Nature, uma das revistas mais conceituadas no meio acadêmico, mostrou que as posturas de má conduta em pesquisa são mais comuns do que se imaginava. Geraldo Koocher, do Simmons College, em Boston, enviou um questionário confidencial para 6,5 mil pesquisadores credenciados nos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA indagando se já haviam testemunhados comportamentos repreensíveis no seu ambiente de trabalho. De 2.599 questionários respondidos, 2.193 pesquisadores disseram que sim. Na maioria dos casos, eles conversaram com os colegas e os convenceram, sem queixas oficiais, a corrigirem seus dados coletados equivocadamente, por desleixo em sua maior parte.

Artigos científicos na Internet - Em cada cinco artigos publicados em 2008, um está gratuitamente disponível na internet, segundo informaram os pesquisadores da Escola de Economia de Hanken, em Helsinque, capital da Finlândia, um dos países mais desenvolvidos tecnologicamente no mundo. A base de dados analisada foi a Scopus. De todos os artigos publicados, 8,5% estavam disponíveis ou cobravam dos autores para deixarem suas publicações liberadas irrestritamente. Os trabalhos produzidos na América Latina e na Índia foram os mais facilmente encontrados de graça na internet. No Brasil, a base de dados Scielo (www.scielo.org), gerenciado pela Fapesp ou Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, constitui uma das mais importantes bibliotecas científicas do mundo e é totalmente gratuita, com centenas das mais renomadas revistas das mais variadas áreas do conhecimento humano.