Notícia

Claudia

Ciências & trabalho social

Publicado em 01 junho 2017

Em meio à avalanche de más notícias que mancham a imagem do país, parece mais difícil encontrar algum feito nacional que seja motivo de orgulho. Mas eles existem - especialmente nestas páginas. Em abril passado, o Brasil recebeu da Organização Panamericana de Saúde (Opas) um certificado pela erradicação da rubéola e do sarampo. Uma das quatro autoridades a quem o documento foi entregue é a virologista Marilda Mendonça Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Desde o início dos anos 1990, ela está à frente dos esforços mundiais para eliminar as duas doenças. Naquela época, entidades internacionais de saúde resolveram colocar fim em um cenário até então devastador. Por ano, por volta de 2,6 milhões de crianças morriam em decorrência do sarampo, vírus altamente transmissível. "Em poucos meses, organizamos no Brasil a maior campanha de vacinação já realizada no mundo", afirma a pesquisadora. "Ao final de 1992, 95% das crianças com menos de 14 anos foram imunizadas." O problema, no entanto, estava longe do fim. Era preciso garantir que novos casos não ocorressem. Nos últimos 25 anos, foram traçadas diversas estratégias de vacinação e rastreamento do vírus. Aos poucos, as epidemias resumiram- se a pequenos focos de contágio controlados com lupa. À menor suspeita da infecção, uma amostra do paciente é colhida e analisada e, ao mesmo tempo, são tomadas medidas para que a doença não se propague.

O último surto ocorreu em 2015, no Ceará. A expertise no controle do sarampo foi multiplicada para outros países da América Latina e até na China. Foi replicada também para conter, no Brasil, a rubéola - moléstia não tão letal, mas que pode causar graves sequelas. Bebês de mães infectadas durante a gravidez correm o risco de nascer com uma série de malformações. Em 1997, foram registrados quase 33 mil casos da doença no Brasil. Com as intensas campanhas de vacinação e conscientização, o país zerou o número em 2009. Paralelamente à luta contra as duas doenças, Marilda realiza, desde o início da carreira, um árduo trabalho para combater vírus respiratórios. Ela é especialista no micro-organismo chamado sincicial, responsável por grande parte das internações infantis no outono e no inverno. Além disso, teve papel fundamental no controle das epidemias de gripe humana que ameaçaram o mundo, como a do HlNl, em 2009. Ela integra o Sistema Global de Resposta à Influenza, da OMS.

POR MESAS MAIS SAUDÁVEIS

A Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em março passado, desmantelou um grande esquema de propina orquestrado para afrouxar a fiscalização realizada pelo Ministério da Agricultura. Além de mostrarem mais uma faceta do crime organizado no país, as notícias colocaram na boca do povo as dúvidas sobre a segurança do que comemos. Ainda que descontadas as irregularidades, o aumento da produção de carnes e ovos para consumo humano tem mesmo suscitado uma série de problemas.

A superlotação das fazendas, por exemplo, cria o ambiente perfeito para a proliferação de perigosos vírus, bactérias e fungos. Não à toa, as zoonoses - moléstias transmitidas dos animais para os humanos e vice-versa - são uma das maiores preocupações sanitárias da atualidade. Elas representam 75% das doenças emergentes. Somam-se a isso as dificuldades para o descarte de dejetos, consumo racional de água e energia e, claro, transporte. A boa notícia é que existe gente séria trabalhando para que tudo isso funcione melhor. Em Concórdia (SC), funciona a sede da Embrapa Suínos e Aves. É ali que trabalha, desde o início de sua carreira, há quase 30 anos, a mineira Janice Reis Ciacci Zanella, chefe- geral do centro de pesquisas. "Nosso grande desafio é garantir a segurança do alimento tanto em grandes unidades produtivas, que abatem cerca de 15 mil animais por dia, como nas pequenas, que carecem do aparato ideal", afirma a veterinária. Recentemente, um dos grupos que Janice lidera criou um abatedouro móvel.

Trata-se de um caminhão equipado com maquinário adequado para atender sítios ou pequenas fazendas e garantir o cumprimento das normas sanitárias. Um dos grandes focos de trabalho da pesquisadora são as doenças respiratórias em porcos e galinhas. Em 2008, ela se mudou com o marido e os três filhos para os Estados Unidos. Ali, trabalhou no departamento de agricultura americano, centro de referência na área, onde desenvolveu pesquisas com o vírus influenza, causador da gripe tanto em humanos como em porcos e aves. Um ano depois, quando houve a pandemia da doença, Janice participou das primeiras análises do micro-organismo e da equipe que desenvolveu a vacina utilizada em animais. Já no Brasil, em 2010, a pesquisadora estabeleceu uma parceria entre a Embrapa e o laboratório americano e, aqui, isolou o vírus pela primeira vez em suínos. Ela, hoje, representa o Brasil no projeto de vigilância global da influenza em suínos da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, na sigla em francês).

A RESPOSTA ESTÁ NO CÉU

Elisabete M. de Gouveia Dal Pino O QUE ELA FAZ: Busca compreender a existência humana por meio do estudo do espaço

De onde viemos? Porque habitamos a Terra? O que há para além dela? São perguntas assim que a astrofisica Elisabete M. de Gouveia Dal Pino, pesquisadora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, se faz desde muito pequena. Aos 10 anos, ao assistir à chegada dos astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin à Lua, compreendeu que a busca por tais respostas seria sua missão de vida. E traçou seu caminho para isso. Formou-se em física, fez mestrado e doutorado (sempre na USP).

Até que, em 1990, alçou voos mais altos. Já casada e com uma filha de 3 anos, mudou-se para os Estados Unidos, onde fez dois pós-doutorados- nas universidades Harvard e da Califórnia. Hoje integra o Comitê de Astrofisica de Alta Energia da União Internacional de Física Pura e Aplicada e é líder brasileira de um projeto internacional para a construção do maior observatório astronômico para detecção de raios gama, a radiação eletromagnética de mais alta energia. "A expectativa é de que, com o aparato, batizado de Cherenkov Telescope Array, seja possível investigar, por exemplo, buracos negros ou matéria escura, que ainda suscitam muitas dúvidas à ciência", diz.

Elisabete foi responsável por conquistar um investimento de quase 5 milhões de dólares da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para o projeto, que deve ter sua primeira etapa pronta em 2018. Parte do montante será empregado para capacitar pesquisadores brasileiros. Na essência, o trabalho dos astrofisicos é similar ao dos historiadores.

Ao estudarem estrelas, galáxias, buracos negros, supernovas, entre outros fenômenos, estão explorando o passado em busca de respostas sobre a nossa origem. Graças a eles, sabe-se, por exemplo, que o Universo surgiu de uma grande explosão, o Big Bang. Para chegarem a conclusões assim, além de observar o espaço com telescópios, eles precisam interpretar o que é visto. E é aí que entram as pesquisas de Elisabete. Ela atua na área chamada modelagem: realização de cálculos matemáticos em computadores de alta performance para compreender o que é captado.

A cientista foi responsável por inaugurar no Brasil o uso de equações de fluidos magneto- hidrodinâmicos, fórmulas para analisar o comportamento dos gases nas estrelas e galáxias. Foi pioneira ainda na determinação do mecanismo de aceleração por campos magnéticos de raios cósmicos, partículas que viajam em velocidade próxima à da luz e incidem na Terra.