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Ciência, um direito de todos, artigo de Roberto Lent

Publicado em 12 agosto 2002

Muito além da divulgação científica, o que o Brasil e a comunidade de C&T comemoram, neste agosto de 2002, é o mérito da conquista, em duas décadas, de sedimentar a ciência como um direito de todos. Roberto Lent, professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, foi um dos fundadores do Projeto Ciência Hoje e hoje é membro do seu Conselho Diretor. Artigo escrito para o JC: Em 82, os tempos vividos pela ciência brasileira eram particularmente negativos. Após uma década inteira de crescimento acelerado, o parque de C&T enfrentava uma grave crise de financiamento. Com o segundo choque do petróleo, vivíamos então o início da crise fiscal da qual não saímos até hoje. No entanto, o panorama geral da ciência brasileira, durante os vinte anos seguintes, foi de crescimento, embora desigual regionalmente, irregular temporalmente, e insuficiente face às necessidades do país. Este crescimento é patente nos indicadores quantitativos, entre 82 e 2002: de 547 doutores formados para 7.400; de não mais do que 20 mil pesquisadores para mais de 60 mil; de 2.933 artigos, com endereço brasileiro, marcando presença na literatura científica internacional para cerca de 15 mil esperados até o final deste ano. No entanto, aumentou a desigualdade regional: o Estado de SP, graças à atuação constante da Fapesp, distanciou-se muito dos demais estados. Além disso, o crescimento foi irregular: os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT, gerenciado pela Finep), que haviam sido responsáveis pelo crescimento acelerado do parque científico do país em toda a década de 70, minguaram até desaparecer; os recursos do CNPq sofreram oscilações; os novos programas criados pelo Ministério da C&T já estão sendo agora interrompidos (como, por exemplo, o Programa de Núcleos de Excelência, lançado em 96 com o objetivo de financiar grupos de pesquisa de modo contínuo e substantivo). Apesar dos números resultantes terem sido crescentes, o Brasil ainda foi tímido, nestes 20 anos, em seu investimento em C&T, aplicando apenas cerca de 0,8% do PIB na área, contra investimentos superiores a 2% do PIB nos países desenvolvidos. Nesse cenário, a divulgação científica foi destaque e também teve crescimento. A escolha de traçar este breve cenário referente às duas últimas décadas coincide com a celebração dos 20 anos da primeira publicação brasileira dirigida ao público leigo, plantando a semente da divulgação científica profissional em nosso país: a revista Ciência Hoje, lançada em 82, para adultos, da qual brotaram a Ciência Hoje das Crianças, lançada em 86, depois Ciência Hoje On Line e a série de livros paradidáticos Ciência Hoje na Escola. A esta iniciativa pioneira da SBPC seguida de outros veículos do mercado editorial, da mídia e das Universidades, somou-se o crescimento dos cursos de jornalismo científico nas principais universidades. Além disso, a ciência passou a ocupar espaços no jornalismo diário, com a explosão da Biologia Molecular (os transgênicos, a clonagem), chegou às telenovelas e aos principais jornais noturnos da mídia televisada, vistos por milhões de pessoas diariamente, em todo o Brasil. Durante esses 20 anos, o grande número de pesquisadores e divulgadores científicos que atuou no Projeto Ciência Hoje manteve-se fiel à sua proposição de aproximar a ciência brasileira do leitor leigo, adulto ou criança. Pioneira na divulgação científica no Brasil, a SBPC não somente se consolidou como um dos pilares da história política brasileira, como também abriu um importante canal para a democratização da ciência e da educação, peias páginas dos veículos da marca Ciência Hoje. Muito além da divulgação científica, o que o Brasil e a comunidade brasileira de C&T comemoram, neste agosto de 2002, é o mérito da conquista, em duas décadas, de sedimentar a ciência como um direito de todos. JC e-mail