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Ciência traz novo uso do pau-brasil

Publicado em 13 outubro 2008

Por Cristina Amorim

Estudos exploram formas de utilização da árvore-símbolo do País; semente pode ajudar em tratamentos médicos

Quatro séculos de superexploração do pau-brasil quase levaram um dos símbolos do País à extinção e ao desconhecimento pela população. Agora uma nova frente de utilização se delineia - e, desta vez, de forma sustentada. Moléculas da planta estão em estudo para que um dia sejam usadas no tratamento de doenças, sem que uma árvore sequer seja cortada.

O machado e o fogo de antigamente foram substituídos, no século 21, por técnicas muito mais delicadas, como a cromatografia líquida e a eletroforese em gel - métodos bastante usados para separar misturas e moléculas em laboratórios.

A matéria-prima é a semente do pau-brasil. Nas mãos de cientistas, essa pequena estrutura, de apenas um centímetro de diâmetro, pode servir de base para futuros tratamentos médicos. Estão envolvidos nesse grupo pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade de São Paulo (USP) e da Faculdade de Medicina da Santa Casa.

Todos os estudos estão em fase inicial e precisam ser aprimorados, tanto para detalhar a eficiência quanto a segurança de sua utilização. Um longo caminho precisa ser percorrido entre o fim das pesquisas e a sua aplicação real, mas os resultados são promissores.

Os pesquisadores já sabem, por exemplo, que uma proteína chamada CeKI apresenta propriedades anticoagulantes e antiinflamatórias. Em testes de laboratório, in vitro e em ratos, a CeKI ajudou na prevenção de coágulos. A proteína também foi eficiente no controle da dor e da inflamação em pelo menos um caso, contra o veneno de um peixe encontrado no Nordeste chamado niquim.

A CeKI será agora testada no tratamento do mal de Alzheimer, já que atua como inibidor de uma enzima envolvida na doença, a calicreína. A psoríase (inflamação na pele que provoca escamação) é outra doença que está na mira dos cientistas.

Outro composto também tirado da semente, a proteína CeEI, reduziu edemas pulmonares em coelhos, quando ocorrem inchaço e acúmulo de líquidos nos pulmões.

“Esperamos que essas moléculas sejam úteis em tratamentos”, afirma Mariana da Silva Araújo, da Unifesp. “E esperamos ser capazes de reproduzir o composto sem que seja necessário retirá-lo da semente, para não agredir a natureza.” Nesse sentido, o gene da proteína CeKI já foi clonado, em um passo importante para sua síntese.

Paralela à iniciativa dos pesquisadores de São Paulo, uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) relatou, há dois anos, que a brasileína – forma oxidada da substância tirada do cerne do pau-brasil e aplicada como corante - inibiu em 87% o desenvolvimento de câncer em camundongos. E, na década de 1980, uma pesquisa mostrou que o pó do tronco apresenta propriedades anti-sifilíticas.

As novas perspectivas de exploração do pau-brasil investigadas pela ciência se beneficiam da cultura popular. Na medicina do povo, o pó da casca é usado como antidiarréico e amenizador de cólicas menstruais. O chá das folhas combate diabete. Nada ainda com comprovação científica, tudo a ser explorado pelos pesquisadores brasileiros interessados.

Mais conhecimento

Por meio de um projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que terminou em 2005, um conjunto de dados foi obtido em instituições públicas e particulares. Ele acaba de ser condensado no livro Pau-brasil, da semente à madeira, editado pelo Instituto de Botânica e pela Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo e publicado pela Imprensa Oficial do Estado.

“É uma forma de devolver à população o conhecimento sobre o pau-brasil, para quem tem o interesse em conhecê-lo e cultivá-lo”, explica a organizadora, Rita de Cássia Ribeiro.

Cientistas de outras áreas, como a botânica, avançam no entendimento sobre a árvore. A intenção não é apenas desvendar um símbolo da história do País, mas garantir sua sobrevivência, para que futuras gerações tenham contato com a planta que deu origem à palavra “brasileiros”.

O pau-brasil tem a comercialização restrita por uma convenção internacional, a Cites, e está na lista brasileira de espécies ameaçadas de extinção. Mesmo com essas limitações, se depender dos cientistas, ele em breve voltará a ser reconhecido por quem carrega seu nome.

Madeira tem uso restrito e hoje vira arco de violinos

Cavacos de madeira vermelha no chão denunciam que em uma pequena oficina na zona oeste de São Paulo o pau-brasil é a matéria-prima. Eles são restos de ripas transformadas pelas mãos habilidosas do arqueteiro Daniel Lombardi em arcos para instrumentos de cordas, usados por músicos de todo o País.

Desde o século 18, a madeira do pau-brasil é considerada a mais adequada para a produção do objeto. Ela apresenta características ideais para a finalidade: estabilidade, plasticidade quando aquecida - parte do processo de manufatura -, beleza, cor, textura e bom comportamento na hora de fazer vibrar as cordas do instrumento.

Essa é atualmente a única aplicação comercial em larga escala da árvore-símbolo do Brasil. Sua utilização na arquetaria mundial ajudou a colocá-la na lista de espécies ameaçadas de extinção, somada à exploração intensiva dos europeus durante 400 anos para ser usada como corante na indústria têxtil. Hoje, seu corte depende de autorizações especiais.

Lombardi tem uma tora de 70 metros cúbicos adquirida antes das limitações de derrubada. Como o uso é racional - ele não descarta imediatamente uma ripa por causa de um nó, por exemplo, como fazem alguns arqueteiros puristas -, e sua produção é de três arcos por mês em média, ele não prevê a compra de mais madeira. “Um metro cúbico dá para uma vida”, diz. Cavacos e lascas que sobram são recolhidos e aproveitados por um artesão.

O leque se abre

Tão importante quanto a economia é a experimentação que ele conduz, em parceria com o pesquisador Eduardo Longui, do Instituto Florestal, para testar o potencial de outras madeiras. Eles analisam de 10 a 12 espécies, entre elas as nativas maçaranduba e pau-santo.

Cada uma passa por todas as fases de produção do arco - é cortada, oitavada, flexionada. A densidade e a capacidade de propagação de ondas são medidas e anotadas. “Estamos trabalhando para tentar estabelecer parâmetros para outras madeiras”, afirma. “Se a gente não usar as informações, elas podem servir para outras pessoas no futuro.”

Uma peça clássica que sai do rádio toma a oficina. O arqueteiro, um ex-arquiteto que tomou gosto pela profissão com o pai autodidata, ouve com atenção. “É para isso que eu trabalho, para essa música”, diz, entre um sorriso. Pelo menos uma espécie, o ipê, já serve de matéria-prima nas mãos do arqueteiro, sem ônus para a qualidade do que é tocado.

(O Estado de SP, 12/10)