Notícia

Jornal da Unesp

Ciência sem barreiras

Publicado em 01 abril 2013

Por André Louzas

Um novo arsenal tecnológico, em especial aquele relacionado à Internet, começa a mudar a forma como o meio científico armazena e transmite o conhecimento. Bancos de dados e outros recursos permitem que as informações estejam disponíveis para pesquisadores de vários países e especialidades, como também para a sociedade em geral. No entanto, essa tendência ainda está nos seus primeiros passos e precisa enfrentar muitos obstáculos.

O acesso à informação científica foi o tema da conferência “Science as an open enterprise: open data for open science” (“Ciência como iniciativa aberta: dados abertos para uma ciência aberta”), realizada na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em São Paulo, no dia 28 de fevereiro. O evento reuniu três palestrantes: Philip Campbell editor-chefe da revista Nature; Martyn Poliakoff, secretário de Relações Exteriores da Royal Society (a academia de ciências da Grã-Bretanha); e Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.

O presidente da Fapesp, Celso Lafer, abriu o encontro, cujas discussões foram moderadas por Poliakoff e pelo diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação, José Arana Varela, professor do Instituto de Química da Unesp de Araraquara.

DADOS SEM TRAVAS

Além de abordar a política editorial da Nature, Campbell apresentou o documento Science as an open enterprise, publicado pela Royal Society e redigido por um grupo de trabalho que ele também integrou. Citando o texto, ele enfatizou que os dados científicos devem obedecer a quatro princípios: a) ser de fácil acesso; b) numa linguagem que os torne compreensíveis; c) elaborados de forma a permitir a avaliação de seu conteúdo; e d) utilizáveis por outros pesquisadores.

Pela proposta defendida por Campbell, a disseminação da informação científica envolve o apoio da tecnologia, por exemplo, com computadores e softwares que garantam a criação e uso desses repositórios, além de especialistas que facilitem o acesso a suas informações.

Ao mesmo tempo, o documento defende uma mudança cultural, para que os dados científicos não sejam mais vistos como propriedade privada. Assim, os cientistas deveriam se esforçar para comunicar suas descobertas, as universidades e outras instituições precisariam valorizar a produção de dados abertos da mesma forma que estimulam as publicações em periódicos, e os governos deveriam adotar políticas para abertura das informações científicas, bem como dos próprios dados governamentais.

Campbell destacou bancos on-line de dados abertos, como o Worldwide Protein Data Bank, com informações sobre estruturas tridimensionais de grandes moléculas. “A noção de ciência aberta desperta discussões em vários países, embora seja um processo ainda em fase inicial”, avaliou Campbell.

Em sua palestra Poliakoff também enfatizou as possibilidades geradas pela tecnologia para a divulgação das práticas científicas. Para o dirigente da Royal Society, a população está cada vez mais interessada em assuntos como mudanças climáticas e quer conhecer melhor as atividades dos cientistas. Brito Cruz apontou iniciativas brasileiras de informação aberta, como, por exemplo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o programa Scielo, que contém coleções de periódicos científicos brasileiros e latino-americanos. “Nem todos os países abrem seus bancos de dados como o Brasil vem fazendo”, assegurou.

TRANSPARÊNCIA

Professora da Faculdade de Filosofia e Ciências, da Unesp de Marília, Heloisa Pait acredita que, se as propostas do Science as an open enterprise forem implantadas, haverá uma mudança profunda no meio universitário. “Os alunos, por exemplo, dependerão menos de seus professores para chegar ao conhecimento”, esclarece.

Bancos de dados numa linguagem mais compreensível, segundo a socióloga, também podem permitir que a sociedade compreenda o que é produzido pelos cientistas. No entanto, Heloisa adverte que há muitos interesses contrários à democratização de informações, lembrando o caso do ativista da Internet Aaron Swartz. Processado por autoridades dos EUA por compartilhar em domínio público artigos da revista JSTOR, Swartz se suicidou em janeiro deste ano.

Fernando Braz Tangerino Hernandez coordena uma equipe da área de Hidráulica e Irrigação do Câmpus de Ilha Solteira que mantém sites e um blog, além de postar vídeos no You Tube, para disseminar informações sobre irrigação e agrometeorologia tanto para especialistas quanto para produtores rurais e o público em geral – com destaque para os dados gerados pela Rede Agrometeorológica do Noroeste Paulista. Para ele, a informação gerada pelo pesquisador não pode ficar restrita ao meio acadêmico. “Há uma grande demanda por dados climáticos”, argumenta. “E a sociedade precisa saber o que é feito dos recursos que ela investe na universidade.”