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Ciência precisa de linguagem acessível

Publicado em 22 maio 2006

Por Eduardo Cunha, Repórter da UnB Agência
Jornalista acredita que complexidade de termos usados por especialistas é barreira para a divulgação científica

Você já ouviu falar sobre proteoma? E sobre peptídeo? Ou então sobre refração sísmica profunda? A maioria das pessoas também não, mas entre cientistas das áreas de Genética, Biologia e Geologia esses termos são corriqueiros e até mesmo simples. Mas para a jornalista e diretora de redação da Revista Pesquisa FAPESP, Mariluce Moura, a complexidade do palavreado técnico usado por cientistas e professores representa uma barreira para a divulgação científica. "O repórter não é obrigado a dominar essa linguagem. Cabe ao cientista colaborar para tornar a notícia mais acessível", afirma. Para contornar esse problema, ela sugere que sejam apresentadas metáforas com noções aproximadas do que significa determinada descoberta e o impacto que ela pode ter na sociedade.
Mariluce foi uma das palestrantes da mesa A (Im)Possível Relação entre Cientistas e Jornalistas, realizada na manhã de segunda-feira, 22 de maio, durante o seminário A Relação entre as Assessorias de Comunicação e a Imprensa, que comemora os 20 anos da Assessoria de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). A jornalista conta que existem conceitos científicos que são intraduzíveis para uma linguagem do senso comum e cita que alguns assuntos são mais fáceis de se transformarem em matérias jornalísticas pelos repórteres, como os da área de Saúde e da Biologia. "Os conceitos de Física, por exemplo, são mais difíceis de se transformar em um material jornalístico atraente, legível e compreensível", avalia.
Impacto social - Apesar dessas diferenças de linguagem, Mariluce afirma que a relação entre cientistas e jornalistas é possível e fundamental em nome do interesse social. "A ciência precisa divulgar para a sociedade o que ela produz e de que forma isso pode afetar a vida cotidiana. A sociedade se transforma com aquilo que é gerado pelo conhecimento científico", avalia. Um exemplo disso é o que acontece na área de saúde, no que diz respeito à manipulação de células-tronco. "Só com base na divulgação para a sociedade acompanhar o que vem sendo descoberto e promover uma discussão pertinente acerca disso", propõe.
Para a professora do Departamento de Jornalismo da UnB, Dione Moura, a relação entre jornalistas e cientistas muitas vezes é tida como impossível porque muitos pesquisadores ainda não têm a consciência da importância para a sociedade da divulgação das descobertas científicas. Ela aponta que Assessoria de Comunicação (ACS) da UnB tem estrutura que aproxima esses dois agentes para facilitar a divulgação do conhecimento. A professora acredita que episódios como as bombas atômicas de Hiroshima e na Nagasaki (ao final da 2ª Guerra Mundial) e o acidente nuclear em Chernobyl (em 1986) serviram para mudar a relação da ciência com a sociedade. "Hoje em dia a sociedade participa mais de questões que envolvem a ciência, como o que fazer com o lixo tóxico, os efeitos da globalização epidêmica e os alimentos transgênicos", avalia.
Prestação de contas - Outro palestrante da mesa foi o cientista da área de Doença de Chagas, pesquisador de alta produtividade do CNPq e professor da UnB, Antônio Teixeira. Ele considera que não existe assunto difícil na ciência que não possa ser divulgado para o entendimento de todos. Para isso, no entanto, é importante que o cientista seja simples e direto. Teixeira comenta que muitos pesquisadores brasileiros viajam ao exterior para realizarem pesquisas com financiamentos do governo. "Isso só é possível com o dinheiro dos impostos pagos pela população. A sociedade tem o direito de saber como esses recursos estão sendo investidos", analisa.
Teixeira ressalta que a divulgação de conhecimentos científicos produzidos nas universidades é educativa, informativa e uma maneira correta de a instituição justificar os investimentos feitos pelo governo. "A assessoria de comunicação de uma universidade existe para divulgar os trabalhos científicos realizados. As instituições de pesquisa públicas devem prestar contas à sociedade", sugere. O debate foi mediado pela editora de Pauta da Assessoria de Comunicação da UnB, Carolina Valadares. Para ela, o diálogo entre cientistas e jornalistas além de possível é muito importante. "A intenção do debate é discutir formas de alcançar esse entendimento", afirma.