Notícia

Jornal da Unesp

Ciência para o bem do país

Publicado em 01 dezembro 2014

Por Daniel Patire

Como garantir que a crescente produção científica brasileira tenha um significativo impacto social e econômico no país? Esse desafio marcou os debates entre representantes de 211 instituições de ensino superior integrantes do Fórum de Pró-reitores de Pós-graduação e Pesquisa (Foprop), nos dias 19 a 21 de novembro. Os dirigentes se reuniram no XXX Encontro Nacional de Pró-reitores de Pesquisa e de Pós-Graduação (Enprop), em Águas de Lindoia (SP).

Com o tema “Universidade e sociedade: um diálogo necessário”, o evento que marcou os 30 anos de criação do Fórum fez também um balanço de sua atuação na ampliação da produção científica brasileira e na superação de algumas assimetrias regionais, por meio de propostas de políticas públicas e do intercâmbio de experiências entre os participantes.

Pelos dados da última avaliação trienal 2010-2012 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o país conta com 3.337 programas de pós-graduação, que compreendem 5.082 cursos, sendo 2.893 de mestrado, 1.792 de doutorado e 397 de mestrado profissional. Em 2012, foram publicados 171.969 artigos em periódicos científicos, o que confere ao país a 13a colocação em um ranking mundial de produção intelectual, em 2013; e o número de estudantes que obtiveram título de mestre ou doutor teve um salto de mais de 21%, passando de 50.411, em 2010, para 60.910, em 2012.

“O tema do nosso encontro é uma proposta para encontrarmos caminhos para que o crescimento da pesquisa no país se reverta em desenvolvimento econômico e social”, disse a pró-reitora de Pesquisa da Unesp, Maria José Soares Mendes Giannini, presidente da comissão organizadora dessa edição do Enprop.

Interação e Inovação

A questão enfatizada por Maria José foi o cerne das discussões nas cinco mesas-redondas e quatro conferências programadas. Os palestrantes focaram a necessidade de uma maior aproximação entre as universidades, empresas e governos, como forma de transferência do conhecimento para a produção e, assim, a geração de riquezas para o país.

“A inovação se dá no instante em que as pesquisas se transformam em produto”, salientou Arlindo Philippi Júnior, professor da USP e membro do Conselho Superior da Capes. “Mas devemos reforçar os esforços para que essa inovação seja acompanhada de inclusão, para que ela seja realmente transformadora.”

Philippi foi um dos palestrantes do evento, além do ministro Clélio Campolina Diniz, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do presidente da Capes Jorge Almeida Guimarães, e de representantes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Academia Brasileira de Ciências e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Diniz abordou o carro-chefe atual do seu ministério, o Programa Nacional das Plataformas de Conhecimento (PNPC). Lançado em 25 de junho pela presidente Dilma Rousseff, o programa reúne os Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Educação e do Desenvolvimento, em torno de análises de temas centrais para o país, como petróleo, aeronáutica e bioenergia.

Por meio do PNPC, podem ser constituídos arranjos público-privados para a articulação de competências com base numa infraestrutura de ciência e tecnologia e inovação avançada, envolvendo universidades, instituições de pesquisa e empresas. “As políticas públicas voltadas a diminuir as desigualdades sociais, muito importantes nas últimas décadas, têm um limite. E apenas com o avanço da produção, a partir da educação, ciência e tecnologia, poderemos alcançar uma sociedade menos desigual”, salientou.

Mais recursos

Guimarães destacou que os países com maior produtividade científica aplicam mais de 2% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e inovação. O Brasil está hoje em 13º lugar no ranking da produção científica, e almeja estar entre os dez primeiros até 2024, de acordo com os Planos Nacionais de Pós-Graduação e de Educação. “Para melhorarmos nos rankings ou aumentar o impacto de nossa pesquisa é preciso aumentar o investimento e alcançar os 2% do PIB”, destacou o presidente da Capes.

Também participaram das mesas-redondas representantes das empresas Microsoft e Padtec, e o diretor técnico de operações do Parque Tecnológico de São José dos Campos, Elso Alberti Júnior. “Os diversos parques tecnológicos do Estado de São Paulo procuram promover a interação entre empresas e universidades, como também incubar novas empresas nascidas a partir de pesquisas científicas e do empreendedorismo dos pós-graduandos”, destacou Alberti.

Para a presidente da SBPC Helena Nader, a pesquisa no Brasil é realizada, quase que em sua totalidade, pelas universidades e, dentro delas, pelos Programas de Pós-graduação. “Nos últimos quatro anos, há uma queda acentuada do investimento do governo federal em pesquisas”, apontou a dirigente. “Devemos exigir que parte dos recursos obtidos com o petróleo seja também alocada para a pesquisa, como será para a educação e a saúde.”

Isac Almeida de Medeiros, presidente do Foprop, assinalou que o encontro reforçou a importância da luta por mais recursos para a pesquisa e a pós-graduação. “E contribuiu para que cada participante procure em sua universidade a melhor forma de interagir com suas comunidades locais”, concluiu.