Notícia

GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade

Ciência para a conservação

Publicado em 18 dezembro 2008

Por José Sabino

“A riquíssima biodiversidade do Mato Grosso do Sul integra o vasto patrimônio natural do Brasil. Deve ser cuidadosamente protegida e, ao mesmo tempo, inteligente e criativamente explorada com bases científicas”

José Sabino (sabino-jose@uol.com.br) é pesquisador da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp), onde coordena o Projeto Peixes de Bonito (MS), e ex-superintendente de C&T do Estado de Mato Grosso do Sul.

Artigo publicado na “Revista Terra da Gente”:

Sabemos que biodiversidade é um tema crucial para o Brasil. Detentores de vasta riqueza biológica, os biomas brasileiros abrigam ao menos 15% de todas as espécies da Terra. Diante desse inestimável patrimônio vivo, o País tem grande responsabilidade para com a sua população e para com o mundo.

Ao mesmo tempo, enfrenta o dilema, sem pronta solução, de cuidar da preservação ambiental e estimular o desenvolvimento econômico. A questão angustia todo o Planeta e tem desdobramentos importantes – às vezes devastadores – notadamente em países em desenvolvimento localizados nos trópicos.

Manter essa riqueza biológica envolve apreciáveis investimentos em recursos para a produção de conhecimento científico, além da proteção à própria riqueza. A despeito do caráter oneroso, a tarefa de gerir tal patrimônio representa grande vantagem estratégica, pois oferece numerosas oportunidades de uso da biodiversidade.

Neste cenário de desafios, um Estado com as características ambientais do Mato Grosso do Sul – que detém perto de 70% do Pantanal, importantes áreas remanescentes de Cerrado, fragmentos de Mata Atlântica de Planalto e extensões de Chaco – não pode ficar sem uma política de pesquisa científica em biodiversidade.

Sendo assim, ainda como gestor de Ciência e Tecnologia do Estado, incentivei a elaboração do Programa Biota-MS e busquei recursos junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e ao Governo Estadual, contabilizando um montante inicial da ordem de R$ 2 milhões para um amplo programa de pesquisa e desenvolvimento.

O Mato Grosso do Sul passa por um intenso período de crescimento econômico. Mesmo com a crise mundial a causar estardalhaço nas bolsas de valores, novos empreendimentos no setor sucroalcooleiro e de silvicultura, novas obras de energia e infra-estrutura de transporte fazem parte de sua agenda de desenvolvimento. A implementação equilibrada dessas obras e a conservação dos riquíssimos sistemas naturais existentes, tal e qual se espera de um governo responsável, são hoje a maior prioridade. Mais que retórica política ou marketing verde, o desafio da sustentabilidade é o novo padrão de desenvolvimento para o mundo moderno.

Programas de ciência e tecnologia devem contribuir fortemente para a construção de tal padrão, em um momento no qual o Brasil precisa divulgar ao mundo uma imagem menos lesiva ao ambiente. Entendo que conservação e desenvolvimento são agendas interligadas e, atrevo-me a dizer, o Biota-MS trouxe muito dessa visão moderna, equilibrada e focada na racionalidade do conhecimento científico e tecnológico.

Mas ainda há muito a se trabalhar para dar a adequada visibilidade à Ecologia, que produz saber e informação balizada pelo conhecimento científico, mas é recorrentemente confundida pelos gestores e pela sociedade com o ativismo ambiental. Seguramente, um programa como o Biota-MS trará informações qualificadas e ajudará o Estado a caracterizar sua biodiversidade, dando suporte para a conservação, avaliação do potencial econômico e utilização sustentável.

O Biota-MS deve manter, ainda, estratégia de ação contínua, considerando que pesquisas de qualidade em biodiversidade apenas se materializam se incluírem políticas de financiamento e compromissos institucionais para manutenção das atividades de modo duradouro. Experiências bem-sucedidas de outros locais – como o Programa Biota-Fapesp, em São Paulo – devem ser empregadas para troca de conhecimento, modelo de gestão e métodos de trabalho, compartilhando protocolos de coleta de dados e sistemas gerenciais.

A riquíssima biodiversidade do Mato Grosso do Sul integra o vasto patrimônio natural do Brasil. Deve ser cuidadosamente protegida e, ao mesmo tempo, inteligente e criativamente explorada com bases científicas. Se assim for aproveitada, colocará o Estado em posição estratégica em um novo cenário mundial, onde a demanda por novos caminhos para a economia se pautará – de fato – na sustentabilidade e na inovação.

José Sabino é pesquisador da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp), onde coordena o Projeto Peixes de Bonito (MS)

Jornal da Ciência (SBPC)