Notícia

A Cidade (Ribeirão Preto)

Ciência no Brasil está acima da média

Publicado em 21 outubro 2008

Em tempos de desempenho positivo da economia brasileira, com alguns arroubos ufanistas antecipando “ovos de ouro” nas reservas de pré-sal da Petrobras, mais um dado a ser interpretado pelos nossos cientistas políticos e sociólogos de plantão: a produção científica brasileira está crescendo em ritmo mais acelerado que a média mundial. A informação foi confirmada pelo presidente do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Marco Antônio Zago, ao detalhar o perfil do financiamento de pesquisa no país. Depois que se desligou da diretoria do Hemocentro de Ribeirão Preto há mais de um ano, para assumir a presidência do CNPq, em Brasília, o cientista manteve suas pesquisas locais, porém em ritmo menos intenso.

O presidente do CNPq garante que a produção de artigos científicos brasileiros de qualidade, está quatro vezes maior do que a média mundial. “O nosso crescimento é real e não apenas vegetativo. Estamos mudando de patamar. Tem a ver com disponibilidade permanente de recursos na área federal e com a participação dos Estados através de suas fundações de amparo às pesquisas”, analisou o pesquisador, integrante do primeiro escalão dos cientistas brasileiros.

Aponta também a consolidação dos cursos de pós-graduação do país que formam “doutores de qualidade”, em torno de 10 mil pesquisadores por ano. Ao mesmo tempo, ocorreu uma mudança na imagem do pesquisador junto ao setor privado. As indústrias estão começando a se interessar e apoiar as pesquisas, uma perspectiva que tende a melhorar. Um exemplo: o grupo Votorantim investiu na criação de empresas de base tecnológica, como a Alellyx, que deverá produzir melhoramento de plantas, animais, obtendo conhecimento a ser empregado na indústria.

Liderança

O aumento de artigos científicos de qualidade do país é maior na área de Medicina e Biologia. Já a China e a Coréia, também de crescimento rápido na produção de Ciência, estão voltadas mais para as áreas tecnológicas, como ciência da computação, engenharia, ciência dos materiais, entre outras.

Marco Antônio Zago disse que o país não só lidera na América Latina, com 10 mil novos doutores por ano, como em número de cientistas em atividade. A plataforma de currículos Lattes, do CNPq, por exemplo, tem cerca de 1 milhão e 200 mil currículos inscritos.

Quantos cientistas ativos?

“Admito que esse cálculo é difícil: só no diretório de grupo de pesquisas estão 90 mil nomes, contra 15 mil que pediram recursos no edital universal de pesquisas. Eu diria que existem em torno de 40 mil cientistas ativos no país, fazendo pesquisas e utilizando recursos; é um número estimado próximo da realidade”, calcula, informando que o país mantém a liderança na América Latina também em quantidade de pesquisadores. “Além disso, também somos o país que mais investe em Ciência e Tecnologia, per capita. O México está próximo e, bem abaixo, o Chile e a Argentina.”

Eixo especial no Interior

O eixo formado pelas regiões de Campinas, Araraquara, São Carlos e Ribeirão Preto, no interior, é responsável pelo aumento do investimento em ciência e tecnologia, o que se traduz em maior importância política do setor, com pesquisas de importância internacional.

“Temos não só uma grande quantidade de artigos que saem daqui, como pessoas que ocupam cargos de gestão na área da ciência e tecnologia do país”, lembrou.

De Ribeirão Preto, por exemplo, além do próprio Zago, que preside o CNPq, é também a Reitora da USP.

O presidente da Embrapa, Silvio Crestana é de São Carlos; o atual reitor da Unesp é de Jaboticabal e o diretor científico da Fapesp é de Campinas.

Terapia com embrionárias ainda depende de pesquisa

“O fato do Supremo Tribunal Federal não aceitar o pedido do procurador geral da República para impedir as pesquisas com células-tronco embrionárias, garantiu a manutenção e eventual expansão desses estudos.

Do ponto de vista legal, continuou a mesma coisa e também do ponto de vista da pesquisa. Se o STF tivesse dito que era inconstitucional, aí sim, haveria uma mudança na situação”, fez questão de esclarecer o presidente do CNPq, Marco Antônio Zago. Para ele, ainda existe muita confusão em torno desse assunto.

A manutenção das pesquisas com células-embrionárias não significa que já temos condições de fazer tratamentos. Temos pela frente muitos anos de pesquisas para testar todas aquelas potencialidades esperadas, alertou. Esclareceu que as hipóteses em torno do uso das células-embrionárias precisam ser examinadas, primeiro em animais e depois em seres humanos.

“Isso demora. E como sempre ocorre em ciência, algumas hipóteses se mostrarão positivas e outras não.”

O problema, segundo ele, é que esse tipo de pesquisa e eventual terapia ganhou celebridade instantânea. E nesse caso, os pesquisadores falam sobre hipóteses, seus sonhos e possibilidades.

“E as pessoas ficam com a idéia que é prática já estabelecida”, frisou Zago.

Terapia Celular

Mesmo tendo se demitido da direção do Hemocentro de Ribeirão Preto, o professor Zago continua coordenando um projeto financiado pela Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que apóia dez Centros de pesquisa no Estado, os Cepids. O Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão de Ribeirão Preto é o Centro de Terapia Celular que desde 2001, com oito pesquisadores, se dedica às pesquisas de células-tronco de adultos e faz também pesquisa relacionada com o câncer, “porque o câncer é uma célula que se origina de certa forma em células-tronco”.

Zago ainda participa das pesquisas e orienta alunos de doutorado e pós-doutorado, mas admite que sua contribuição diminuiu por causa da presidência do CNPq. Mesmo sendo coordenador do CEPID perante a FAPESP, diz que o grupo de Ribeirão Preto está se organizando para fazer uma proposta de pesquisa na área também de células-embrionárias, perante o CNPq. “É um grupo forte, espero que sejam bem- sucedidos.”