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São Carlos Dia e Noite

Ciência no boteco: a matemática invade São Carlos

Publicado em 20 maio 2015

O que é a beleza? A pergunta que instiga a humanidade e já tentou ser respondida por filósofos, artistas, cientistas e tantos outros especialistas e pessoas comuns continua sem uma resposta exata. Mas na noite do dia 19 de maio, dois matemáticos são-carlenses se arriscaram a relacionar esse conceito indefinido – a beleza – com a matemática.

"Quando uma pessoa vê um quadro que considera belo ou escuta uma música que julga ser bonita ativa uma região do cérebro que se localiza logo acima dos nossos olhos. E quando um matemático se depara com uma equação que julga bela, essa mesma região é ativada", explicou o professor Daniel Smania, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP.

Enquanto as possíveis conexões entre matemática e beleza eram estabelecidas diante da plateia em frente à praça XV de Novembro, em São Carlos, um debate mobilizava o público na rua Sete de Setembro, a menos de um quilômetro dali. Lá, o tema também era matemática, porém sob outra perspectiva: suas relações com a economia solidária. "A matemática está atrelada ao nosso cotidiano e também é importante na cadeia do empreendedorismo em economia solidária para a realização de ações e a tomada de decisões", contou a professora Renata Meneghetti, do ICMC.

Os dois bate-papos sobre matemática marcaram a segunda noite do festival de divulgação científica Pint of Science no Brasil. São Carlos é a primeira cidade da América Latina a participar do evento, que está mobilizando mais de 50 cidades espalhadas por oito países. O Pint of Science prossegue até esta quarta-feira, 20 de maio (confira a programação). Durante as três noites do festival, cientistas de várias partes do mundo saem de seus laboratórios para mostrar o que eles estão pesquisando e qual o impacto disso na vida das pessoas.

O papo é matemática e beleza – "Para tornar a matemática interessante e bela, precisamos fazer conexões com a vida real. Como somos movidos pela necessidade, se vislumbrarmos a importância do raciocínio lógico no nosso dia a dia, poderemos enxergar a beleza da matemática e despertar novos talentos", argumentou a professora Thaís Jordão, coordenadora do debate sobre matemática e beleza. "Mas se continuarmos ensinando matemática de uma forma extremamente mecânica, não alcançaremos esse objetivo", completou.

Na exposição de Daniel Smania, a beleza da matemática foi dividida em quatro diferentes aspectos: a beleza dos objetos matemáticos, dos problemas matemáticos, das aplicações matemáticas e dos argumentos matemáticos. Em relação aos objetos matemáticos, o professor trouxe como exemplo a imagem de um fractal chamado conjunto de Mandelbrot (assista ao vídeo: icmc.usp.br/e/0d4fc).

Um fractal são figuras geométricas que fogem ao padrão dos tradicionais quadrados, círculos, retângulos e triângulos, que fazem parte da geometria ensinada nas escolas. Um fractal é como uma famosa boneca russa – as matrioscas – que contém bonecas menores dentro de si. Em cada fractal, há cópias menores similares ao todo e, dentro de cada uma dessas cópias, existem cópias ainda menores e, assim, sucessivamente. Definidos por uma teoria matemática sofisticada, os fractais se materializam em belíssimas formas e cores através de imagens geradas por computadores.

"Um raio não se parece com uma reta. A superfície do mar não é plana. Uma montanha não é um tetraedro. Se tentarmos compreender o mundo usando as figuras geométricas tradicionais, não vamos conseguir entendê-lo. Precisamos de uma nova geometria para descrever essas coisas, e é aí que nasce a geometria fractal", revelou Smania.

Já em relação à beleza dos problemas matemáticos, o professor fez um paralelo com o futebol: "Se você é um bom jogador de futebol, não vai querer jogar bola contra mim. Você vai ganhar fácil. Você precisa de alguém que esteja no seu nível, para desafiá-lo. Com os matemáticos também é assim: precisamos de problemas que nos desafiem, mas que não estejam muito além das nossas capacidades, a ponto de termos alguma esperança de que possamos ganhar a partida."

O bate-papo também contou com a participação do biólogo Luiz Roberto Jordão, que é proprietário de um orquidário em Corumbataí, a cerca de 55 quilômetros de São Carlos. "A beleza inspira a perfeição. Quando vamos julgar uma orquídea, que é minha paixão, precisamos analisar a perfeição da flor pela sua simetria", disse Jordão, que levou algumas orquídeas para demonstrar os critérios empregados nos julgamentos das associações orquidófilas.

O papo é matemática e economia solidária – "Economia solidária é uma forma diferente de gerar renda, pautada nos princípios da cooperação, solidariedade e autogestão", explicou a professora Renata no início do debate sobre matemática e economia solidária. Ela contou sobre o trabalho realizado pelo grupo de pesquisa em Educação e Matemática Solidária (EduMatEcoSol) do ICMC em parceira com o Núcleo Multidisciplinar e Integrado de Estudos, Formação e Intervenção em Economia Solidária (NuMI-EcoSol) da UFSCar.

Os pesquisadores realizam intervenções em empreendimentos em economia solidária, criando formas alternativas de trabalhar o processo de ensino e aprendizagem de matemática. Para isso, usam o conceito da etnomatemática, que é uma forma de ver a matemática considerando as condições econômicas, sociais e culturais do contexto em que ela está inserida. Por exemplo: a matemática vivenciada pelos indígenas, pela dona de casa, pela costureira, pelo empresário é distinta em função das diferentes realidades em que essas pessoas vivem. "A etnomatemática é motivada pela busca do entendimento do saber e fazer matemática no transcorrer da história da humanidade, que muda constantemente. Levando essas transformações em conta, é possível deixarmos a matemática mais interessante para ser ensinada e aprendida", explicou Renata.

Segundo um dos participantes do debate, o mestrando Tiago dos Santos Junior, da UFSCar, o projeto realizado pelos pesquisadores conecta matemática e sustentabilidade: "Sustentabilidade é quando a gente consegue usar o sistema e o meio ambiente, satisfazendo nossas necessidades sem prejudicar as futuras gerações. Nesse sentido, a economia solidária e a educação matemática, envolvendo também os empreendimentos, permitem que as novas gerações sejam incluídos e participem de alguma forma dos aprendizados e princípios propostos".

Entre os diversos participantes do debate, estava também Rose Macedo, que faz parte de um dos empreendimentos em economia solidária, o Banco Nascente. "Estou há quatro anos envolvida com economia solidária e com um banco comunitário atuante em uma periferia mais carente. Aprender e aplicar a matemática é essencial para todo o processo de empréstimos disponibilizados à comunidade, pois é preciso calcular corretamente as planilhas para fornecermos a quantia certa a cada morador", finalizou.

Sobre o Pint of Science – No Brasil, o Pint of Science está sendo realizado pelo ICMC e conta com o apoio dos restaurantes Mosaico e Espaço Sete, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), do Núcleo de Apoio ao Software Livre (NAPSoL) e do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP.

Escrito por  Assessoria de Comunicação ICMC - USP