Notícia

Ensino Superior

Ciência na Universidade

Publicado em 01 janeiro 2005

O principal agente do financiamento para a pesquisa na universidade deve continuar sendo o governo e o Estado brasileiro precisa buscar instrumentos para apoiar os centros de pesquisa e estimular o desenvolvimento tecnológico. Sem isso, o Brasil não conseguirá um lugar entre os países que disputam um espaço na fronteira do conhecimento tecnológico. Esse alerta foi feito pelo professor Carlos Henrique de Brito Cruz, reitor da Unicamp e novo diretor científico da Fundação para Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo(FAPESP). Na opinião do reitor, o real papel da universidade "é o de educar gente que vai para as empresas, usando o conhecimento obtido para criar tecnologia' Quanto à natureza desses estudos, ele destaca a pesquisa básica, que tem "como importante função ajudar a ensinar e a formar estudantes' enquanto a pesquisa voltada ao desenvolvimento tecnológico é realizada em menor número, pois esbarra em questões como propriedade intelectual, "que não é o foco da universidade".
A polêmica sobre o papel do ensino superior ganhou novos contornos na última etapa da Temática Semestral, promovida pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Na palestra "A universidade e a pesquisa' Brito Cruz afirmou que um certo "utilitarismo tem pautado a discussão sobre pesquisa, cobrando-se da universidade resultados da quilo que não lhe é atribuído'
Para o reitor, existe o "utilitarismo de direita' em que a escola deve ajudar as empresas a desenvolverem- se tecnologicamente; e o "utilitarismo de esquerda" visão na qual o ensino superior deve ajudar a sociedade a se desenvolver, diminuindo a desigualdade social.
Quanto ao financiamento, Brito Cruz diz que o principal agente deve continuar sendo o governo, contando sempre com a participação das empresas, que terão "um papel limitado, pois esta não é a regra' afirma, recorrendo novamente à definição do "utilitarismo"
Brito Cruz comemorou o fato de a pesquisa brasileira ter quintuplicado sua produção em cerca de dez anos, com 1,2% da produção mundial em 2002, mesmo ano em que formou mais de 7,5 mil doutores. Fato que, segundo o reitor, coloca o Brasil ao lado de China e Coréia como os três países que mais crescem na produção de pesquisa, de acordo com dados sobre Pesquisa & Desenvolvimento, da Organização das Nações Unidas para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE).
Enquanto o Japão investe 3% do PIB em P&D, Coréia, Estados Unidos e Alemanha destinam 2,7%, o Brasil reserva 1% do PIB para essa área. Ele chama a atenção, entretanto, para o fato de o investimento em P&D feito mundialmente só pelos governos apresentar o Brasil (0,6% do PIB) em pé de igualdade com Alemanha, França e Estados Unidos, que estão entre 0,7% e 0,8%. E co é difícil aumentar essa porcentagem. "Um crescimento de 0,1% do PIB representaria para o Brasil cerca de R$ 1,5 bilhão em recursos?' Ao passo que, pros segue ele, os investimentos em P&D pelas empresas significam 2,2% do PIB no Japão, 1,8% na Coréia, 1,7% nos Estados Unidos, 1,6% na Alemanha e 0,4% no Brasil. Para Brito Cruz, os números mostram que "a indústria não tem interesse em patrocinar pesquisas dentro da universidade, ao preferir investir em laboratórios próprios. Vai à universidade para ter contato com as fronteiras do conhecimento e ver quem vai contratar nos próximos anos.
Nos Estados Unidos, apenas 7,5% da pesquisa é financiada pelas empresas, cabendo o restante ao governo. O que ocorre lá e em outros países por conta de imensas dificuldades que surgem para as empresas em lidar com questões como relação ao sigilo do trabalho, tempo disponível, dicotomia entre "pesquisar ensinando e pesquisar rápido" e a natureza da pesquisa (pura, aplica da ou voltada ao desenvolvimento tecnológico). O ponto negativo apontado pelo reitor é que as instituições de ensino brasileiras não são capazes de medir a pesquisa que fazem. "Não temos dados sobre o setor, mas todo mundo acha que tem a solução para esses problemas. Todo mundo dá opinião, mas sem ter dados" lamenta.
Com relação a patentes, Brito Cruz igualmente não vê espaço para sua busca na fronteiras das universidades. Nos EUA, apenas 3% das patentes vêm das escolas e 97% ficam por conta das indústrias. "É difícil ter receita da patente; pode-se considerá-la um bônus para a universidade, mas não fonte principal de renda" argumenta. Segundo ele, uma instituição famosa como Stanford arrecada apenas 3% com patentes; o MIT, apenas 2% e a Universidade da Califórnia, 4%, sobretudo de software. Yale chega a 13%, mas por conta de um único produto farmacêutico, e apenas Columbia atinge o excelente resultado de 32%.
Depois de apresentar um balanço que em suas linhas gerais é positivo para a pesquisa, o reitor da Unicamp ressaltou que "o Estado brasileiro precisa bus car instrumentos para apoiar a pesquisa e estimnular o desenvolvimento tecnológico' Sem isso, prosseguiu ele, o aumento do número de doutores e de artigos publicados é um fato isolado e insuficiente para promover esse desenvolvimento. "Como vamos financiar a universidade? Ou a economia vai crescer ou vai-se discutir o refinanciamento da universidade brasileira. Porque corremos o risco de o contribuinte perguntar por que estão se formando tantos doutores se eles não têm emprego? Da mesma forma, assembléias legislativas e o Congresso também poderão fazer os mesmos questionamentos."
Para finalizar a discussão que se seguiu à sua apresentação, Brito Cruz defendeu a adoção de uma reforma universitária mais funcional e cobrou do corpo docente das universidades rigor no cumprimento da dedicação exclusiva às aulas e à pesquisa, conforme o regime de NRD6 (professor com dedicação exclusiva ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu). "Na Unicamp, procuramos mostrar aos professores que o regime de dedicação exclusiva não é um direito, mas sim um privilégio." Questionado pela audiência se a absorção do excedente de doutores se daria via universidade privada, o reitor acha que "esse modelo não poderá progredir muito mais do que já progrediu, uma vez que tais instituições também têm suas limitações orçamentárias e não podem tirar mais recursos das mensalidades dos alunos" O professor aposentado do Instituto de Física da USP Ernest Hamburguer sugeriu a colocação, nas escolas de ensino médio, dos doutores que por ventura se encontrem desempregados. Algo que era relativamente comum de se ver na escola pública representada pelo antigo ginásio e o colegial até o fim da década de 70 no Brasil.