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Ciência na Rua: projeto contemplado pelo Instituto Serrapilheira promove ciência entre os jovens

Publicado em 19 agosto 2019

“Olha para cima/ olha para baixo

Quem ta no céu/ quem ta no ar

Olha para lado/ olha para outro

Ciência na Rua/ fazendo o mundo girar”

Por Carolina Sotério e Adriana Giachini

“É tudo questão de como a gente vê o mundo.*

Quando cita o produtor e rapper Kondzilla e o seriado Sintonia (em cartaz na Netflix), a jornalista baiana Mariluce Moura não mostra apenas que está antenada com a cultura brasileira e o funk carioca. Ela reafirma o fato de que suas raízes criadas na periferia de Salvador, onde nasceu e cresceu, permanecem dando o norte à sua carreira que, neste agosto de 2019, completa 50 anos, dos quais 30 deles dedicados ao jornalismo científico.

“Minha preocupação é a de como falar sobre ciência, quais as formas de divulgação científica, especialmente para a população jovem, de 14 a 25 anos. Como despertar provocações científicas nesses adolescentes e jovens de baixa renda do Brasil? O seriado Sintonia mostra a realidade de uma sociedade que se dá em três pólos: tráfico, o trabalho das igrejas e a música. Penso que a ciência também pode ser a música”, confessa Mariluce, durante bate papo com alunos do curso de especialização em Jornalismo Científico, do Labjor, na última segunda-feira (12/08).

Criadora da Revista Fapesp – uma das mais importantes publicações brasileiras de divulgação científica, da qual foi diretora entre 1999 e 2014; ela é nome referência na luta pela popularização da ciência e democratização do conhecimento. Com passagens por veículos conhecidos como Jornal da Bahia, Tribuna da Bahia, O Globo, Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil, tem também no currículo atuação em cargos como o de assessora de comunicação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), assessora de comunicação da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de São Paulo e a presidência da Associação Brasileira de Jornalismo.

Apesar de tanta experiência e do tempo de carreira, Mariluce Moura está longe de falar em aposentadoria ou retrospectivas. Com fôlego de iniciante, dedica-se desde 2016 ao projeto Ciência na Rua, criado por ela, e que, como diz o nome, quer levar a ciência para os jovens do Brasil. O programa acaba de ser selecionado, entre 537 propostas, para a segunda fase do Camp Serrapilheira, um programa de incentivo à divulgação científica no Brasil, e concorre a uma bolsa de R$ 100 mil reais ano como estímulo financeiro. Foram escolhidos 36 projetos para 15 auxílios concedidos nesta edição de 2019. “Claro que precisamos da bolsa, mas ser selecionado já é um grande presente para nós”, conta a jornalista.

“A receita está na disposição/ Disposição para a solução ser boa para gente” *

“Eu não diria que eu quero ter o mesmo número de seguidores que os maiores youtubers do país, mas eu acho que se a gente conseguisse chegar a alguns milhões dessa população jovem de 14 a 25 anos, a nossa contribuição para essa expansão da cultura científica se faria mais efetiva”, diz a jornalista.

A frase chega quando o tema são redes sociais e formas de se comunicar com os jovens diante de tanta tecnologia. “Nasci na periferia de salvador, morei no subúrbio, não era pobre, mas sei das dificuldades da vida e penso em como a ciência pode construir novos olhares. O Ciência na Rua traz essa visão de como o jornalismo científico se comunica com um público pouco habituado, como os jovens. E sinceramente ainda não tenho a resposta. Estamos testando linguagens, pesquisando a eficácia delas. Se o relato, a narração, os vídeos, os podcasts, o que funciona?

“Da teoria ao fato, juntamos assuntos, giramos juntos. Pergunte ao universo”*

Conversar com jornalistas, educadores e engajados na divulgação científica tem sido parte do trabalho de Mariluce Moura em sua estratégia de divulgar e viabilizar cada vez mais o Ciência na Rua. Compartilhar experiências e receber ideias é, para ela, ferramenta importante.

Em entrevista para a ComCiência, a jornalista falou com detalhes sobre os atuais desafios, a estrutura do projeto e aspirações.

Foto: Mariluce Moura falando com os estudantes do LabJor sobre o Ciência na Rua/Divulgação.

ComCiência – Quais são os maiores desafios que você tem hoje com esse projeto?

Mariluce Moura (MM) – Primeiro é realmente conseguir construir a parte toda de humor, ligados à feitura do trabalho jornalístico. Que a gente tenha recursos pra fazer o podcast bem-humorado, pra fazer história em quadrinho, charge, fazer vídeos que são desafiadores (que eu não sei se a forma é a animação ou se é como eu queria desde sempre com algum personagem muito engraçado e fora do senso comum). A gente vai ter que experimentar muito. Então essa parte da construção do humor pra tratar dos assuntos que são notícia na área de ciência e inovação é um grande desafio. O outro grande desafio é construir uma personalidade dentro das redes sociais que permita de fato expandir essa produção que a gente faz para um público muito amplo.

ComCiência – Você tem uma grande bagagem com a revista pesquisa Fapesp, que dialoga principalmente com pessoas que estão nas universidades e que de certa forma já têm um certo interesse em ciências. E agora criou um projeto direcionado para um público de 14 a 25 anos. Como se deu a adaptação da linguagem para eles?

MM – Se você conseguir amarrar o texto jornalístico com o rigor da precisão da informação que está dando sobre determinado achado científico, sobre determinada refutação (e, portanto, revisão de conceito científico), se você conseguir escrever isso de maneira clara (e pra você escrever de maneira clara é preciso ter entendido você mesma antes de sentar no computador e escrever isso), se você entender e tem uma facilidade de escrita, você consegue passar essas informações para o texto.

ComCiência – E como foi pensada a estratégia de se utilizar o humor sem perder o embasamento científico?

MM – Acho que o ponto de partida é como eu transito do artigo científico para as perguntas que eu vou fazer pro pesquisador, que vai me dar mais detalhes sobre o achado e o que isso tem de novo. Preciso saber o que na literatura científica está contestando aquele achado, pois a gente precisa entender quais são os argumentos científicos que outros cientistas a sério estão dando. Uma vez que você fez esse trabalho, que é o seu próprio trânsito entre o artigo científico e sua possibilidade de reportar isso para um público mais amplo, você está apto então para escrever. E aí, eu acho que raramente daria pra ir direto de um artigo científico para uma charge. A intermediação entre o artigo científico e o humor é o texto jornalístico. Então o rigor da informação nesse texto jornalístico é fundamental para que você consiga passar pros outros a informação correta.

ComCiência – Aonde pretende chegar com o Ciência na Rua? O que você ainda não começou, mas que se realizaria se o projeto contemplasse?

MM – Eu gostaria que o Ciência na Rua estivesse efetivamente na rua. Que ele estivesse [presente] nas mídias sociais. Que quando fosse uma necessidade ele tivesse também uma parte impressa, não com a periodicidade semanal que eu pensava antigamente, mas que com alguma periodicidade tivesse um veículo impresso que desse conta do trânsito que a gente fez até ali. Mas sobretudo eu gostaria que estivesse nas mídias sociais de uma maneira ampla: com muita gente seguindo, com muita gente trocando ideias com a gente, sugestões, criticando… Falando de tal modo que o Ciência na Rua fosse um entre muitos elementos que contribuísse para ampliar a cultura científica no Brasil.

Atualmente o Ciência na Rua conta com inúmeras produções de acesso gratuito em sua plataforma. Entre elas estão os vídeos do “O que é isso?”, que trata de apresentar brevemente a fala de um especialista sobre uma determinada área de estudo; os podcasts com a Dona Claudine, que revela uma conversa bem humorada de uma senhora de idade aprendendo sobre ciência; uma série de reportagens, crônicas, notícias e muito mais.

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Adriana Giachini é jornalista, formada pela PUC Campinas (1999), possui especialização em Jornalismo Literário e atualmente é estudante de jornalismo científico no LabJor Unicamp

Carolina Sotério é mestranda em química pela USP e estudante de jornalismo científico no LabJor Unicamp

* Os intertítulos (em negrito) foram retirados do Rap da Ciência (Confira aqui: https://youtu.be/BAwYkf9TvPo).