Notícia

Jornal do Brasil

Ciência na era da globalização

Publicado em 02 outubro 1998

Por JOSÉ LEITE LOPES*
O desenvolvimento da ciência desde o século XVII, em conjunção com a emergência do capitalismo, forneceu os instrumentos para a compreensão das leis do mundo físico e para o estudo dos seres vivos em laboratório, abrindo caminho para a busca de novos produtos e processos de produção, assim como para as invenções de máquinas e equipamentos. Começava a transformação científica e tecnológica dos países hoje ditos desenvolvidos, da Europa Ocidental. Algumas sociedades, entretanto, imersas em contextos históricos diferentes, sujeitas a forças econômicas, políticas, culturais e religiosas específicas, ou subjugadas pela conquista e pela guerra, não desenvolveram a busca do conhecimento científico - ou isso não lhes foi permitido - e perderam ferramentas básicas para acompanhar o processo evolutivo, e até para assegurar a própria sobrevivência. Em determinadas regiões da hoje chamada América Latina, as civilizações Inca, Azteca e Maia atingiram surpreendentes níveis de desenvolvimento cultural e material. Contudo, na primeira metade do século XVI, espanhóis e portugueses, movidos pela cobiça, conquistaram esses povos e aniquilaram seus sistemas sociais, mas não substituíram as culturas locais por algo que favorecesse o desenvolvimento científico, cultural e material. De fato, embora tenham realizado feitos notáveis, especialmente no campo das ciências e técnicas da navegação, Espanha e Portugal, tolhidos pela forte influencia da Igreja, quase não participaram do grande despertar científico europeu do século XVII. Outro estorvo para o nosso desenvolvimento científico e cultural foi a dependência política e econômica das Américas Central e do Sul, pois as colônias eram vistas apenas como ricas fontes de matérias-primas, a serem exploradas a preços vis (e decrescentes) pelas poderosas metrópoles européias, que fechavam o ciclo do enriquecimento exportando produtos industriais para as colônias, a preços desproporcionalmente crescentes. Assim, em virtude de diferentes formas de interação com o mundo físico, estabeleceram-se desigualdades entre as nações, crescentemente agravadas pela ação de forças econômicas e políticas. As sociedades industrializadas surgiam e floresciam graças, em parte, ao domínio sobre as nações agora chamadas subdesenvolvidas. Atualmente, a economia, a ciência e a cultura são impostas pelas nações avançadas. As empresas poderosas dessas nações instalaram-se em todos os quadrantes, e passaram a dirigir os destinos dos diversos povos. Apesar de tudo, muitos cientistas talentosos fizeram importantes trabalhos na América Latina especialmente a partir de meados do século XIX. Enquanto na América do Norte, com a vitoriosa guerra de libertação, em 1776, surgiram notáveis estadistas e homens de cultura, como Thomas Jefferson e Benjamin Franklin; no Brasil, os inspiradores de movimentos semelhantes foram eliminados. A independência política, no século XIX, não mudou a natureza do sistema econômico da América Latina. Em lugar disso, houve uma abertura para a dominação da Grã-Bretanha. Ao mesmo tempo, arraigava-se em nossos países uma espécie de dogma pelo qual o desenvolvimento econômico seguia as regras de uma competição livre. As chamadas elites locais, quase sempre em defesa de interesses estrangeiros, esqueciam que o domínio econômico e político desequilibrava a competição, e aceitavam que nosso destino era o de exportar matérias-primas, em benefício dos países industrializados. Sobre estes alicerces fortaleceu-se a sociedade escravista, e a educação básica do povo foi negligenciada (Leite Lopes, Science and dependent development, Interciência 2, 1977, pág. 139). "Era aceito que nunca seríamos capazes de produzir bens materiais tão bem quanto a Inglaterra e outros países, e que se tentássemos fazê-lo e nos tomássemos protecionistas, certamente sofreríamos retaliações sobre as nossas exportações agrícolas" (O.G Velho, Capitalismo autoritário e campesinato, Difel, 1976). Subseqüentemente, a industrialização dos países latino-americanos, pelo processo de substituição de importações, iniciado no começo do século XX, teve como conseqüência direta a imitação de produtos e de meios de produção, assim como a aquisição de tecnologias desenvolvidas nos países avançados. Considerava-se vantajoso que os conhecimentos científicos e tecnológicos necessários à industrialização já viessem incorporados nas máquinas e instalações importadas do estrangeiro. Isto decorria, em parte, da tendência retrograda e acomodatícia das classes dominantes, para as quais os institutos de pesquisa tecnológica não faziam falta, pois não havia indústrias. Daí que, também, as universidades latino-americanas foram criadas muito tardiamente. Entretanto, apesar da força do processo de industrialização por substituição de importações, surgiram em alguns países da América Latina estadistas esclarecidos que perceberam a importância das universidades e instituições de pesquisa para seus países, e tomaram medidas concretas para criá-las. Infelizmente, no caso brasileiro, tudo que foi feito nesse sentido vem sendo minuciosamente desmantelado pelo atual governo que, com os cortes nos orçamentos do setor; a dócil submissão a pressões externas para alterar a legislação de propriedade industrial vigente desde os anos 70 (Lei de Patentes); e a desnacionalização de estatais que estimulavam projetos de pesquisa, assumiu uma posição passiva, no tocante à criação científica e tecnológica. Explico que a importância das empresas estatais para o desenvolvimento da tecnologia local vem do fato que, mesmo com a expansão do sistema universitário, as empresas privadas locais sempre dependeram de maquinaria e tecnologia importadas, pois os empresários latino-americanos não percebem que pesquisa tecnológica é um fator essencial para o desenvolvimento e melhoria da qualidade de seus produtos. Cabe ainda assinalar que a deficiência dos sistemas de educação básica, em quase todos os países da América Latina, ameaça a própria segurança desses países. Por fim, mesmo sabendo que há obstáculos, não devemos aceitar passivamente que o mundo estará para sempre dividido entre as mesmas nações ricas e pobres, e que estas são incapazes de criar tecnologias. Até os países ricos da Europa encontram dificuldades para desenvolver tecnologias essenciais, apenas com recursos próprios. Para contorná-las, reúnem esforços financeiros e humanos em grandes realizações científicas e industriais. Aí está uma boa idéia, a ser aproveitada: juntar esforços das nações da região, para multiplicar a capacidade de investimento em ciência e tecnologia, abrindo a nossos cientistas e engenheiros campos de pesquisa básica e aplicada que nenhum país latino-americano poderia explorar isoladamente. * Professor Emérito da Universidade Louis Pasteur, de Estrasburgo (França), da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas