Notícia

Jornal da Unicamp

Ciência na AL: ajustar ou morrer

Publicado em 01 setembro 1998

Por Fernando Reinach
Os países da América Latina atravessam mudanças rápidas e drásticas, na política e na economia. Hoje, na maioria deles, os presidentes foram eleitos democraticamente, houve privatização em larga escala e as economias, agora abertas ao comércio internacional, se estabilizaram. Essas mudanças significam um desafio á comunidade científica e às universidades. Elas tanto podem sair revigoradas desse turbilhão, como fortes parceiros para o progresso econômico de seus países, como podem se deixar pôr de lado, como maquinaria incapaz de responder às novas demandas. Depois de muitos anos de estagnação e resistência a governos anteriores, é importante que as universidades e a comunidade científica estejam preparadas, como um todo, para responder a esse desafio. QUESTÕES HISTÓRICAS Durante os anos 70 e 80, a maioria dos países da região esteve sob regimes militares. Suas economias ficaram em grande parte isoladas em virtude das altas taxas de importação e das severas restrições ao fluxo de capital: os mercados locais foram mantidos como reserva para os produtores locais, poupados da competição internacional. A produção industrial se baseava em tecnologia ultrapassada, importada de países desenvolvidos onde já era obsoleta. No Brasil, por exemplo, um computador custava sete vezes o preço praticado nos EUA, onde o mesmo modelo já não estava mais em produção, e a maioria dos novos carros eram equipados com motores desenvolvidos nos anos 50. Empresas estatais financiadas com dinheiro emprestado eram garantidas por leis de monopólio, o que incluía a maior parte do petróleo e das indústrias de aço, as telecomunicações e a geração de energia. No fim dos anos 80 esse modelo econômico entrou em colapso na região. Perdeu-se o controle da divida externa e da inflação, o desnível tecnológico aumentou, as estatais se mostraram incapazes de cumprir seus papéis. Quem precisasse de um telefone no Brasil só tinha a escolha de comprá-lo no mercado negro por cerca de US$ 3 mil ou de esperar na fila por mais de três anos. Taxas de inflação de 1000% ao ano não eram incomuns no Brasil, na Argentina e no Chile. Não havia necessidade econômica real de investir em ciência, mas a retórica de "desenvolvimento baseado na ciência" manteve a ciência viva. Essa retórica atendia aos objetivos nacionalistas dos governos e era usada pela indústria local para conservar o mercado fechado. Também era útil para os cientistas: mantinha o fluxo de recursos e permitia o crescimento de comunidades científicas relativamente grandes nos países da AL. Cursos de graduação proliferaram nas principais universidades e muitos estudantes foram enviados ao exterior com bolsas de doutorado ou pós-doutorado. A ciência básica sobreviveu e cresceu com os recursos limitados disponíveis. Como resultado. Brasil, Argentina, Chile e México têm hoje comunidades científicas de bom tamanho, baseadas principalmente nas universidades públicas e em grande medida isoladas do setor industrial. MUDANÇAS RECENTES Nos últimos anos, os governos recém-eleitos implementaram políticas de abertura de mercados. Essas mudanças receberam, de modo geral, apoio popular, pois as altas taxas de inflação decorrentes do velho sistema tinham péssimo efeito sobre os salários. Em diferentes níveis e em diferentes países, as empresas estatais estão sendo privatizadas, os mercados foram abertos à competição estrangeira e grande fluxo de capital da nova cara a muitos setores da economia. No Chile, empresas privadas concorrentes de telefonia têm aparelhos rivais, lado a lado, nas calçadas. Telefones celulares servem áreas isoladas na Argentina, onde os telefones por cabos terrestres ainda são inacessíveis. Fm Brasília o sistema de TV a cabo chega através de rápida conexão com a Internet. Os consumidores podem desfrutar de produtos melhores e mais baratos, e logo se beneficiarão de serviços mais eficientes, mas ampla fração da economia está lutando para sobreviver. Setores inteiros são varridos pela competição estrangeira, e outros tentam desesperadamente sobreviver tornando-se mais competitivos. Como efeito, o desemprego atingiu recordes na Argentina e cresce rapidamente no Brasil. Tentando forçar a competição, governos de muitos países começaram gradualmente a reduzir as taxas de importação. As reduções e o influxo de capitais de empresas estrangeiras que instalam meios modernos de produção, forçarão, por sua vez, a produção obsoleta a se modernizar. O DESAFIO À FRENTE Creio que a pressão econômica mudará a relação entre ciência e sociedade. O que está em questão é se a comunidade científica quer e está preparada para sair ganhando com as mudanças. Claro que grande parte da demanda por nova tecnologia será atendida pela importação, como mostra o recente acordo entre o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Finep. Mas e claro também que parte dessa demanda irá para as universidades e para a comunidade científica, nem que seja porque o setor industrial espera retomo dos seus impostos - na AL, a maioria das universidades e pública. As universidades estaduais de São Paulo recebem cerca de 10% dos impostos do listado. Cedo ou tarde elas terão que fazer algo para mostrar seu trabalho. Essa demanda nos forçará a um confronto com a realidade econômica. Poderão as universidades seguir em completo isolamento do setor industrial, concentrando todo o seu esforço de pesquisa no ensino de ciência básica? Ou, em vez disso, deverão dedicar fração de seu esforço a geração e à transferência de nova tecnologia para o setor industrial? Embora a maioria dos cientistas concorde em que elas deveriam fazer essa mudança, poucos compreendem que da obrigara as universidades a seguir um rumo que vai alterar drasticamente sua natureza. Para mover-se nessa direção, as universidades terão de aprender novo conjunto de habilidades. Instituições onde o trabalho de consultoria e estritamente proibido terão de aprender como regulamentá-lo, ao mesmo tempo que preservam sua qualidade acadêmica e a ciência básica. Um ambiente que há pouco aprendeu a valorizar a publicação como critério de produtividade agora terá de aprender a valorizar projetos tecnológicos para os quais a publicação não raro é irrelevante. Essas questões, parte do cotidiano dos cientistas na Europa e nos Estados Unidos, ainda não estão sendo discutidas na AL. EFEITOS DA MUDANÇA Se a meta não é converter a universidade em instituição devotada só à pesquisa aplicada, e se devemos preservar uma ciência básica forte ao lado da pesquisa tecnológica para a indústria, então o valor visível da ciência deve aumentar. Tais mudanças já são claras em muitos países. No Chile, por exemplo, espera-se das faculdades que gerem parte de seus fundos via trabalho de consultoria. Agências de financiamento como a Fapesp e o PAIXT no Brasil têm programas de apoio a projetos baseados na colaboração direta entre indústria e universidades. Na Argentina, muitas pequenas empresas de biotecnologia foram montadas por cientistas, iniciativa estimulada num período de salários muito baixos. Mas se a comunidade científica não responder bem a essas mudanças, a resistência a elas pode aumentar dentro das universidades e, pior ainda, os governos podem reduzir os recursos para as universidades antes que as mudanças tenham tempo para se concretizar. Sinais dessa tendência já são observados no Brasil: o governo, frustrado com sua incapacidade para racionalizar os gastos nas universidades federais e sem o poder político para impor cortes seletivos nas piores unidades, está lentamente apertando o orçamento para todo o setor. Esses sinais preocupam, pois na AL as instituições estatais raramente são extintas, mas são abandonadas à morte por negligência e falta de recursos. A pressão econômica também mudará a forma pela qual os recursos são alocados as universidades e institutos de pesquisa. O sistema atual, hoje tacitamente reconhecido como perdulário, paga salários a um staff não produtivo e o resultado é a avaliação deficiente dos projetos científicos e uma infra-estrutura administrativa inflada e ineficiente. Argumenta-se que o percentual do PIB gasto em ciência na AL, embora mais baixo que nos países desenvolvidos, é suficiente para sustentar o crescimento da ciência, se for destinado aos relativamente poucos cientistas produtivos. A despeito disso, as universidades sempre têm sido comparadas ás empresas estatais, igualmente mal administradas. Os efeito da privatização, com o conseqüente aumento da produtividade, vão acabar com tal comparação e despertar a consciência pública, esperando-se que se crie forte exigência por prestações de conta e indicadores claros de eficiência. Se tiver exilo, esse processo pode resultar, para as universidades, numa estrutura administrativa remodelada, capaz de tomar decisões firmes (algumas universidades no Brasil garantem seu poder com salários integrais antes da obtenção do doutorado), de dispensar os incompetentes, de podar custos administrativos, com maior independência financeira, graças a doações e a outras formas de financiamento. Mas as mudanças são difíceis. A maioria dos cientistas na AL é de funcionários públicos mal pago, com um emprego por toda a vida um salário pago pelo governo e a garantiu de aposentadoria, cedo, com salário integral. Na USP, cerca de metade da folha de pagamento vai para professores e funcionários aposentados. Esses privilégios, inexistentes nos países desenvolvidos, são considerados importantes pelo corpo funcional e constituem apoio histórico para a liberdade de expressão nas universidades. Estarão os membros das faculdades preparados para confiar num governo democrático e trocar tais privilégios por salários mais altos? E importante insistir. Se as universidades resistirem á mudança inevitável, podem se dar mal. Se é consenso que as universidades usam mal o que recebem e se a privatização continuar a mostrar vantagens, a sociedade pode decidir que as universidades públicas são dispensáveis. Então os governos podem se ver tentados a privatizar todo o sistema universitário ou a substituí-lo pelo sistema privado. A AL está numa difícil encruzilhada. Otimista, vejo a situação como uma oportunidade impar. As mudanças econômicas oferecem a correta combinação de pressão e incentivos para permitir melhoria drástica na qualidade da ciência produzida na AL e nos seus efeitos possíveis sobre o desenvolvimento da região. Essa oportunidade não deve ser desperdiçada. O establishment científico na AL é como espécie biológica confrontada com grande mudança no meio ambiente: se for flexível o bastante para se adaptar, evoluirá, caso contrário entrará em extinção. Fernando Reinach é professor titular do Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo