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Ciência mais próxima de todos

Publicado em 28 setembro 2007

Por Washington Castilhos, Agência FAPESP

Autor de 12 livros de ciência para o público infanto-juvenil, o australiano Simon Torok destaca a importância de falar sobre o assunto de forma divertida na abordagem sobre questões importantes na atualidade, como o aquecimento global


Autor de 12 livros sobre ciência dirigidos ao público infanto-juvenil, o meteorologista Simon Torok, do Centro Nacional de Pesquisa Marinha e Atmosférica (Csiro), na Austrália, aponta que alcançar os jovens, falando sobre ciência de forma divertida, é uma maneira de alcançar a sociedade em geral e apontar questões que merecem atenção — como as mudanças climáticas.

Em suas obras, o cientista combina dois gêneros: a ficção e o factual. "É importante passar informações factuais dentro de uma trama de ficção", observou Torok, durante o seminário Ciência e Criança, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz, no RJ, até quinta-feira (27/9), como uma das atividades que precedem a Semana Nacional de C&T, que será realizada de 1º a 7 de outubro.

O meteorologista revelou caminhos para falar aos jovens sobre assuntos importantes como mudanças climáticas, nanotecnologia e manipulação genética, sem a dramaticidade e os exageros muitas vezes propagados pelos meios de comunicação.

"É necessário desafiar os jovens a participar de soluções para questões que ainda não foram solucionadas", disse em entrevista à Agência Fapesp.

Segundo um levantamento feito por Torok com jovens australianos, os tópicos mais populares entre os adolescentes são invenções e descobertas, genética e corpo humano, computadores, clima e meio ambiente.

Dos jovens entrevistados, mais da metade mostrou-se receosa de um dia faltar água no planeta, enquanto cerca de 40% revelou receio de o mundo acabar nos próximos anos. O pânico, segundo ele, é fruto do efeito negativo das mensagens catastróficas difundidas em veículos como a internet.

- Como falar sobre assuntos como as mudanças climáticas sem ser ou parecer alarmista?

As mudanças no clima estão ocorrendo muito mais rápido do que estimávamos dez anos atrás. A temperatura está aumentando, assim como o nível do mar. Existe uma urgência em obter informações sobre o assunto. Mas isso tudo como se o mundo fosse acabar amanhã. Penso que deva haver mais otimismo, ainda podemos fazer algo para reduzir a concentração de gases e reverter esse quadro. São interpretações mal feitas e que têm sido passadas aos jovens. Além disso, as soluções apresentadas pelos canais de comunicação têm sido simples demais, do tipo "troque sua lâmpada, recicle papel". Isso ajuda, mas não resolve. As mudanças têm de começar pelas grandes indústrias.

- O que há de errado na forma como essas informações têm sido passadas?

Há algumas áreas de falsas interpretações. Uma delas diz respeito à confusão entre mudança climática e outros problemas como o buraco na camada de ozônio e a poluição do ar. Esses três fatores são coisas diferentes. Outro erro é o uso aleatório dos termos efeito estufa natural e efeito estufa exagerado, provocado pelos gases que estamos emitindo para a atmosfera. Os resultados disso são o aquecimento global e as mudanças climáticas. É importante usar esses termos no contexto certo. Mas isso não tem ocorrido. Quando acontece uma tempestade forte, as pessoas logo dizem: "Isso foi causado pelas mudanças climáticas". Como se pode dizer que um evento isolado foi causado pela mudança climática? Não podemos dizer. Essa tempestade pode ser resultado de uma variação natural do tempo.

- Qual seria a abordagem correta?

Com o aumento do nível de informação vieram as abordagens negativas de temas como as mudanças climáticas, o efeito estufa e o aquecimento global. São coisas diferentes, mas freqüentemente utilizadas aleatoriamente, como se tratassem das mesmas coisas, e isso confunde ainda mais as pessoas. É importante diferenciar a mudança climática de variação climática, que significa uma variabilidade natural do clima. A abordagem correta deveria estar baseada sobre a mudança no comportamento das pessoas. Penso que os meios de comunicação deveriam tentar ser os mais exatos possíveis, isto é, checar os dados antes de noticiar informações negativas e propagar tragédias.

- Essa preocupação dever ser ainda maior em relação à comunicação com os mais jovens?

Certamente. Falar aos jovens é essencial. Temos de ter cuidado com a linguagem que vamos usar com eles, que são os que mais recebem as informações vindas tanto dos cientistas como dos meios de comunicação.

- Quais seriam outros temas científicos atuais que podem causar esse tipo de pânico quando mal informados?

A nanotecnologia é um deles. Na Austrália, as pessoas têm se mostrado preocupadas com o tema, porque não entendem completamente o que esse campo significa. Muitos pensam que existirão robôs fora de controle e que eles dominarão a Terra. Isso é um medo do desconhecido. Outro temor diz respeito aos organismos geneticamente modificados. As pessoas precisam saber dos benefícios que essas novas tecnologias vão trazer. A manipulação genética de alimentos permite que alimentos cresçam em áreas difíceis, por exemplo. O que tem de estar em evidência são os aspectos positivos. Em relação aos negativos, não podemos nos limitar a somente falar sobre eles, mas sim em criar mecanismos de como evitá-los ou resolvê-los.

(Agência Fapesp, 28/9)