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Terra Magazine

Ciência lá e aqui

Publicado em 20 março 2012

Por Riad Younes

A pesquisa médica conseguiu, nos últimos 30 anos, impressionantes avanços científicos e no atendimento aos doentes. Estima-se que a produção de conhecimento foi maior durante este período, que em toda a história da humanidade. Os centros de pesquisa se multiplicaram, com desenvolvimento de técnicas aplicáveis na área médica.

Os EUA tiveram a maior participação nesta aventura, e com isso "vende" tecnologia médica para o resto do mundo. O Brasil também desenvolve pesquisas médicas, mas ainda está no início do caminho, comparado com países como EUA ou Japão. Várias são as causas de nossa produção mais tímida. Uma delas se relaciona ao modo como se criam condições de trabalho e dedicação aos pesquisadores médicos em nosso país.

Recentemente, retornou ao Brasil Dr. Phillip Scheinberg, médico hematologista e oncologista do Centro de Oncologia do Hospital São José em São Paulo, e pesquisador de renome internacional, com extensa produção científica. Ele trabalhou como cientista do maior centro de pesquisa médica, no NIH (Institutos Nacionais de Saúde) uma das agências federais do Departamento de Saúde dos Estados Unidos.

Conversamos com Dr. Scheinberg sobre sua experiência no NIH, e no Brasil.

Terra Magazine - O NIH é um grande gerenciador de pesquisa nos EUA?

Phillip Scheinberg - O maior gerenciador de fundos para pesquisa clínica e laboratorial do mundo, com verba em 2010 de aproximadamente US$30 bilhões. Cerca de 10% desse valor é destinado aos 6.000 cientistas que trabalham dentro dos laboratórios do NIH (Bethesda, EUA). O restante é usado por especialistas fora do NIH.

Quais são as condições oferecidas aos cientistas médicos?

As facilidades para a realização de pesquisa nos EUA são muitas. No âmbito de pesquisa clínica, há grande apoio de pessoal com enfermeiras especializadas em pesquisa, gerentes de informação e bancos de dados, além de apoio na análise bioestatística. Gerentes de protocolos garantem que os estudos estão de acordo com as normas institucionais e federais.

Assim o médico consegue se concentrar na pesquisa?

Sem dúvida. Com essa estrutura, o investigador responsável pode dedicar-se exclusivamente às suas funções de contextualizar, desenvolver e conduzir o protocolo clínico. Esse trabalho inclui captar, analisar e interpretar os resultados além de garantir a integridade e a ética do estudo.

Como foi tua experiência no NIH?

Minha inserção pessoal por dez anos neste contexto permitiu vivência e produção cientifica bastante rica, para o desenvolvimento de novos tratamentos para diversas doenças hematológicas como as leucemias, mielodisplasias, e aplasias de medula óssea.

Faciltaram teu acesso à tecnologia?

Muito. O acesso a produtos essenciais para os estudos - tais como reagentes e aparelhos específicos - chegam alguns dias após a solicitação do material. A verba destinada às pesquisas laboratoriais incluem o salário dos investigadores, de forma que eles possam se dedicar exclusivamente a esse trabalho. Um aspecto muito importante é a aproximação entre os pesquisadores clínicos e os laboratoriais, que permite uma rápida transferência do conhecimento gerado no laboratório para o paciente.

E no Brasil, como encontrou o apoio à pesquisa após teu retorno?

No Brasil a estrutura para pesquisa clínica e laboratorial vem crescendo nos últimos anos com melhora nos fundos de pesquisa e criação de centros especializados. A Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo(FAPESP) faz as vezes do NIH na distribuição de fomento para pesquisas no Estado de São Paulo. A FAPESP recebe fundos oriundos de impostos arrecadados no Estado. Em 2010, a entidade distribuiu mais de R$600 milhões. Além da FAPESP, há outras agências de apoio à pesquisa a nível federal no Brasil, como o CNPq, e a FINEP, que também financiam estudos e projetos focados na inovação em empresas, universidades, e institutos tecnológicos. Tanto o CNPq como a FINEP estão vinculados ao Ministério das Ciências e Tecnologia.

O apoio ao pesquisador é semelhante ao NIH nos EUA?

Não. No Brasil, os fundos geralmente não incluem os salários dos investigadores, dificultando a dedicação exclusiva à pesquisa e os custos associados a estudos clínicos geralmente não são cobertos pela agência de São Paulo. Além disso, há grande demora na liberação e na obtenção de vários materiais e/ou animais para pesquisa em laboratório, o que dificulta a realização de experimentos e a competitividade com laboratórios internacionais.

Riad Younes é professor Livre Docente da Faculdade de Medicina da USP. Médico do Centro Avançado de Oncologia do Hospital São José e do Núcleo Avançado do Tórax do Hospital Sírio Libanês, São Paulo. Especialista em câncer de pulmão. Foi Diretor Clínico do Hospital Sírio Libanês de março 2007 a março 2011.

Fale com Riad Younes: rnyounes@terra.com.br