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Correio da Paraíba online

Ciência estuda "venenos da floresta"

Publicado em 31 janeiro 2010

São Paulo (Agência Fapesp) - Em dezembro, Hipócrates Chalkidis começou a ir com frequência à Floresta Nacional do Tapajós, próxima à cidade paraense de Santarém, às margens do Tapajós, um dos mais largos afluentes do Amazonas. Chalkidis e um grupo de estudantes de biologia das Faculdades Integradas do Tapajós (FIT) vão enterrar dezenas de baldes para coletar serpentes durante um ano e meio. Os escorpiões e aranhas que caírem nas armadilhas não servirão apenas para ampliar o conhecimento sobre a riqueza biológica da região. Denise Cândido, bióloga do Instituto Butantan, entregou em dezembro para Chalkidis um aparelho portátil de extração de venenos construído por estudantes de engenharia elétrica e professores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Os venenos alimentarão pesquisas de novas toxinas, em uma das vertentes de um amplo programa de trabalho que há quatro anos tem aproximado especialistas do instituto paulista e os de centros científicos e médicos do Pará.

Com sorte Chalkidis e sua equipe coletarão vários exemplares do escorpião-preto do Pará, o Tityus obscurus. Todo negro, com até nove centímetros de comprimento, ele causa a maioria dos 1.300 casos anuais notificados de picadas de escorpiões na Região Norte. Com mais bichos à mão, a equipe do Butantan poderá trabalhar mais rapidamente para resolver o que ainda é um mistério: o soro do instituto paulista, feito contra o veneno do Tityus serrulatus, parece não ser capaz de neutralizar os efeitos do veneno do escorpião-preto de Santarém sobre o sistema nervoso, embora seja eficaz contra a ação neurotóxica do escorpião-preto de Belém, capital do Pará. "Podem ser espécies diferentes, ainda que morfologicamente idênticas", cogita o biólogo do Butantan Antonio Brescovit. Na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, Pedro Pardal estuda a genética dos escorpiões para saber o que de fato os diferencia.

Competências dispersas - Pardal já havia mostrado em um artigo publicado em 2003 na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical que os acidentes causados por picadas de escorpiões apresentavam características únicas em Santarém, com sintomas predominantemente neurológicos - provavelmente porque, de acordo com os estudos de Lourival Possani, pesquisador brasileiro que trabalha no México, uma das cerca de 60 toxinas do veneno, a Tc1, é bem pequena, e por essa razão poderia atravessar as barreiras que protegem o cérebro. As picadas do escorpião-preto causam intensas contrações musculares - ou espasmos -, além da dificuldade de falar, taquicardia e hipertensão arterial. No hospital municipal de Santarém, a médica Mariana Quiroga e o médico Paulo Abati verificaram que o diazepam, usado para aplacar ansiedade e convulsões, pode ajudar a controlar os espasmos das pessoas picadas por escorpiões-pretos. "Foi o único jeito que encontramos", diz ela, argumentando que os espasmos causados pela picada do escorpião-preto assemelhavam-se aos sintomas neurológicos causados por quadros graves de tétano que podem ser tratados com diazepam.

A equipe que reúne os mais experientes pesquisadores do Butantan está identificando, reunindo e mobilizando especialistas antes dispersos nos centros de pesquisa do Pará como Chalkidis, Pardal e Mariana. Ou como Rosa Mourão, à frente de um grupo da UFPA em Santarém que encontrou compostos químicos capazes de deter a hemorragia causada por venenos de serpentes em extratos de 18 plantas da região que os moradores usam normalmente. "Os caboclos tomam um xarope de plantas antiofídicas antes de ir para a mata", diz ela. "Ou aplicam a planta macerada sobre a picada para tirar a dor ou reduzir a inflamação." Segundo ela, os extratos vegetais podem conter inibidores de enzimas como fosfolipases e proteases, que, se devidamente investigadas, poderiam embasar novas drogas antiofídicas ou contra outras doenças marcadas por processos inflamatórios intensos, como a artrite.

"Não teria sentido fazer nada em paralelo, sem aproveitar as competências locais", comentou Otávio Mercadante, diretor do instituto paulista, ao abrir o quarto encontro anual que expôs os avanços e os planos das equipes dos dois estados em um auditório das Faculdades Integradas do Tapajós, no final de outubro. "O Butantan nunca vai substituir ou concorrer com as instituições locais. Nosso trabalho será complementar." Desde que começou a visitar o Pará em busca de espaços favoráveis à pesquisa, Mercadante aliou-se a quatro universidades (a estadual, a federal, as FIT e o Instituto Esperança de Ensino Superior, Iespes), o Museu Paraense Emilio Goeldi, de Belém, e uma organização social, o Projeto Saúde e Alegria (PSA), que atende comunidades ribeirinhas.

Preparação de estudantes

"Esta é nossa grande chance de aprendizagem", observou Mercadante, que costurou também o apoio de prefeituras, governo estadual, fundações de financiamento à pesquisa do Pará e de São Paulo e dos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia para levar adiante pesquisas em três vertentes: biodiversidade amazônica, ação de toxinas de animais e história da saúde na região. De modo complementar, corre um trabalho com médicos e agentes de saúde locais sobre tratamentos de acidentes com animais venenosos. Logo ele viu que teria de ir com cuidado. "Não podemos chegar às comunidades sem a mediação da cultura local, sob o risco de sermos vistos como invasores." As colaborações amenizam os temores de resistência contra os paulistas. "Milhares de teses são feitos sobre os saberes e sabores da região e nunca retornam", lembrou Magnólio de Oliveira, vice-coordenador do PSA, "mas agora temos um bom time com vontade de vencer".

Durante três dias, 80 estudantes e profissionais de medicina e enfermagem participaram de um curso sobre acidentes causados por animais peçonhentos como serpentes, aranhas, escorpiões, lagartas e raias. Em Santarém, 37 estudantes e biólogos acompanharam outro curso sobre diversidade de animais peçonhentos na Amazônia, que incluiu atividades práticas na cidade vizinha de Belterra. Giuseppe Puorto, pesquisador e diretor do Museu Biológico do Butantan, esteve à frente de apresentações para professores, estudantes, agentes da saúde, líderes comunitários e bombeiros de Santarém. Com a equipe e o barco Abaré, do Projeto Saúde e Alegria, visitou comunidades ribeirinhas do rio Tapajós e conversava descontraidamente enquanto tirava animais empalhados da mochila. Ouvia relatos de acidentes com animais venenosos e, mesmo respeitando os tratamentos caseiros, recomendava aos moradores que nunca amarrassem ou cortassem os ferimentos causados pelas picadas. A equipe do Butantan já fez e distribuiu um livreto sobre animais venenosos, mas ainda há muito a fazer.

Isolamento até século XX

Já faz tempo que o Butantan tem contato com animais da Floresta Amazônica. Essa região permaneceu isolada das outras regiões até o início do século XX, por causa da dificuldade de comunicação e transporte. Mesmo assim, de acordo com um levantamento de Maria de Fátima Furtado e Myriam Calleffo publicado no Cadernos de História da Ciência, Emília Snethlage, então diretora do Museu Goeldi, enviou em 1914 uma coleção de serpentes do Pará ao Butantan para identificação e guarda. O envio de animais não parou mais, e hoje o instituto paulista reúne 6.625 exemplares de 213 localidades da região amazônica. Em 1924, Vital Brazil Mineiro da Campanha, o primeiro diretor que então reassumia a direção do instituto, contratou o médico Jean Vellard para ajudar na identificação de aranhas venenosas. Vellard trabalhou com Vital Brazil no soro contra o veneno de uma aranha-de-grama, a Lycosa raptoria, estudou a toxidade de outras aranhas, identificou espécies novas e fez muitas expedições de coleta de animais à região.

Mais recentemente, há cerca de 20 anos, Brescovit percorreu as matas da região, também em busca de aranhas amazônicas, numa época em que as alterações ambientais ainda eram poucas na região. A viagem de Belém a Santarém só podia ser feita de barco e demorava uma semana (hoje pode ser feita em menos de duas horas por avião).

Atividades conjuntas

Agora o Butantan enfatiza ações conjuntas. "Queremos que o estudo desses venenos resulte na formação de pesquisadores de Santarém que depois voltem para atuar na região", disse Ana Moura, pesquisadora do Butantan e professora do curso de pós-graduação em recursos naturais da Amazônia da UFPA em Santarém. Até agora vieram dois, José Pedro Marinho de Souza e Andria de Paula Santos da Silva, ambos recém-formados pelas FIT, que depois de um ano no Butantan, em São Paulo, voltaram a Santarém para a coleta de animais e devem retornar em março para completar o curso de especialização no instituto paulista. "Tem muita gente brilhante por aí, mas é muito caro sair do Pará", conta Marta Fernandes, bióloga recém-formada que acompanhou durante um ano as pessoas picadas por escorpião atendidas no hospital municipal de Santarém. "Me sentia como em um hospital de guerra", conta. Marta saía de bicicleta atrás das pessoas e dos bichos; acabou reconstituindo em detalhes 45 acidentes. "Fazer pesquisa, aqui, é paixão pura."