Notícia

Agro Analysis (FGV)

Ciência espacial na agricultura

Publicado em 01 abril 2009

Por Nelson de Jesus Parada

No início dos anos 80, tivemos conhecimento do trabalho de uma equipe de pesquisadores da Embrapa, no Centro Nacional de Pesquisa do Trópico Semi-Árido, em Petrolina (PE), que criara um inédito núcleo de competências em ciências espaciais aplicadas à agricultura. Era o início de um relacionamento científico que dura até hoje.

A equipe importara um equipamento que conjugava positivos fotográficos de imagens do satélite Landsat e permitia um tratamento analógico dos dados. Era uma grande inovação. Com resolução das imagens orbitais da ordem de 70 e 90 metros, suas informações contribuíam para o conhecimento da região agrícola semi-árida.

Naquele tempo, as pesquisas eram realizadas com imagens analógicas. Colaboramos para que esse pequeno laboratório recebesse uma Unidade de Análise de Imagens (UAI), para o tratamento de imagens de satélites meteorológicos, desenvolvido pelo Inpe.

Ampliamos a cooperação científica. Vários pesquisadores do Inpe realizaram seus mestrados e doutorados com trabalhos de campo na região, com apoio da equipe da Embrapa. Essas pesquisas ajudaram a:

   • Mapear a repartição espacial dos agricultores;

   • Definir áreas para projetos de irrigação;

   • Apoiar o zoneamento agroecológico de culturas;

   • Expandir a soja em Balsas, no Maranhão, e no oeste da Bahia.

Os pesquisadores da Embrapa começaram a trabalhar no Inpe, em São José dos Campos, com imagens digitais do Landsat, em um computador chamado I-100. O Inpe comprou da GE, por US$ 1 milhão um sistema de processamento digital de imagens de satélite, controlado por um PDP/11-45 de 16 bits, com 128 kb de memória, inédito no País.

No final dos anos 80, a equipe foi transferida para o Centro Nacional de Pesquisa de Meio Ambiente (CNPMA), em Jaguariúna (SP), onde montou um novo Laboratório de Teledetecção Espacial e recebeu do Inpe:

   • O primeiro Sistema de Tratamento de Imagens (Sitim), fabricado pela Engespaço.

   • Os softwares para cartografia digital (SGI) e tratamento de imagens (Spring), que ajudaram trabalhos, como o Zoneamento Agroecológico do Tocantins, foram feitos com base neles.

Nos anos 90, entrou em operação o Monitoramento Orbital de Queimadas, do Inpe, que funciona hoje na Embrpa, com seus dados disponíveis na internet. Nessa época, estávamos no Núcleo de Ciência, Aplicações e Tecnologia Espaciais (Nucate), na Universidade de Campinas (Unicamp), quando montamos a um convênio com o recém-criado Centro Nacional de Pesquisa de Monitoramento por Satélite (CNPM) para o desenvolvimento de várias atividades conjuntas na área de capacitação de pessoal.

Anos mais tarde, quando participávamos do Conselho Assessor Externo (CAE) do CNPM, acompanhamos seu desenvolvimento institucional e compromisso com a gestão territorial do agronegócio. Com vários projetos aprovados na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o CNPM ampliou a sua infra-estrutura de redes de comunicação, a biblioteca e a segurança das instalações.

Na Fapesp, acompanhamos essa evolução e contribuição para a agricultura brasileira, com informações sobre o uso da terra e do clima. Mais recentemente, a equipe participou de um Projeto Temático (Ecoagri), em parceria com a Associação Brasileira do Agribusiness de Ribeirão Preto, que permitiu o desenvolvimento pioneiro de um sistema de monitoramento do impacto do uso da terra e das políticas territoriais sobre a agricultura.

Novos Horizontes

O CNPM faz, além de outros projetos relevantes, o monitoramento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC para a Casa Civil da Presidência da República, com imagens de resolução inferior a um metro.

Em recente declaração, a senadora Kátia Abreu, Presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), afirmou que “ depois das pesquisas que viabilizaram a ocupação produtiva e sustentável dos cerrados brasileiros, os atuais estudos sobre o alcance territorial da legislação ambiental e indigenista, realizados pela Embrapa Monitoramento por Satélite, eram a segunda maior contribuição da Embrapa para a agricultura brasileira”.

A senadora tem razão. A temática da gestão e do monitoramento territorial serão cada vez mais decisivas para a competitividade do agronegócio nacional e para a sua defesa, no Brasil e no exterior. Os 20 anos da Embrapa Monitoramento por Satélite atestam o quanto essa equipe pode ainda muito contribuir com a agricultura brasileira, inovando no campo das aplicações das ciências espaciais.

1 Doutor em Física pelo MIT, ex-diretor do Inpe e da Embraer, ex-pró-reitor de pós-graduação e de pesquisa da Unicamp, ex-secretário-geral adjunto de Ciência e Tecnologia e de Tecnologia Industrial do governo federal, ex-diretor-presidente da Fapesp e professor titular de Física aposentado da Unicamp.