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Ciência e TV: a união possível e desejável

Publicado em 23 novembro 2006

Após tropeçar e bater a cabeça na pia do banheiro, um cientista com os cabelos despenteados tem uma idéia genial e inventa a máquina do tempo. Esse é o cientista retratado no filme De volta para o futuro. O estereótipo de cientista maluco não é reproduzido somente no cinema, mas também em outros veículos de comunicação, inclusive na televisão.
Para a pesquisadora Marília Franco, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), embora a ciência seja constantemente citada na televisão, grande parte do conteúdo exibido tem informações distorcidas. "Os telejornais estão no meio do caminho entre o rigor e o pouco caso em relação à ciência", diz. Marília acrescenta que, em muitos casos, a ciência é citada para dar um tom de veracidade ao que está sendo dito na televisão, como se a ciência fosse infalível. "Não existem verdades absolutas na ciência, somente verdades momentâneas e esse aspecto é deixado de lado muitas vezes", afirma. Marília acredita que esse tipo de informação não contextualizada gera expectativas no público que não correspondem aos resultados que a ciência realmente oferece.
O caso da gripe aviária é exemplar. Alguns telejornais noticiaram que a gripe chegaria ao Brasil até o final do ano, mesmo que os principais pesquisadores da área apontassem apenas uma possibilidade, não uma certeza. De acordo com a pesquisadora, para evitar esse tipo de sensacionalismo seria importante usar o mesmo rigor da ciência e sua metodologia na apuração jornalística. Uma das causas desse quadro é a má formação dos jornalistas, considera a professora da USP. O mesmo problema é colocado pela jornalista e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Denise Oliveira. "Mesmo com poucos cursos para preparação de jornalistas especializados em ciência, o profissional deve seguir as regras de apuração jornalística ao cobrir esse tema: sempre ouvir mais de uma fonte e fazer a ligação da pesquisa realizada com o cotidiano da sociedade; ser o mediador entre a ciência e o público", recomenda. Denise ressalta que o tempo na TV é muito caro e o espaço para cada notícia é pequeno. "O resultado da falta de tempo e da escassez de profissionais especializados é a veiculação de matérias superficiais, muitas vezes recorrendo ao espetáculo, ao sensacionalismo, ao apelo emocional", diz a jornalista.

Programação
A crítica aos telejornais não se repete para os programas especializados em ciência. "Em geral, os programas especializados são de boa qualidade", considera Denise. A pesquisadora da USP é da mesma opinião, mas ressalta que a quantidade de programas segmentados não é suficiente. "Esses programas ficam restritos à TV por assinatura e por isso não popularizam o tema", afirma. Além disso, as duas professoras salientam que grande parte dos programas faz um misto entre divulgação científica e entretenimento.
Como a televisão é um veículo caro, os canais apostam em fórmulas consagradas e não arriscam novos formatos com medo de perder patrocinadores. "Assim, toda a programação fica um pouco parecida", acrescenta Denise. Além disso, a jornalista chama a atenção para os horários de alguns programas. "Alguns programas são exibidos em horários inadequados e por isso a audiência é baixa", afirma.
Apesar das críticas, Marília Franco identifica um avanço na maneira como a televisão brasileira trata a ciência nos últimos anos: "a divulgação científica no Brasil cresce na medida em que a própria produção de ciência aumenta". De acordo com dados da Fapesp, a produção científica cresceu consideravelmente nos últimos 15 anos. Em 1990, os pesquisadores brasileiros publicaram 3.552 artigos na base de dados do Institute for Scientific Information (ISI); em 2002, esse número saltou para 11.285. O número de registro de patentes também é um bom indicador desse crescimento: em 1990, o país obteve 41 patentes; em 2001 foram 110. Apesar dos números serem modestos para os padrões internacionais, a curva de crescimento é um bom indicativo. A divulgação científica cria o elo entre população e pesquisadores. "A popularização tem a função educadora de fazer a sociedade reconhecer que a ciência traz benefícios, além de incentivar vocações científicas entre os jovens", diz a pesquisadora da USP.
A chegada da TV digital permitirá aos programas um ganho em conteúdo e em interatividade, mas não se pode prever qual será o comportamento das emissoras. Isso é o que apontam ambas as professoras. Denise Oliveira ressalta que a TV digital abre uma possibilidade para uma programação mais variada em que haja espaço para a divulgação científica, mas não arrisca um palpite sobre o comportamento dos produtores. Marília Franco ressalta que o centro da discussão deve estar mais no conteúdo do que será veiculado do que na tecnologia que será empregada.

Desenhos animados
O conteúdo científico estimula, ainda, a criação de personagens e histórias reproduzidas nos desenhos animados. Quem não conhece o Doutor Quest, o Professor Pardal ou o Doutor Xavier? Não é de hoje que a figura do cientista está presente na programação infantil. No artigo "Superpoderosos submissos: os cientistas na animação televisiva", publicado no livro O cientista amador: a divulgação científica e o público amador, Oliveira analisa os desenhos As meninas superpoderosas, O laboratório de Dexter e Jimmy Nêutron, o menino gênio.
A jornalista alerta para a forma como o cientista é retratado. Da mesma maneira que o filme De volta para o futuro, os desenhos reforçam o estereótipo de cientista maluco. "Ele é dotado de superpoderes ou está submisso a outros personagens e por isso torna-se divertido, motivo para riso, deboche e não há espaço para reflexão crítica", afirma a pesquisadora da Uerj. Outro estereótipo recorrente é o do cientista com interesses escusos, que almeja o poder e passa por cima de tudo e de todos para conseguir o que quer. "As animações poderiam apresentar os desafios éticos da profissão de cientista, poderiam cumprir a tarefa de reaproximar a ciência da vida, e não o contrário", diz.
De acordo com Denise Oliveira, as crianças estão o tempo todo em processo de socialização, de formação, aprendendo, captando, absorvendo elementos da cultura na qual estão inseridas. Para a jornalista, mesmo o período de diversão é de aprendizagem. "Como não existe entretenimento vazio de conteúdos, de valores, de idéias, é um grande equívoco pensar que as crianças, ao assistir à TV, ao jogar videogame ou até mesmo ao praticar esportes, estejam apenas brincando", conclui.