Notícia

O Popular (Goiânia, GO) online

Ciência e tecnologia, visão transcendente

Publicado em 30 maio 2005

Por Romão da Cunha Nunes e João Teodoro Pádua
A história tem registrado com magistral sabedoria as vantagens que alguns poucos idealistas souberam aproveitar, mesmo em episódios que se configuravam como uma derrota irreparável. Nesse contexto, pode-se dizer que a derrota da Revolução Constitucionalista em São Paulo foi um determinante para que suas lideranças capitalizassem esforços e capacidade intelectuais na criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, haja vista a colaboração francesa de onde sempre sopram ventos de liberdade, igualdade e fraternidade.
Já na década de 30-40, a atuação efetiva e o esforço dedicado à formação de professores e pesquisadores levaram a instituição a canalizar e intensificar ações estratégicas, também no sentido da criação do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), o que veio a ocorrer somente em 1951.
Com a criação do CNPq abriram-se as portas da pesquisa científica e tecnológica para o acesso de um incontável contingente de novos cientistas e pesquisadores, até então às margens do processo por absoluta falta de um órgão gestor que definisse as políticas, direcionasse os recursos e canalizasse as iniciativas para os projetos prioritários. Aliando-se a esse cenário francamente otimista e também sob pressão da forte demanda do setor industrial, em São Paulo foi criada a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que se revelou, desde o início, um instrumento imprescindível na implantação das estratégias de desenvolvimento econômico no Estado.
O acelerado desenvolvimento econômico ocorrido no Estado de São Paulo deve-se, em parte substancial, à visão futurista de seus governantes sobre as potencialidades e as necessidades do País — desde 1880 começam a investir em desenvolvimento científico e tecnológico através da criação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e do Instituto de Zootecnia (IZ), dentre outros. Mas, no dimensionamento dessa visão futurista — hoje uma realidade diária — e no espírito visionário que encaminhou São Paulo para a liderança nacional do desenvolvimento científico e tecnológico, nada se compara à célebre frase do então governador Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto (1959-1962) sobre a criação da FAPESP: "Se me fosse dado destacar alguma das realizações da minha despretensiosa vida pública, não hesitaria em eleger a FAPESP como uma das mais significativas para o desenvolvimento econômico, social e cultural do País".
É nesse contexto que a comunidade científica goiana e as autoridades gestoras dos recursos para o desenvolvimento do Estado vêem a criação de um instrumento que não só auxilie mas, acima de tudo, promova o desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica em Goiás. O governador Marconi Perillo, ao autorizar a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapego), institui uma estrutura ágil e eficiente, como devem ser todas aquelas que desenvolvem suas atividades no segmento do desenvolvimento científico e tecnológico, o que representa garantia de solução para os problemas que ainda entravam o nosso crescimento econômico e social.
É inquestionável que o Estado de Goiás passa por um extraordinário momento de afirmação no cenário nacional, o que vem despertando a consciência do meio científico para ser também um gerador de conhecimento e diminuir, portanto, o custo de sua dependência tecnológica de outros Estados e até de outros países. Possuímos material humano constituído por um corpo de pesquisadores e técnicos altamente qualificados, além de contarmos com um ambiente adequado e propício para a realização de pesquisas, convergentes com os interesses econômicos do Estado.
A comunidade científica goiana está ciente da imensa responsabilidade que lhe cabe na implantação e efetivação desse projeto de profunda responsabilidade social.

Romão da Cunha Nunes é professor, diretor da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Goiás (Adufg)
João Teodoro Pádua é professor e secretário regional adjunto da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)