Notícia

Grafitti News

‘Ciência e tecnologia criam o dinheiro’, diz presidente da Fapesp

Publicado em 23 junho 2021

O médico e cientista Marco Antonio Zago, atual da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) tem larga experiência com atuação na construção de políticas cientificas para o país há mais de uma década.

Na chefia da instituição que é hoje uma das principais financiadoras da ciência do país, Zago critica os cortes de recursos de ciência e a educação e defende que governantes passem a olhar para o conhecimento cientifico como fonte de riqueza. Para ele, ciência e tecnologia podem dar um futuro para o país em meio a um período de incertezas.

Em entrevista por videoconferência à Folha, Zago falou sobre sua visão para a ciência brasileira e sobe a atuação mais recente da FAPESP , instituição que completa 60 anos em 2021.

Quais são os pilares da atuação da FAPESP nos últimos anos? A FAPESP acabou se tornando a principal agência financiadora de ciência do país. A estabilidade que a FAPESP tem permite fazer planos de longo prazo. Podemos planejar o futuro e fazer programas que demoram para ser desenvolvidos. Faz quase 20 anos que a FAPESP mantém um conjunto de centros de pesquisa com financiamento estável voltado, voltado para temas importantes, como a terapia celular ou o uso da genômica na medicina.

Além disso, a fundação emprega cera de 30% de seu orçamento para a formação de recursos humanos, com bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Nos últimos anos, a FAPESP passou a fazer um outro tipo de financiamento, também importante, voltado para a inovação, para produtos de emprego mais imediato.

Ela atua na ciência básica. É aquela ciência que se nós não apoiarmos ninguém mais vai apoiar; é a nossa missão. Se o pesquisador tem um projeto para estudar a origem do Universo e os cientistas que analisam o projeto acham que o projeto é bom e vale a pena, nós financiamos.

Como foi a atuação da FAPESP durante a pandemia do coronavírus?

No início da pandemia, a nossa primeira ação foi chamar pesquisadores que já tinham projetos com a FAPESP para pesquisar sobre a Covid-19, e alguns projetos foram liberados em 15 dias. Depois, apoiamos empresas inovadoras e startups.Financiamos os testes clínicos da CoronaVac e ainda financiamos outras pesquisas relacionadas às vacinas contra o Covid.

É importante notar que a FAPESP já vinha financiando um bom número de pesquisas sobre vírus com dengue, zika, etc. Quando a Covid, que é uma virose, chegou, a resposta foi mais rápida. Foi assim que tivemos um seqüenciamento rápido do vírus aqui no Brasi. O laboratório, os pesquisadores e a rede3 de colaborações entre os cientistas já estavam disponíveis, a infraestrutura preparada anteriormente com apoio da fundação permitiu essa resposta.

Em 2020 um projeto de lei encaminhado pelo governo Doria (PSDB) à Assembleia Legislativa previa a retirada de recursos das universidades estaduais e da FAPESP (PL 529/2020). O projeto inicial determinava que o superávit financeiro das autarquias e fundações fosse transferido ao final de cada exercício ao tesouro estadual, o que poderia ameaçar os projetos de pesquisa mais longos. Depois, o projeto foi aprovado, mas poupando os recursos da FAPESP. Como o Sr viu esse movimento do governodo?

A origem foi uma preocupação do governo com queda na arrecadação e falta de recursos que poderiam vir com a pandemia. Isso não é novidade; desde que eu acompanho a vida da fundação, há tentativas de manobrar recursos para outras finalidades, o que nunca se concretizou. O governo do Estado, de uma forma ou outra, sempre respeito esse limite porque a FAPESP é vista como um patrimônio da população paulista. Esses movimentos fazem parte da história. O governador apóia a Fapes e garantiu que não teremos interferências nos recursos.

Temos uma fuga de cérebros hoje, com jovens capacitados escolhendo ir embora do país. O que pode ser feito para reverter essa situação?

A perda desses jovens traz prejuízos enormes para o país. Eles não fazem isso por egoísmo, mas o panorama está ruim. A economia ainda está muito embaçada; não há evidência clara de que iremos recuperá-la. A vida nas universidades também está se tornando muito difícil, principalmente fora do estado de São Paulo. Existe desânimo e falta de recursos, em não tem perspectiva de melhora. Os jovens podem pensar que ficando aqui estariam afundando suas vidas.

Essa perda se dá ao longo do tempo. Vamos perdendo qualidade, perdendo profissionais, e logo não teremos mais gente pensante nas universidades e nas empresas tecnológicas.

Como mudamos? Precisamos transformar a perspectiva da economia do país. As principais perdas de recursos dentro do governo federal atingiram ciência, tecnologia e educação. Ora, sem ciência e tecnologia não há futuro para o país. Os governantes devem adotar novas políticas de apoio para garantir o futuro. Não adianta ficar o tempo todo preocupado com as manobras econômicas, primeiro precisamos criar o dinheiro, e o que cria o dinheiro é a ciência e a tecnologia, é a competição nessa área.

É formado em medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e pós-doutor pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Foi reitor da USP, presidente do CNPq e secretário estadual de Saúde de São Paulo.