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O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Ciência e Saúde- Vasos sangüíneos são testados com simulador hidrodinâmico

Publicado em 29 março 2002

Qualquer cirurgia implica riscos, por menores que sejam. Foi pensando nisso e, especificamente, na necessidade de se dar maior suporte para as cirurgias vasculares de implantação de pontes de safena e de outros tipos que Domingos Guerino Silva, cirurgião vascular do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC), de São Paulo, criou e patenteou o simulador hidrodinâmico, máquina capaz de medir a resistência dos vasos sanguíneos quando submetidos a diferentes pressões. "Os dados fornecidos pelos testes feitos com o aparelho podem ser utilizados pelos médicos no momento de escolher o melhor tipo de material e procedimento a ser adotado durante uma intervenção cirúrgica", explica Silva, cujo mestrado e doutorado, defendidos na Escola Paulista de Medicina, atual Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foram dedicados ao desenvolvimento do simulador. Formado por pistões, válvulas, nanômetros, termostato, entre outros sensores e instrumentos de pressão, o simulador é uma máquina que gera fluxos pulsáteis nos vasos colocados para testes, com pressões normais e acima das que a circulação sanguínea humana está submetida. Um computador acoplado ao aparelho e dotado de um software especial faz a leitura dos dados obtidos. O pesquisador continuou seus estudos com o objetivo de romper segmentos de veias descartados de processos cirúrgicos para medir a capacidade máxima da resistência desses tecidos, o que gerou uma série de dúvidas na hora de interpretar os resultados das pressões. "Para solucionar o problema, passei a procurar, de modo informal, os especialistas da Escola Politécnica, da USP, que de imediato passaram a me ajudar", conta Silva. "Com o passar do tempo, percebemos o potencial que essas relações tinham para gerar pesquisas integradas entre a medicina e a engenharia, até que resolvemos formalizar essa situação por meio da assinatura de um protocolo, ocorrida em 1996, com duração de cinco anos, entre a USP, representada pela Escola Politécnica, o Instituto Dante Pazzanese e a Unifesp." Segundo Jayme Pinto Ortiz, engenheiro especialista em mecânica dos fluidos, professor da Escola Politécnica (Poli) e co-responsável pelo protocolo, a medida permitiu o desenvolvimento de diversos trabalhos conjuntos com a meta de dar um melhor suporte às cirurgias cardiovasculares. "O objetivo da engenharia nesse caso é dar suporte à medicina na obtenção de um maior número de informações quantitativas que possam ser úteis para melhorar a precisão dos atos cirúrgicos, resultando em mais interação entre os dois campos do conhecimento". A integração entre as três instituições já rendeu a defesa de seis mestrados (quatro na Unifesp e dois na Poli) e dois doutorados (um para cada), sendo que mais três estão em andamento (um mestrado e dois doutorados), "A iniciativa de criarmos esse campo de pesquisa integrada, baseado em simulações hidrodinâmicas, tem permitido a formação de massa crítica, passo fundamental para que as descobertas geradas em laboratórios sejam implantadas na prática". São quatro linhas de pesquisas: fístulas arteriovenosas, cujo estudo possibilita avaliar quais são as opções do médico no momento de ligar alguma veias e artérias de pacientes com insuficiência renal e que precisam fazer hemodiálise, de modo a garantir um alto fluxo sanguíneo (chamado de escoamento pelos engenheiros); complacência, que avalia a elasticidade dos tecidos vasculares, informação importante na avaliação de doenças; substituição vascular, campo que se dedica ao estudo dos melhores materiais a serem utilizados na substituição de vasos com problemas; e resistência vascular e suturas, área cujo resultados acabam orientando o cirurgião no momento de escolher as técnicas cirúrgicas mais adequadas em cada caso. É nessa linha que o engenheiro Edir Branzoni Leal, chefe do Setor de Biomecânica do IDPC, desenvolveu seus estudos, que deram origem à dissertação de mestrado recentemente defendida na Poli e intitulada "Simulador hidrodinâmico para estudos in vitro do sistema vascular". Além de pesquisar a resistência dos vasos, outro objetivo foi o aperfeiçoamento e a otimização desses aparelhos, passo fundamental para uma melhor avaliação dos vasos e do ponto máximo de sua resistência à ruptura. "Os resultados foram analisados no sentido de contribuir para a geração de dados que serão utilizados no aprimoramento de técnicas cirúrgicas, o que poderá beneficiar o paciente", afirma Leal, que foi orientado por Ortiz. "No futuro, a partir dos resultados obtidos com essas avaliações, os médicos poderão adotar os procedimentos cirúrgicos ideais, respeitando mais as necessidades individuais de cada organismo doente". Os segmentos de vasos utilizados nos testes, cujo destino seria a incineração, foram descartados em cirurgias de pontes de safena e varizes feitas no IDPC. Uma das constatações do pesquisador foi a grande capacidade de resistência deles às altas presões. "De dez segmentos testados, apenas um se rompeu de forma abrupta. Mesmo os vasos que sofreram cortes e suturas apresentaram uma resistência acima do esperado", diz Leal. "Para se ter uma idéia mais clara, a máquina entrou em colapso antes dos vasos, que têm uma resistência semelhante a de um pneu de automóvel em movimento". Os testes foram realizados em três fases, sendo com segmentos de vasos no IDPC e com materiais feitos de látex na Poli. A primeira, com a menor resistência periférica possível. A segunda, onde todo o fluxo passava pela seção de testes do simulador. E a última, onde o pesquisador tentava romper os vasos, concluindo que o organismo humano possui um sistema circulatório "projetado" para resistir a pressões muito acima daquelas a que ele fica submetido em situações de bastante atividade (trabalho). Para a realização dos estudos, Leal levou cerca de três anos. "Meu objetivo é continuar a pesquisa por meio de um projeto de doutorado". De acordo com Silva e Ortiz, o futuro das pesquisas é promissor, notadamente com relação ao líquido utilizado para fazer os testes, chamado de perfusor. Nas experiências até agora realizadas os pesquisadores utilizaram o soro fisiológico como líquido perfusor, o qual, além de simular o escoamento sanguíneo, nutre o segmento de vaso, evitando sua rápida falência. "Existem grupos que estão pesquisando outros tipos de líquidos perfusores, com novas propriedades", concluiu Silva. (Pesquisa Fapesp)