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Ciência e inovação

Publicado em 01 abril 2019

Um dos principais pilares do desenvolvimento econômico e social das pequenas e médias propriedades no País, a suinocultura brasileira, apesar de diversas crises, vem alcançando resultados significativos ao longo da história. Somente no período entre os anos 2000 e 2018, a atividade atingiu expressivos 42% de crescimento. Hoje, o Brasil é o 4º maior produtor mundial, dono do 3º maior rebanho, com 35 milhões de cabeças e 3,7 milhões de toneladas produzidas/ano.

E, nas exportações, também somos destaque. São 600 mil toneladas embarcadas para 70 países. Toda essa cadeia produtiva movimenta algo em torno de R$ 150 bilhões, gerando, ainda, 126 mil empregos diretos e 925 mil indiretos. Os dados são trazidos pelo médico veterinário Luciano Roppa. Ele tam- bém apresenta outro fato: “Nos últimos 50 anos, deixaram a atividade nada menos que 810 mil produtores, restando, hoje, cerca de 60 mil criadores tecnificados”. Então, qual a conclusão ao analisar essas informações? “A história nos mostra que, sem a adoção de tecnologia, o produtor acaba ficando ultrapassado e sai da atividade. E isso em qualquer ramo de negócio, não apenas na suinocultura”, confirma Luciano, atualmente consultor da L.Roppa Consulting e presidente do Conselho da Yes. E com seus mais de 40 anos de experiência no agronegócio, o profissional reconhece essa grande dificuldade para os produtores rurais. “Já criei frangos, suínos, bovinos, cachorros, gatos e coelhos. E, vou te dizer, é muito difícil adotar tecnologias”, afirma. E principalmente para os pequenos, ele continua: “A situação é ainda pior, pois, a remuneração deste produtor mal dá para a subsistência. Deste modo, ele não consegue adquirir uma matriz de melhor qualidade, uma ração ou um equipamento mais moderno. Não há capacidade financeira para isso”. E o resultado dessa realidade será uma granja, em um futuro entre 5 e 10 anos, ultrapassada e sem a eficiência necessária.

“E aí começa o prejuízo, forçando esse empresário rural a sair da atividade”. Se o pequeno produtor não focar em um nicho específico de mercado, é imprescindível aumentar de tamanho para ganhar escala. “Claramente, as granjas, cada vez mais, precisam ser maiores, devido às margens reduzidas. É fundamental um elevado volume de produção, para gerar a receita necessária para os investimentos e, assim, se manter no mercado”. A classificação pequeno, médio e grande produtor também sofreu variações ao longo da história do setor. Antigamente, lembra Luciano, uma granja de suínos com 60 matrizes era o suficiente para gerar uma vida digna a uma família. “Hoje, se o produtor não tiver pelo menos mil fêmeas, ele não consegue sobreviver.

Esse é o número mínimo de animais que permite a geração de uma receita para a família e também investimentos em tecnologias”, analisa o profissional, que, no passado, trabalhou com projetos para granjas de suínos. E, além desse olhar em reação ao negócio e tudo o que se passa dentro da porteira, o produtor rural precisa também estar atento a movimentos externos, como as demandas do mercado. Tema muito debatido nos dias de hoje, o consumidor aponta a direção para a cadeia produtiva há muito tempo, na realidade. “Na década de 30 houve uma grande transformação na suinocultura brasileira, quando o consumidor, associando a banha a problemas de saúde, passou a utilizar óleo vegetal e margarina”, conta Luciano. Este foi o momento de mudança do porco para o suíno, ou seja, o animal passou a ser fonte de proteína, e não mais banha. “E foi evoluindo até chegar nos dias de hoje, um animal de elevado potencial genético e extremamente eficiente na produção de carne”. A força do consumidor é ainda maior atualmente, analisa Luciano. “Com a internet, as informações chegam mais rápido.

E, além disso, essa nova geração questiona a produção animal. Então, se o setor não der respostas adequadas e convincentes, baseadas em fatos e dados, muitas pessoas deixarão de comer carne”. Cerca de 5% da população mundial hoje é vegetariana. Quando se analisa apenas os millennials e a geração Z, a porcentagem sobe para 10%. Esse movimento pressiona a suinocultura a uma mudança de patamar histórica, avalia Luciano: “A minha geração criou animais confinados e com antibióticos. Hoje há uma necessidade de mudança radical desse sistema, imposta pelo consumidor, pois, alguns conceitos de extração de produtividade já são questionados. Então, essa nova geração tem um desafio grande pela frente, que é fazer frente a esses desafios para ter uma boa produtividade, mas em um novo sistema de produção, privilegiando o bem-estar dos animais”. E o início de uma mudança efetiva se faz na formação desses novos profissionais, como aborda o professor de Clínica Médica de Suínos na Unesp de Jaboticabal, Luiz Guilherme de Oliveira. “Quando formamos o aluno, esse indivíduo sai com a certeza que não está pronto, ele está em processo contínuo de construção”. Ou seja, um profissional atento a todas as demandas. Na prática, o que isso quer dizer? “Nós, da universidade e do desenvolvimento científico e da pesquisa, temos que pensar na aplicabilidade do nosso trabalho. Devemos ter a sensibilidade de propor ideias que venham atender aos anseios da população, como segurança alimentar e bem-estar animal”. E com o início da chamada Suinocultura 4.0, a crescente implementação de tecnologias transformará a atividade.

“Teremos uma disponibilidade de dados e uma riqueza muito grande de informações em tempo real. Dessa forma, nosso poder de decisão e assertividade será maior. Isso ajudará a sermos mais ágeis para dar essas as devidas respostas ao consumidor”, acredita o acadêmico. Uma outra forma de se manter atualizado sobre as novidades do setor e se atualizar tecnicamente é por meio da participação de cursos e eventos. “Sempre uma boa oportunidade de troca de informações e aprender com palestras de alto nível”, pontua Luiz Guilherme. Um desses é o Simpósio Internacional de Produção e Sanidade de Suínos, o Simpork.

FOCO NA CIÊNCIA. Sob o tema “Ciência e Inovação para a Suinocultura”, o Simpork reuniu cerca de 300 participantes em Jaboticabal, entre pesquisadores de universidades e institutos de pesquisas e profissionais do setor produtivo. Organizado pelo Laboratório de Pesquisa em Suínos da Unesp/ FCAV, o encontro se configurou em um ambiente de integração e muita informação. 15 empresas patrocinaram o evento, o qual teve também apoio da Fapesp, Capes, APCS e Abraves. O professor Luiz Guilherme, presidente da comissão organizadora, resume o encontro: “A programação teve início com minicursos técnicos e direcionados, seguida da palestra do Luciano Roppa, detalhando os processos de construção do setor e toda a história da nossa evolução. Após, transitamos pelas áreas de sanidade, produção e estratégias nutricionais”. Esta foi a terceira edição do Simpork. E, desde o início, o evento foi idealizado com foco na ciência, proporcionando discussões de alto nível e apresentações de trabalhos. Neste ano, foram 50 enviados. Luiz Guilherme destaca também a troca de experiências proporcionada pelo encontro e realça a presença de profissionais e palestrantes do exterior. Por exemplo, Dominiek Maes. O professor na Universidade de Ghent, na Bélgica, apresentou uma atualização sobre infecções por Mycoplasma hyopneumoniae e os mais recentes avanços no controle e prevenção da enfermidade. “Uma das maiores preocupações da atividade em função das perdas que provoca para o produtor, como perda de peso diária, impactando diretamente na lucratividade”.

Dominik se juntou, ainda, a outros especialistas para apresentar suas experiências no controle e prevenção da Peste Suína Africana na Bélgica e na Europa, durante o Simpork Talks. O painel teve como foco doenças emergentes no setor. A responsável pelo Programa Nacional de Sanidade de Suídeos do MAPA, Lia Treptow Coswig, compartilhou informações sobre a Peste Suína Clássica no Brasil, e o professor da Universidade de Minnesota Fábio Vannucci discorreu sobre os surtos de Senecavirus A nos Estados Unidos. Todo o esforço na organização do encontro tem como grande objetivo reforçar a posição da Unesp como parceira da suinocultura. “A nossa meta é ser referência no apoio científico e na formação de recursos humanos”, encerra Luiz Guilherme.