Notícia

Jornal da Ciência online

Ciência e educação são essenciais para o bem-estar do Brasil

Publicado em 18 junho 2019

O Brasil tem uma longa história de importantes descobertas científicas que contribuíram para a riqueza e o bem-estar geral do país. Em artigo para a revista Nature, o professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Paulo Boggio, argumenta que isso só se sustenta se o governo parar de cortar o orçamento de pesquisa e educação e começar a investir no intelecto humano e na ciência

Cultivar sociedades saudáveis depende de permitir que as pessoas neles sigam sua curiosidade e seus desafios intelectuais, como Bertrand Russell enfatizou em seu discurso no Prêmio Nobel (“… a coisa principal necessária para tornar o mundo feliz é a inteligência”). Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que nas ciências. Quando há ameaças ativas à ciência e à busca do conhecimento, todos sofrem.

Tomemos o caso do Brasil. Segundo a Unesco, o Brasil gasta 1,3% do seu produto interno bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e tem 881 pesquisadores por milhão de habitantes (para comparação, EUA e Israel gastam 2,7% e 4,2% do PIB em P&D e têm 4.255 e 8.250 pesquisadores por milhão, respectivamente). No entanto, o orçamento de P&D já limitado do Brasil está ameaçado por cortes recorrentes.

Isso faz com que ser um cientista no Brasil se torne uma decisão arriscada, cheia de incertezas. Imagine que o seu subsídio foi aprovado e você contratou os alunos de pós-doutorado e doutorado especificados no orçamento, apenas para receber uma mensagem de que o dinheiro acabou. Esse é o estado da ciência no Brasil agora.

Abraham Weintraub, o novo ministro da Educação, referiu-se às principais universidades federais como lugares em frangalhos e anunciou cortes financeiros em educação e bolsas de estudo para doutorado. Centenas de milhares de professores e estudantes foram às ruas em 15 de maio de 2019 para protestar contra esses cortes, apenas para serem chamados de “idiotas úteis” pelo presidente, Jair Bolsonaro. O desenvolvimento da inteligência de Russell, portanto, enfrenta dois problemas principais no Brasil: cortes de investimento e difamação das principais universidades públicas e institutos de pesquisa.

A ciência brasileira não é ameaçada pela falta de cientistas e intelectuais brilhantes. Pelo contrário, tem uma história de impressionantes conquistas científicas. Por exemplo, Vital Brazil (1865–1950) descobriu o soro antiofídico polivalente usado para tratar picadas de cobra. Carlos Chagas (1879–1934), duas vezes indicado para o Prêmio Nobel (Medicina), foi o primeiro a descrever a doença de Chagas, que recebeu esse nome em sua homenagem. Recentemente, o matemático brasileiro Artur Ávila conquistou a Medalha Fields, em 2014, e o físico Paulo Artaxo é um dos membros do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007. A epidemiologista Celina Turchi e uma rede de colaboração internacional estabeleceram a relação entre os vírus zika e a microcefalia em 2016.

Esses exemplos não são casos isolados. De acordo com um relatório do Clarivate Analytics, o Brasil ocupa o 13º lugar em volume de produção científica e aumentou seu impacto em citações em 15% nos últimos 6 anos. Em áreas como ciência espacial e física, o impacto científico está bem acima da média mundial e inclui publicações que estão entre os top 1%.

Um exemplo importante da contribuição do Brasil para a ciência global ocorreu quase exatamente 100 anos atrás, em 29 de maio de 1919, com a observação de um eclipse solar total em Sobral, Brasil. Essa observação permitiu que pesquisadores brasileiros e ingleses confirmassem a teoria da relatividade proposta anos antes por Albert Einstein. Como o próprio Einstein disse em 1925 quando visitou o Brasil, “o problema que minha mente formulou foi respondido pelo brilhante céu do Brasil”.

Essa descoberta – e muitas outras – depende de investimento financeiro. No entanto, o governo atual bloqueia os fundos sem critérios claros e objetivos. Uma consequência natural de tais ações é bem conhecida na ciência brasileira: a fuga de cérebros. Nós perdemos repetidamente grandes talentos nacionais. Enquanto muitos cientistas que deixam o Brasil ainda colaboram com os que permanecem, isso só é possível enquanto ainda há cientistas qualificados trabalhando no Brasil. Mas por quanto tempo esses cientistas ficarão?

Para convencer nossos cientistas a permanecer no país, o governo deve estabelecer políticas de investimento estáveis ??e de longo prazo e aumentar a proporção do PIB alocada para P&D. Tal aumento é um investimento, no verdadeiro sentido da palavra: um estudo recente financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), liderado por Alexandre Nicolella e Paulo Araújo, verificou que cada R$ 1,00 investido em pesquisa na agricultura resultava em um aumento de R$ 12,00 no valor bruto da produção.

Infelizmente, alguns políticos e o público em geral não percebem a importância desse investimento. Isso se deve, em parte, à falta de comunicação dos cientistas com o público. Cientistas brasileiros devem trazer ciência para o público em geral, como estão fazendo com o Pint of Science. Eles também precisam levar ciência ao Congresso Nacional. Sociedades científicas como a centenária Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a septuagenária Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) já estão fazendo isso, produzindo relatórios sobre temas importantes como meio ambiente, desenvolvimento infantil e pobreza. Em 8 de maio de 2019, a SBPC, ABC e outras sociedades científicas lançaram a Iniciativa de Ciência e Tecnologia no Parlamento para facilitar e promover a sinergia entre cientistas e legisladores.

No entanto, mesmo que o público e o Congresso estejam convencidos de que o dinheiro gasto em pesquisa prática impacta positivamente em um país, eles podem não estar convencidos de que o dinheiro público deve ser gasto em outras disciplinas, como as ciências humanas. O ministro da Educação mantém essa visão e, portanto, ameaça os cursos de filosofia das universidades federais, explicando que eles não trazem riqueza para o país. Isso reflete uma falta de compreensão: enquanto a pesquisa em engenharia e ciências biológicas aumenta o conhecimento e o desenvolvimento tecnológico, o investimento nas ciências humanas aumenta a sabedoria. As sociedades modernas, o bem-estar humano e o meio ambiente dependem de uma integração harmoniosa de conhecimento, tecnologia e sabedoria.

O atual clima sociopolítico no Brasil ameaça enfraquecer tanto a biodiversidade de seus recursos naturais quanto a própria base da criatividade intelectual. Devemos nos unir coletivamente como cientistas em todo o mundo para apoiar e nutrir o intelecto humano.

Sobre o autor:

Paulo Sérgio Boggio é professor do Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento e do Curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Nature, com tradução do Jornal da Ciência

Essa notícia também repercutiu nos veículos:
UDOP - União dos Produtores de Bioenergia Portal do Agronegócio