Notícia

Revista Canavieiros

Ciência e diversidade agrícola

Publicado em 01 julho 2017

Por Diana Nascimento

Em junho deste ano o IAC (Instituto Agronômico) completou 130 anos de existência e contribuição para a agricultura nacional. Fundado em 27 de junho de 1887 por D. Pedro II, imperador do Brasil, o IAC foi criado por Decreto com o nome Imperial Estação Agronômica de Campinas, para desenvolver as ciências agronômicas, em especial a do café, a mais importante cultura do Estado de São Paulo e do Brasil na época. Em 1892, a Imperial Estação Agronômica de Campinas passou da União para o domínio do Estado de São Paulo, com o nome de Instituto Agronômico do Estado de São Paulo. Ao longo dos 130 anos ininterruptos de atuação em pesquisa, o IAC tem avançado significativamente na disponibilização de cultivares com características especiais aos produtores, resultado do valioso patrimônio genético do Instituto, sendo pioneiro na introdução e no início do melhoramento genético da maioria das culturas do agronegócio brasileiro. O IAC já desenvolveu 1.060 cultivares, de 99 espécies, que incluem grãos e fibras, café, flores, frutas e hortaliças, citros, cana, seringueira e outros.

Ao ser a mais antiga instituição de pesquisa científica do Brasil, o IAC contribui para a ciência agronômica básica e aplicada, com resultados adotados em diversos Estados do Brasil e também em outros países. Foi responsável pela diversidade agrícola paulista, além de colaborar e inspirar a implantação de outras instituições de pesquisa agronômica no país, como o Iapar (Instituto Agronômico do Paraná). Produtos como café, citros, cana, feijão, amendoim, mandioca, e tantos outros têm a origem de seus cultivos na ciência e nas tecnologias desenvolvidas no Instituto Agronômico e estão presentes no dia a dia do brasileiro.

Mudanças e evoluções

Desde sua criação, em 1887, um número considerável de reformas e reorganizações institucionais foram experimentadas pelo IAC. A primeira delas, já mencionada acima, foi em 1892, quando a Imperial Estação Agronômica de Campinas passou da União para o domínio do Estado de São Paulo, com o nome de Instituto Agronômico do Estado de São Paulo. O primeiro diretor, o austríaco Franz Wilhelm Dafert, tinha como desafio desenvolver a ciência e a pesquisa agronômica em suas mais diversificadas áreas, considerando o cenário político e social do Brasil da década de 1880 com uma visão de futuro. Várias reformas na estrutura do Instituto Agronômico introduziram mudanças para o atendimento das demandas da época, entre as quais as de 1909, de 1927 e principalmente a de 1935, realizada pelo diretor Theodureto de Almeida Camargo, que, atendendo às exigências de mudanças da atuação na pesquisa, causadas pela diversificação de cultivos, criou várias seções técnicas, além de estações experimentais localizadas em outros municípios do Estado de São Paulo para enfatizar as culturas então economicamente importantes.

Em 1969 foi criada a CPA (Coordenadoria de Pesquisa Agropecuária), subordinada diretamente ao secretário da Agricultura com a missão de planejar, coordenar, orientar, comandar e controlar as atividades técnico-científicas e administrativas das unidades de pesquisa nos campos da agronomia, da zootecnia, da defesa sanitária animal e vegetal e da tecnologia de alimentos.

Após 1970, outra reforma que causou impacto na gestão de pesquisa nos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura foi dada pela redação do Decreto 11.138, de 03/04/1978, com a CPA congregando a programação científica de quatro Institutos: IAC, IB (Instituto Biológico), Ital (Instituto de Tecnologia de Alimentos) e IZ (Instituto de Zootecnia). O IAC deixou de ser um departamento da CPA, com nove divisões de pesquisa e administração, transformando-se de uma unidade orçamentária da SAA-SP (Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo) para apenas uma unidade de despesa. Isso teve reflexo imediato na administração dos institutos, centralizando a gestão do patrimônio, dos recursos humanos e do orçamento na CPA.

Em 1998, o Decreto 43.037 extinguiu a CPA e criou o Conselho Superior da Pesquisa Agropecuária, junto ao Gabinete do Secretário da Agricultura e Abastecimento, com a atribuição de articular e compatibilizar as ações estratégicas dos Institutos de Pesquisa da SAA-SP.

Em 2002, ocorreu a criação da Apta (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios) pelo Decreto 46.488, de 08/01/2002, com a missão de gerar adaptar e transferir conhecimentos científicos e tecnológicos para os agronegócios, visando ao desenvolvimento socioeconômico e ao equilíbrio do meio ambiente. Nesse decreto, há a orientação de se introduzir a pesquisa científica e tecnológica como mola propulsora do desenvolvimento, e a inovação seria estimulada junto ao setor privado.

Mais recentemente, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, com uma visão de futuro e compromisso público com a pesquisa e a sociedade, normatizou a Resolução 12 de 10/03/2016, que aprova a política de propriedade intelectual nas Instituições Científicas e Tecnológicas do Estado de São Paulo (ICTESPs) da SAA-SP. Nessa resolução são definidas as várias atribuições das ICTESPs e competências de seus NITs (Núcleos de Inovação Tecnológicos) e dirigentes para assinaturas de contratos, convênios e outras avenças para PPPs. A APTA, por meio das Portarias 100 e 101, em 12/03/2016, estabelece normas para funcionamento dessa nova orientação do Estado em buscar a inovação como pilar do desenvolvimento econômico e social pela pesquisa científica e tecnológica.

Referência em pesquisa

O IAC é referência em melhoramento genético convencional de plantas agrícola, ao mesmo tempo em que participa de programas de pesquisa de genoma, transgenia e cisgenia, em parceria com redes nacionais e internacionais. Destacam-se, neste sentido, os pacotes tecnológicos de variedades desenvolvidas pelo IAC para as cadeias do café, cana, citros, grãos e fibras (feijão, milho, amendoim, trigo, entre outros), horticultura (mandioca, morango, batata, quiabo, ornamentais, etc), vitivinicultura, seringueira e outros.

Além de atuar na geração de ciência, tecnologia e produtos para otimizar os sistemas de produção vegetal, com responsabilidade ambiental, atenção especial tem sido dada a transferência do conhecimento e de tecnologias geradas para a sociedade.

O bom desempenho do IAC na geração e, especialmente, na transferência de tecnologias, bem como nas atividades de prestação de serviços ao setor de produção pode ser comprovado em números. Na área de grãos e fibras são comercializados, anualmente, cerca de 400 toneladas de sementes genéticas, incluindo arroz, feijão, amendoim, aveia, milho, milho pipoca, trigo, sorgo, triticale, crotalária, gergelim e mamona.

O setor de citros não é diferente - cerca de 130 mil borbulhas e 193 kg de sementes foram transferidas ao setor além da realização de 15 mil diagnósticos para patógenos de citros realizados, anualmente, com acreditação do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia).

Outro setor de forte atuação do Instituto é o da canavicultura. As variedades de cana-de-açúcar IAC, somadas ao manejo recomendado pelo Programa Cana, fazem a produtividade média passar de 70 para 100 toneladas de cana por hectare. O IAC é responsável por 23% das variedades de cana-de -açúcar lançadas no Brasil na última década e, ao todo, são 24 variedades IAC para o setor sucroenergético.

O Instituto também inovou no sistema de plantar cana com o sistema de MPB (Mudas Pré-Brotadas). Com a tecnologia, para o plantio de um hectare, o consumo é reduzido de 18 a 20 toneladas de mudas utilizadas no plantio convencional, para duas toneladas no MPB.

Em prestação de serviços, o IAC atendeu ao setor por meio de suas unidades laboratoriais acreditadas pelo Inmetro segundo a ABNT NBR ISO/ IEC 17025:2005.

No total, na área de solos, 33.300 análises foram realizadas em 2016 e o setor Quarentenário avalia cerca de 30 mil acessos anualmente. A unidade já recebeu materiais de 40 países, incluindo Estados Unidos, Austrália, Canadá, Espanha, Índia, Holanda, África do Sul, Japão e China. Atiarquivo vidades de treinamento também são desenvolvidas amplamente na Instituição, destacando-se o Programa Aplique Bem do IAC, desenvolvido em parceria com a Arysta LifeScience, que já treinou em seus 10 anos de atuação, 55 mil trabalhadores de 858 municípios, cobrindo 22 Estados e o Distrito Federal. O Instituto realiza também o Ensaio de Proficiência IAC para Laboratórios de Análise de Solo para fins agrícolas, onde 136 laboratórios fazem parte deste ensaio, sendo 83% privados.

Pesquisas e demandas

O segredo para realizar tantas pesquisas e atender às demandas, está na cultura organizacional, representada pelos valores e crenças de uma organização que deve estar alicerçada em sua missão e na visão de futuro da Instituição.

Segundo a diretoria-geral do IAC (Instituto Agronômico), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, durante os seus 130 anos, o IAC construiu sua programação de pesquisa e manteve suas atividades com base na excelência científica e no reconhecimento da cadeia do agronegócio por meio de seus produtos e serviços para a inovação. “O IAC, em atendimento à missão institucional e na observância dos quatro pilares básicos da ciência, tecnologia, desenvolvimento e inovação (essencialidade, competitividade, credibilidade e responsabilidade) desenvolve suas pesquisas essenciais para a sociedade, competitivas e capazes de contribuir com a geração de emprego e renda, além de melhorar a qualidade de vida da população, com a credibilidade mantida ao longo de décadas e a responsabilidade, que se traduz na formulação e no desenvolvimento de projetos, considerando o melhor aproveitamento de recursos humanos e materiais, a fim de melhor gerenciar as atividades e otimizar os resultados”, diz a diretoria.

As atividades de pesquisa do IAC são mantidas com recursos provenientes de projetos financiados por agências de fomento, destacando-se Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), ou por meio de parcerias firmadas com a iniciativa privada, somados aos recursos do Tesouro do Estado e do Fundo Especial de Despesas.

Aproximadamente R$ 40 milhões anuais são empregados na Instituição para o desenvolvimento das atividades de pesquisa e transferência. “Os recursos investidos na Instituição certamente geram retorno à sociedade. Na segunda edição do Balanço Social, publicado pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios em 2016, demonstrou-se, com base no cálculo da adoção de 48 tecnologias por alguns dos setores de produção, que a cada R$ 1,00 investido na Agência, tem-se retorno de R$ 11,40 para a sociedade. Das 48 tecnologias avaliadas, 12 foram geradas pelo Instituto Agronômico”, salienta a diretoria.

A capacidade do IAC de se adaptar e responder às mudanças, aliada à qualidade de seu corpo técnico e à credibilidade institucional, fez do Instituto Agronômico forte no passado e fundamental no cotidiano dos brasileiros. Para os próximos 130 anos, a diretoria espera que o Instituto continue cumprindo com sua missão institucional, com o objetivo maior de aproximar a ciência do dia a dia dos brasileiros, buscando a inovação, com resultados aplicados que representem o retorno do investimento do dinheiro público para o desenvolvimento de uma sociedade brasileira com melhor qualidade de vida.

Aniversário do IAC, presente para os produtores

Para comemorar seus 130 anos, o IAC lançou duas novas cultivares de cana-de-açúcar: a IACSP01-3127 e IACSP01-5503. “Durante o seu período de desenvolvimento e caracterização, as novas variedades foram avaliadas nas principais regiões de produção de cana-de-açúcar no Brasil. Elas participaram da rede de experimentação do Programa Cana IAC e apresentaram performance de produtividade até 15% superior as cultivares comerciais em cultivo em larga escala na região Centro-Sul do Brasil”, explica o pesquisador do IAC, Mauro Alexandre Xavier.

Ele segue dizendo que essas cultivares foram selecionadas a partir da estratégia de seleção regional, sendo a IACSP01-3127 na região de Jaú e a IACSP01-5503 em Pindorama. A primeira apresentou ótima estabilidade fenotípica para manejos avançados de produção podendo ser utilizado em ambientes médios a favoráveis. Já a IACSP01-5503 apresenta perfil mais rústico, podendo ser utilizada em ambientes médios. Apresentou excelentes resultados na região do cerrado brasileiro. “Dessa forma, as duas cultivares apresentam complementariedade aos ambientes de produção e ambas são de P.U.I. (Período de Utilização Industrial) longo. Essa característica é bastante favorável para os manejos modernos (Matriz de Ambientes) e também facilitador para a safra do produtor. O P.U.I. longo facilita a realização da safra e a utilização de manejos fitotécnicos integrados, como é o caso da Matriz tridimensional desenvolvida pelo pesquisador do IAC, Marcos Landell”, destaca Xavier.

O pesquisador aponta ainda que a décima oitava liberação de cultivares de cana-de-açúcar do IAC, que levou 16 anos para desenvolvimento e caracterização, vem na direção de possibilitar maior diversificação de uso e manejos fitotécnicos modernos, acrescentando opções ao plantel varietal existente e ampliando as estratégias de proteção biológica necessárias para o setor de produção de cana-de-açúcar. Liberadas no dia 27 de julho, as novas variedades estão disponíveis para utilização por parte das empresas parceiras do Programa Cana IAC.