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Ciência e a tecnologia: as armas para derrotar o coronavírus

Publicado em 11 abril 2020

Por Guy Perelmuter 

Guy Perelmuter 

Brasil precisa urgentemente priorizar investimento em qualificação profissional, estrutura de laboratórios e centros de pesquisa

Quando 2019 estava praticamente acabando, a BlueDot – uma startup canadense criada para detectar e prever surtos de doenças infecciosas – identificou uma “pneumonia incomum” nos arredores de um mercado na cidade de Wuhan, na China. O time de cerca de quarenta pessoas (epidemiologistas, médicos, veterinários, engenheiros e cientistas de dados) validou as conclusões obtidas pelos seus sistemas e enviou um alerta para governos, hospitais e empresas dez dias antes da própria Organização Mundial de Saúde emitir sua primeira declaração sobre o assunto, no dia 9 de janeiro.

A tecnologia utilizada combina big data e inteligência artificial: com milhões de dados obtidos de múltiplas fontes – materiais produzidos por órgãos de saúde pública, mídias digitais, relatórios de saúde animal e informações referentes à emissão de passagens aéreas – os sistemas buscam anomalias nos padrões observados.

Foi assim que, além de detectar o novo vírus, a BlueDot também foi capaz de identificar as cidades que provavelmente seriam as primeiras a apresentar novos casos em função dos voos que chegavam e partiam de Wuhan. Utilizando essa combinação de técnicas é possível fazer com que máquinas realizem tarefas até então restritas aos seres humanos, como a identificação do vírus em tomografias ou a análise dos compostos mais promissores para o desenvolvimento de remédios e vacinas.

Apenas em 2019, fundos de venture capital investiram US$ 14 bilhões em startups de biotecnologia ao redor do mundo. Desde que o Projeto do Genoma Humano (financiado pelo governo dos Estados Unidos entre 1990 e 2003 a um custo total corrigido pela inflação de cerca de US$ 5,5 bilhões), o preço e a velocidade de sequenciamento de um genoma caíram drasticamente.

A obtenção desse mapa genético permite o desenvolvimento de terapias e vacinas, sendo que as cientistas brasileiras Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, ambas do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP e integrantes do projeto Cadde (apoiado, entre outras entidades, pela Fapesp e pelo Medical Research Council, do Reino Unido) e Claudio Tavares Sacchi, responsável pelo Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz, foram capazes de sequenciar e tornar disponível para a comunidade internacional em apenas dois dias o genoma da Covid-19 presente no primeiro caso detectado no Brasil.

Neste momento, já existem mais de cinquenta alternativas em diferentes estágios de desenvolvimento para diagnosticar pacientes com a Covid-19, a maioria utilizando a reação em cadeia da polimerase (PCR, na sigla em inglês), um método que produz cópias de uma amostra específica de DNA rapidamente. Em termos de terapias, há cerca de 40 drogas em diferentes fases de testes, e a Organização Mundial de Saúde está coordenando testes com algumas das opções mais promissoras, mas que ainda precisam de validação clínica definitiva. Especialistas apontam que a viabilidade de uma vacina em menos de um ano é remota, mas a quantidade de esforços nessa direção é inédita.

Outra tecnologia tem se destacado por estar cumprindo uma missão particularmente nobre: proteger e auxiliar os profissionais que estão na linha de frente desta guerra. Com o maior acesso às impressoras 3D, a comunidade de makers – engenheiros, designers, arquitetos e artistas espalhados pelo mundo, inclusive no Brasil – criou modelos para impressão de máscaras de proteção, respiradores completos e válvulas que permitem o compartilhamento de ventiladores pulmonares nas UTIs.

O mundo pós-coronavírus irá depender ainda mais de ciência e tecnologia em todos os aspectos – infraestrutura, transportes, indústrias, serviços, saúde – e um país como o Brasil, com professores, pesquisadores e empreendedores de primeira linha, precisa urgentemente priorizar investimento em qualificação profissional, estrutura de laboratórios, universidades, centros de pesquisa e em parcerias entre universidades e múltiplos setores da economia. Ciência e tecnologia são pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico e social das nações, e cabe ao governo agir para dar condições mínimas de competitividade ao País – pelo bem e pela saúde de todos os seus cidadãos.

*ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO, MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E AUTOR DO LIVRO “FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA”

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