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Ciência do futuro envolve protagonismo global e avanços em áreas estratégicas (8 notícias)

Publicado em 26 de abril de 2022

Por Assessoria de Comunicação

Em novo fascículo do livro comemorativo dos 60 anos da Fapesp, pesquisadores avaliam como a ciência pode responder aos grandes desafios nacionais para o desenvolvimento sustentáve.

“Ainda é possível transformar o Brasil em protagonista global na área de ciência, tecnologia e inovação”, afirma o físico Luiz Davidovich, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, até recentemente, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no artigo de abertura do décimo e último fascículo do livro Fapesp 60 anos: Ciência, Cultura e Desenvolvimento. A publicação busca trazer temas importantes da ciência e a atuação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no financiamento e incentivo à pesquisa.

Na publicação, Davidovich alerta que o protagonismo dependerá de “políticas públicas arrojadas, lastreadas na abrangente estrutura institucional da ciência nacional e no cabedal de conhecimento nas instituições de ciência e tecnologia, consolidado ao longo de décadas”.

Trata-se de um enorme desafio para um país com escolaridade precária, com apenas 16% dos egressos do ensino superior graduados em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática e cerca de 900 pesquisadores por milhão de habitantes – os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) têm, em média, 4 mil por milhão – e com uma agenda econômica que “menospreza” o papel da ciência e da inovação no desenvolvimento nacional, sublinha Davidovich. “Não basta correr, é preciso correr mais que os outros”, adverte.

Com o título De olho no futuro, o último fascículo do livro examina as oportunidades oferecidas pela ciência e os grandes desafios para fazer o Brasil avançar em áreas estratégicas do desenvolvimento sustentável.

O capítulo Transição verde e transição digital aponta dois dos vetores de pesquisa que já integram a agenda da Fapesp para o futuro: as mudanças climáticas e as tecnologias digitais – notadamente a inteligência artificial. “Este momento é orientado por alguns grandes eixos da economia mundial, entre eles o da transição verde”, afirma Marco Antonio Zago, presidente da Fapesp. “Pesquisas sobre a região amazônica estão na ordem do dia”, completa Paulo Artaxo, um dos coordenadores do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

Para responder a esses grandes desafios a Fundação financia grandes programas de pesquisa, como o PFPMCG, o Bioen (sobre bioenergia), o BIOTA (sobre biodiversidade), o eScience (sobre computação) ou ainda os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), que envolvem centenas de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, trabalhando em colaboração.

O Bioen, por exemplo, já investiga o uso da técnica de edição gênica Crispr/Cas9 para alterar características genéticas da cana-de-açúcar e aumentar a produtividade da produção de biocombustíveis.

Também o uso da inteligência artificial promete ter um enorme impacto na produção agrícola, na geração de energia e nos transportes, prevê Roberto Marcondes Cesar Júnior, coordenador do programa Cepids. Em 2020, a Fapesp inaugurou um Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE) voltado à pesquisa em inteligência artificial em parceria com a IBM e sede na USP.

A expectativa é que os avanços nas áreas de inteligência artificial impactem ainda outras áreas de pesquisa, como a genômica, por exemplo, permitindo a compreensão muito mais ampla de como os genes humanos interagem entre si, com o organismo e com o ambiente, na avaliação de Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).

As tecnologias digitais irão requerer análises críticas de seus efeitos sobre a cultura e a sociedade, exigindo a articulação de pesquisadores de diferentes áreas. “Está cada vez mais nítido que o diálogo interdisciplinar é fundamental para lidarmos com problemas contemporâneos”, sublinha Márcio Barreto, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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Novos desafios da ciência

O segundo capítulo do 10º fascículo – Novos critérios para novos desafios da ciência– examina o impacto da revolução tecnológica, impulsionada por meios digitais, para a produção, avaliação e divulgação da ciência.

No caso das agências de fomento, as modulações vão desde a avaliação inicial dos projetos até a análise de seu impacto da pesquisa para a sociedade, exigindo também análise sobre o uso de preprints e reflexões sobre a ética de se conceder a revistas comerciais a propriedade sobre dados de pesquisas financiadas com recursos públicos.

O porte dos desafios tende a obscurecer o dilema histórico entre ciência básica e ciência aplicada. “O que todas as agências do mundo hoje procuram é fazer um blend entre a pesquisa movida pela curiosidade e a pesquisa movida por problemas”, diz Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP.

Neste novo cenário, também ganha força o conceito ciência aberta, que se aplica não apenas à publicação de papers, mas também à disponibilização de todas as informações relacionadas a uma linha de pesquisa. A FAPESP, aliás, foi a primeira agência da América Latina a investir fortemente nessa ideia.

O último capítulo do fascículo – O tecido do conhecimento – trata das estratégias exigidas de agências de fomento à pesquisa para acolher projetos articulados com os novos tempos. Um exemplo é o programa LinCAr – Abordagens inovadoras na pesquisa em Linguagem, Comunicação e/ou Artes –, lançado pela Fapesp em fevereiro de 2022. De acordo com Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fapesp, o ritmo de transformação da vida “torna urgentes as investigações sobre o ser humano – e o lugar da essência humana – em um universo em mutação”.

Os novos tempos exigem mudanças na reorganização dos campos da ciência e nas formas de produção científica. E a palavra-chave é colaboração. “A pandemia da covid-19 escancarou algo que já se apresentava quando mostrou que é possível avançar de forma muito mais rápida e dentro de um esforço integrador muito mais amplo de práticas, de metodologias e de conhecimento”, afirma Glauco Arbix, da USP, um dos coordenadores do projeto Rede Solidária da Pesquisa covid-19, que reuniu quase uma centena de pesquisadores de várias áreas do conhecimento para examinar e propor políticas públicas de controle da pandemia.

Para Arbix, não há como trabalhar com inteligência artificial, robótica e big data sem o olhar da sociologia, da psicologia, da ética, entre outros. Essa perspectiva desafia as ciências humanas. “Quais são os limites éticos da tecnologia? Quais são seus desdobramentos sociais?”, questiona a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora da USP. “Temos que retomar a questão da vida humana e o que ela significa.”

O desafio tem desdobramentos na comunicação digital, com as fake news, algoritmos que viralizam conteúdos em detrimento de outros. “De que maneira a sociabilidade digital muda a maneira como as pessoas fazem política, como as famílias se organizam e as pessoas se relacionam amorosamente? Ou como o Estado se organiza?”, indaga Marcos Nobre, da Unicamp, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). O resultado desta investigação poderá levar à identificação de tendências e à descoberta de quais caminhos podem ser tomados.

O 10º fascículo traz também artigo de Lilia Moritz Schwarcz, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com o título Virá que eu Vi: Pensamentos, sem certezas, sobre o futuro.

Os nove primeiros fascículos do livro – Seis décadas de realizações, DNA da ciência paulista, Pioneirismo digital, Grandes projetos, grandes resultados, Políticas públicas baseadas em evidências e Contribuição social, cultural e artística , Inovação e empreendedorismo, Diversidade e inclusão e Lições da Pandemia estão disponíveis neste link.

Texto: Agência Fapesp