Notícia

A Granja

Ciência de Primeiro Mundo

Publicado em 01 dezembro 2001

Por Luciana Radicione
Poucos sabem, mas o Brasil armazena clones de genes gerados pelas pesquisas na área genômica agrícola. Localizado no campus universitário da Faculdade de Ciências Agrárias (FCAV) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal/SP, o Banco de Clones, o primeiro da América do Sul, é coordenado pelo professor e PhD em Bioquímica, Jesus Aparecido Ferro, 49 anos. Natural de Meridiano/SP, ele está diretamente envolvido nos projetos de pesquisa que ratificaram a entrada do Brasil no reservado e competitivo mundo da ciência. E anuncia, para breve, o início da comercialização de informação científica made in Brazil. A Granja - O que representa para o Brasil, especialmente para o setor de pesquisa científica, a criação do primeiro Banco de Clones de genes da área agrícola da América do Sul? Jesus Aparecido Ferro - Em primeiro lugar, atesta que o Brasil tem hoje competência na área de genômica, ou seja. na clonagem, manipulação. seqüenciamento e análise de genes em larga escala. Até há bem pouco tempo isso era uma prerrogativa apenas dos países desenvolvidos. O domínio dessa tecnologia é fundamental para o desenvolvimento da biotecnologia. Os países que não desenvolverem a sua própria indústria biotecnológica terão nessa área mais uma forma de domínio científico/tecnológico e exploração econômica por parte das grandes potências. O fato de termos hoje um Banco de Clones de genes na área agrícola, o primeiro da América do Sul, significa que já sabemos como gerar os materiais necessários para o desenvolvimento da nossa biotecnologia. P - A partir de quais projetos foi possível a sua criação e quais as fontes financiadoras desse projeto tão importante? Qual o valor investido? R - O Banco de Clones nasceu da necessidade de um projeto específico, que foi o do genoma da cana-de-açúcar. Na sua instalação foram investidos US$ I milhão, entre equipamentos e instalações físicas, a maior parte proveniente do próprio Projeto Genoma da cana. financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Diferentemente do projeto genoma humano, onde foi obtida a ordem ou seqüência de todas as "letras" (A, T, C ou G) de todos os genes presentes nos 23 pares de cromossomos que constituem nosso genoma (ácido desoxiribonucléico, DNA), no projeto genoma da cana-de-açúcar foram seqüenciados apenas os genes que são expressos, ou ativos, em uma determinada parte da planta. Neste caso, foram obtidos genes que são expressos na raiz. nas folhas, no caule, na flor e na semente da cana, tanto em situações normais quanto em situações de estresse (seca, frio. ataque de bactéria). No caso da cana-de-açúcar, dizemos que foram seqüenciados apenas os genes expressos. Nos animais e plantas superiores, a mensagem presente no gene (uma porção do DNA) para a síntese de uma proteína, que vai desempenhar uma função específica na célula, não está na forma contínua; ou seja, ela está trancada (quebrada) por seqüências que não codificam nada. Quando o gene é ativado, ele dá origem a uma outra molécula, na qual a mensagem não está mais trancada. Essa molécula, chamada ácido ribonucléico mensageiro (RNAm), é a responsável por levar a mensagem contida no gene até o local da célula onde está a maquinaria necessária para sintetizar a proteína codificada pelo gene. Na cana-de-açúcar foram obtidas as seqüências não-truncadas, já processadas pela célula. Elas são muito mais difíceis de serem obtidas e, por isso, devem ser armazenadas de uma forma adequada, de modo a permitir seu uso futuro por outros pesquisadores. P - Qual a função do Banco de Clones? Qual contribuição dará para a pesquisa brasileira e internacional? R - Se alguém hoje estiver interessado em fazer experimentos utilizando genes da cana-de-açúcar, não precisa repetir tudo o que foi feito no projeto genoma. Basta adquirir o gene junto ao Banco de Clones. Vários pesquisadores brasileiros já têm em mãos os seus genes de interesse. P - Como se dará essa comercialização e qual será o foco de interesse das instituições internacionais? R - Ainda não atingimos a fase de comercialização com o exterior, mas o interesse dos pesquisadores estrangeiros é muito grande. A comercialização, quando começar a ocorrer, será nos mesmos moldes daquela que existe hoje em relação aos Bancos de Clones do exterior, de onde os cientistas brasileiros adquirem os clones de seus interesses: a aquisição será feita via Internet, com cartão de credito, e o pesquisador terá que assinar um "Acordo de Transferência de Material Biológico", no qual ele se compromete a não repassar o clone adquirido e utilizá-lo apenas para fins de pesquisa. Se no futuro o clone for utilizado para fins comerciais, uma nova negociação deverá ser feita. Essa é a regra que está valendo no mundo científico. No caso de negociação com empresas, isso deverá ser feito caso a caso. P - Todas as informações serão disponibilizadas ou alguma parte do projeto permanecerá confidencial? R - Em relação à cana-de-açúcar, nem toda a informação será disponibilizada de imediato. Vários genes estão em processo de obtenção de patente e só serão liberados após obtê-la. P - O Banco de Clones é formado por quais espécies de genes? A partir desses genes, quais benefícios podem ser obtidos pela ciência? R - Hoje, além dos genes da cana-de-açúcar, temos armazenado no Banco de Clones genes de bactérias que causam doenças em plantas, genes de bactérias de interesse biotecnológico e estamos recebendo os genes do eucalipto, cujo seqüenciamento está sendo realizado pelo Programa Genoma da Fapesp, em associação com um consórcio de empresas florestais de papel e celulose. Dentre as bactérias que causam doença em plantas, temos os genes da Xylella fastidosa, que causa o amarelinho ou CVC na laranja: Xylella fastidiosa, que causa a chamada doença de Pierce nos vinhedos da Califórnia: Xanthomonas axonopodis pv citri, que provoca o cancro cítrico na laranja; Xanthomonas campestris pv campestris, que causa a podridão negra no repolho e em plantas da mesma família; Leifsonia xyli subsp. xily, que causa o raquitismo da soqueira na cana-de-açúcar; Chromobacterium violacium, uma bactéria encontrada em grande quantidade nas águas do Rio Negro; e Glucanacetobacter diazzotrophicus, uma bactéria fixadora de nitrogênio associada à cana-de-açúcar. Com exceção dos dois últimos organismos, que estão sendo financiados pelo governo federal, através do Ministério da Ciência e Tecnologia/CNPq, todos os outros foram ou estão sendo seqüenciados dentro do programa Genoma Fapesp, em parceria com empresas do setor privado ou mesmo com órgãos governamentais de outros países. Os genomas da Xylella e da Xanthomonas tiveram a parceria da Fundecitrus; o da cana-de-açúcar e o da Leifsonia tiveram como parceiro a Copersucar, e o do eucalipto está tendo a participação de empresas do setor de papel e celulose. A pergunta que todos fazem é: de posse desses genes, quais avanços podem ser obtidos pela ciência? Exemplifico: no caso da cana-de-açúcar, obter variedades que produzam mais açúcar, que sejam resistentes à seca, a geadas e a pragas, ou mesmo que possam produzir outros açúcares de interesse industrial, diferentes da sacarose. No caso do eucalipto, espera-se obter melhoria na qualidade da madeira e plantas resistentes à seca e às doenças. P - Sobre o seqüenciamento das bactérias que causam a CVC e o cancro: quais benefícios esses estudos podem trazer para a agricultura brasileira? R - Tanto a CVC quanto o cancro cítrico atacam uma de nossas principais culturas, cm termos de exportação e de geração de emprego e riqueza, em mais de 300 municípios, só no Estado de São Paulo. Se essas duas doenças puderem ser controladas ou eliminadas, aumentaremos ainda mais nossa competitividade internacional, tanto pela diminuição dos custos como pelo aumento da produção. P - No caso da cana-de-açúcar, o interesse comercial é maior? Por quê? R - Eu diria que no caso da cana-de-açúcar temos hoje mais parceiros interessados em fazer uma avaliação biotecnológica dos genes obtidos. Há 60 laboratórios no Brasil vasculhando os dados gerados e procurando aplicações práticas. Como a cana é uma planta da família das gramíneas, o que for válido para ela provavelmente será válido também para outras culturas importantes dessa mesma família, tais como arroz, trigo, milho, aveia, cevada e sorgo. Uma empresa de biotecnologia belga, chamada CropDesign, se interessou pelos genes da cana e fez um acordo com a Fapesp para testar em arroz 1.000 genes da cana-de-açúcar. Os genes a serem testados serão sugeridos tanto pela empresa como pelos grupos brasileiros que estão trabalhando no projeto da cana. Espera-se que no futuro tenhamos no Brasil firmas de biotecnologia que possam trabalhar com a própria cana. P - A imagem do Brasil "científico" avançou positivamente no mundo a partir do trabalho de seqüenciamento das bactérias que causam a CVC e o cancro cítrico? R - Certamente. Como costuma dizer o Dr. Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma da Xylella, entramos em um clube seleto sem ser convidados e mostramos que temos competência. Agora somos aceitos como membros. O que chamou a atenção da imprensa e da comunidade científica internacional foi não só a qualidade do trabalho realizado numa área estratégica, mas também a maneira diferente de como ele foi feito. Em vez de construir um grande centro de pesquisa para o estudo de genomas, onde seriam contratados cientistas, a Fapesp decidiu utilizar os pesquisadores e a infra-estrutura já existentes nos diferentes laboratórios distribuídos pelas instituições de pesquisa públicas e privadas do Estado de São Paulo. Criou assim um instituto virtual, onde o trabalho é feito em rede e de um modo cooperativo. Esse modelo chamou a atenção dos países desenvolvidos. Antes dos projetos genoma. sempre tivemos no Brasil cientistas altamente competentes, que faziam e fazem ciência de alto nível, comparável ao que é realizado nos países desenvolvidos. O Projeto Genoma teve o mérito de fazer com que a ciência brasileira tivesse uma visibilidade que nunca teve antes. A população tem o direito de saber no que e como é investido em pesquisa o dinheiro público. Nós, cientistas, estamos cada vez mais sendo chamados a explicar o que estamos fazendo. Isso é bom! P - Daqui para a frente, o que é preciso fazer para que esse status seja mantido? R - O seqüenciamento é apenas o primeiro passo, e isso já mostramos que sabemos fazer. E bem! Temos que investir agora no que se chama de pós-genoma, ou seja. desenvolver também a competência para analisar os genes e transformar essa informação em produto e tecnologia. Além disso, devemos investir em problemas nossos, seja na área de saúde humana, de meio ambiente, de sanidade animal ou de agricultura. Estamos no caminho certo. P - Na sua opinião, o governo brasileiro precisa investir mais em pesquisa e nas suas instituições? R - Temos que ter consciência que pesquisa é cara,mas que sem ela o País não gera conhecimento e nem transforma esse conhecimento em produtos e serviços que geram riqueza e bem-estar para a população. Assim, ela tem que ser vista pelo Governo como uma área estratégica. Ao longo destes últimos anos,o governo brasileiro investiu bastante na formação de recursos humanos qualificados em ciência e tecnologia, por intermédio da concessão de bolsas de estudo para alunos de pós-graduação e pós-doutoramento, aqui e no Exterior. No entanto, deixou a desejar no fomento à pesquisa. É preciso fazer as duas coisas. Não adianta ter pessoal qualificado se não se criam condições para a formação de grupos de pesquisa, com alocação contínua de recursos. É necessário uma política a longo prazo de desenvolvimento científico e tecnológico. Felizmente, parece que as coisas estão começando a tomar essa direção. P - O mapeamento de bactérias e a clonagem de genes foram importantes passos dados pela pesquisa científica nacional. E agora, na área agrícola, o que ainda pode ser feito para aumentar a segurança dos agricultores brasileiros? R - Vejamos os casos específicos que temos em mãos: laranja e cana-de-açúcar. Se formos capazes de obter variedades de cana mais resistentes à seca, ao frio e às pragas, estaremos assegurando que nossos agricultores não percam a produção quando esses males ocorrerem. O mesmo se aplica à laranja. Plantas resistentes ao amarelinho, ao cancro cítrico e também ao frio (geadas) são o sonho de todos os citricultores. P - Embora não seja a sua área específica, como vê - sendo cientista - a clonagem de seres humanos? Estamos próximos disso? R - Clonagem como forma de reprodução, ou seja. a geração de um indivíduo inteiro a partir de uma célula por reprodução assexuada, não deve ser realizada em seres humanos. Deixando de lado os aspectos morais, éticos, culturais e religiosos, e analisando apenas os científicos, a clonagem reprodutiva humana tem muitos riscos. Essa impressão, transmitida pela novela O Clone. de que é fácil e que o recém-nascido é normal e saudável não é real! O próprio criador da ovelha Dolly é contra a clonagem humana, pois sabe muito bem quantos foram os insucessos e quantas "Dollys" nasceram com sérios problemas e logo morreram. Já a chamada clonagem terapêutica, aquela que visa a obter órgãos para transplante, a partir de uma célula única de um tecido ou de um embrião, deve ser discutida pela sociedade em todos os seus aspectos.