Notícia

FOCEP Brasil

Ciência da implementação ajuda na adoção de novas práticas em saúde pública, avaliam especialistas

Publicado em 23 novembro 2021

Por Elton Alisson | Agência FAPESP

A pandemia de COVID-19 mostrou que implementar intervenções eficazes em saúde pública, comprovadas cientificamente, e práticas baseadas em evidências não é algo trivial.

Uma nova especialidade, denominada ciência da implementação, pode facilitar a tarefa ao identificar e abordar as barreiras que retardam ou interrompem a tradução do conhecimento em prática médica.

“Há muitas intervenções que se mostraram eficazes em estudos clínicos e que não são implementadas no mundo real ou são de forma muito limitada. A ciência de implementação pode contribuir para preencher a lacuna entre o que sabemos

e o que fazemos”, disse Vilma Irazola, professora da Universidade de Buenos Aires (UBA).

A especialista foi uma das participantes do seminário “O papel da ciência de implementação”, realizado de forma virtual no dia 3 de novembro. O evento integra a série FAPESP COVID-19 Research Webinars, organizada pela FAPESP em parceria com o Global Research Council (GRC).

A ciência da implementação é definida como o estudo de métodos para promover a incorporação sistemática de resultados de pesquisas e outras práticas baseadas em evidências na rotina médica, com o intuito de melhorar a qualidade e a eficácia dos cuidados de saúde, dos serviços e da saúde pública.

Um dos métodos empregados para atingir esse objetivo é examinar a variação da implementação de intervenções com eficácia comprovada em pequenos grupos de indivíduos.

“Também podemos pensar em avaliar a implementação de intervenções em termos de população com o objetivo de analisar, por exemplo, a influência dos serviços clínicos, de aspectos comportamentais e de políticas de promoção de saúde”, afirmou Edward Gregg, professor do Imperial College London.

Essa abordagem em nível populacional é especialmente relevante para ser empregada em situações como a pandemia de COVID-19, indicou Gregg.

“Isso pode ajudar a responder questões como quais abordagens de promoção de saúde, ambientais e comportamentais afetam a exposição de indivíduos de alto risco e a transmissão da doença, bem como quais abordagens no gerenciamento da atenção primária afetam o risco de progressão de infecção para morbidade grave”, avaliou.

Contexto é chave

Compreender o contexto em que as intervenções serão feitas é fundamental na ciência da implementação, apontou Irazola.

“Mesmo que se tenha a intervenção mais bem-sucedida, o contexto pode afetar sua implementação. Isso porque ele é dinâmico, muda o tempo todo. Por isso, é importante conhecê-lo para ajustar um plano de adaptação”, afirmou.

Foi isso o que fizeram dirigentes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) para transformar o mais importante hospital universitário da capital paulista em um centro de tratamento de pacientes com COVID-19.

A instituição já possuía um plano de desastre, implementado pela primeira vez em 2013, por ocasião do incêndio do Memorial da América Latina, em que 13 bombeiros ficaram feridos, e a última vez em 2020, durante a epidemia de febre amarela hemorrágica. Com o surgimento da pandemia de COVID-19, o plano voltou a ser ativado no fim de janeiro de 2020 e teve de ser adaptado para o enfrentamento desse evento extraordinário.

“Enfrentamos muitas circunstâncias que nos obrigaram a ser muito criativos e resilientes para dispormos de 300 leitos de UTI [unidade de terapia intensiva] para pacientes com COVID-19 funcionando e administrar esse centro dedicado ao tratamento da doença”, disse Anna Morais, médica integrante do comitê de crise COVID-19 do HC-FMUSP.

“Ter um plano de desastres foi fundamental para fazer adaptações impossíveis de serem planejadas com antecedência. Precisamos expandir nossa capacidade de atendimento de forma muito rápida”, disse Morais.

Um dos processos empregados pelas instituições hospitalares no Brasil e em diversos outros países para expandir a capacidade de atendimento de pacientes com COVID-19 foi a telemedicina.

No Brasil, o atendimento médico on-line cresceu cerca de 1.500% durante a pandemia de COVID-19 – alta similar a de outros países, como os Estados Unidos –, e deve aumentar em 58,4% até 2025, disse Eduardo Cordioli, gerente médico de telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein e presidente da Saúde Digital Brasil (SDB), entidade que representa os principais operadores de telemedicina no país.

Um dos entraves para a expansão do serviço no país é a existência de um ambiente regulatório pouco claro, apontou o especialista.

“O Brasil é um grande mercado para inovação digital em saúde, apresentando um ritmo de crescimento rápido para a adoção de telemedicina. Mas ainda é preciso superar alguns obstáculos, como a falta de políticas de reembolso para consultas por telemedicina e resistência de parte da comunidade médica”, avaliou Cordioli.

O evento pode ser assistido na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=JB1K3zBH0_o

Por Elton Alisson | Agência FAPESP