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Forbes Brasil

CIÊNCIA COM RITMO

Publicado em 25 outubro 2000

Por Por FABIANA PARAJARA
A National Science Foundation, NSF, poderosa agência de financiamento de pesquisas dos Estados Unidos, tem uma receita anual de cerca de 4,5 bilhões de dólares. Financia boa parte dos projetos científicos americanos. É uma entidade independente, rica e com prestígio internacional. Está entre as melhores do mundo, mas reconhece que poderia ser melhor caso se inspirasse, acredite se quiser, no Brasil. "Nenhuma agência de fomento no mundo trabalha melhor que a Fapesp", disse a FORBES BRASIL, o diretor da NSF, Daniel Newlon, referindo-se à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. "Ela é mais eficiente que nos na resposta as propostas de projeto." Em seis semanas, o pesquisador que encaminhou um pedido de verba a Fapesp tem seu pedido de verba à Fapesp tem seu pedido aceito ou recusado. Na NSF, o processo pode demorar seis meses. Mesmo com esse tipo de reconhecimento, existe ainda uma distância enorme entre a Fapesp e a NSF. Enquanto a americana financia pesquisadores de todo o território americano, a área de atuação da Fapesp está restrita ao Estado de São Paulo. O número de projetos analisados pela entidade brasileira e muito menor do que os que estão confiados à NSF. A quantidade de produção científica brasileira é também modesta na comparação com a americana. Isso não quer dizer que o trabalho desenvolvido pela Fapesp não tenha importância. O dinheiro que financiou, por exemplo, o trabalho da equipe que pesquisou o genoma da Xylella fastidiosa, a praga que ataca os laranjais paulistas, saiu dos cofres da agência. O trabalho foi tema da reportagem de capa da Nature, a mais tradicional das revistas voltadas para a comunidade científica internacional. "A Fapesp significa o que há de promissor no futuro da ciência brasileira", diz Andrea Kauffmann-Zeh, editora-sênior da Nature. Num ambiente científico como o brasileiro, onde nunca houve fartura de dinheiro para a pesquisa, e a ciência poucas vezes foi uma prioridade, o caso da Fapesp chega a atrair atenção. "Fazemos mais pela ciência brasileira do que todo o Ministério da Ciência e Tecnologia", diz José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp. Na próxima etapa da pesquisa do genoma da Xylella, o projeto terá o co-patrocínio de vinicultores americanos e do departamento de agricultura dos Estados Unidos. Com mais dinheiro e apoio, os avanços costumam vir mais rápido. Entre os projetos importantes que está financiando, há ainda o genoma da cana-de-açúcar; o genoma do câncer, desenvolvido em parceria com o Instituto Ludwig, da Inglaterra; e o Instituto Virtual de Biodiversidade, uma rede de informações sobre animais e plantas do Estado de São Paulo. Excelência - As pesquisas do genoma coordenadas pelo professor Andrew Simpson colocaram o Brasil na lista dos mais eficientes produtores de seqüências de genes em tumores. A equipe brasileira foi responsável por 280000 seqüências de genes, depositadas no Gen-Bank, o banco internacional de dados sobre o genoma do câncer. Entre os países envolvidos no projeto, só os Estados Unidos e a Inglaterra conseguiram seqüenciar mais de 280000 cadeias genéticas completas. O sorridente professor Perez é um cientista de hábitos que se destacam na comunidade científica. Físico de formação, ele analisa projetos com olhos exigentes como os de um executivo. Essa é uma cultura presente em toda a Fapesp. As pesquisas que são financiadas precisam ter um sentido de utilidade, mesmo que no primeiro momento pareçam fora da realidade. "Passamos da fase de financiar bons projetos", diz Perez. "Queremos excelência." Apaixonado pelo compositor Johann Sebastian Bach, Perez passa alguns minutos do seu dia - e algumas horas nos fins de semana - ao piano, em seu apartamento em São Paulo. "É fantástica a forma como ele constrói suas peças, que são feitas e refeitas o tempo todo", afirma Perez. É essa inquietação que ele procura levar à Fapesp. Isso tem chamado a atenção dos investidores. Há poucos meses, a diretoria da agência recebeu a visita de representantes de um fundo de investimento interessado em montar uma parceria com a Fapesp. No ano passado, a área que mais atraiu recursos foi a de Biologia - 118 milhões de reais. Isso deve continuar neste ano. A instituição tem 180 funcionários e autonomia para administrar um orçamento anual de 500 milhões de reais, quase o mesmo valor destinado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, órgão federal responsável pelo financiamento de pesquisas e dono de orçamento de 621 milhões de reais em 1999. Enquanto o CNPq gastou no ano passado 400 milhões de reais, ou 65% de sua receita, com bolsas de estudos, a Fapesp procurou trabalhar de forma diferente. Em primeiro lugar, ela só investe em projetos que se provem viáveis. Esses projetos não precisam ter aplicação imediata ou valor comercial instantâneo, mas devem estar no ponto mais avançado de seu campo. A seleção é rigorosa. As propostas passam por uma comissão de especialistas e, se aprovadas, seguem para o crivo de um perito. São mais de 5000 colaboradores que emitem pareceres para a Fapesp. A maior parte da receita liberada pela Fapesp cobre os gastos da pesquisa, como equipamentos, livros e despesas com publicação. Ou seja, a infra-estrutura necessária. "Nossas verbas acabam sendo complementares", justifica o chefe de gabinete do CNPq, Çélio Fellows Filho, que concentra seus financiamentos em bolsas, a maioria no valor de cerca de 300 reais por mês. "Normalmente, os projetos maiores usam as nossas bolsas e a estrutura da Fapesp." Criada em 1962, a Fapesp recebe, por lei, 1% de todo o Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços recolhido no Estado de São Paulo - em média 250 milhões de reais por ano. Uma pequena parte desse dinheiro, 5%, vai para os gastos administrativos. Os 95% restantes vão para pesquisa. Há ainda outras fontes de renda, como os 250 milhões de reais que vêm da administração dos imóveis pertencentes à fundação e de investimentos financeiros. Todas as outras agências dependem exclusivamente de repasses públicos. "A maioria dos governos estaduais não mantém um repasse contínuo de verbas para suas fundações", explica Lelio Hellows. Por isso, A Fapesp está em situação confortável mesmo se comparada às instituições federais ou às de Estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Talvez isso ajude a explicar por que a Fapesp tem atraído tantos cérebros e talentos de todas as partes do país. Há uma leva de pesquisadores que tem migrado para as universidades e para os institutos paulistas de olho nos financiamentos. "Se está em São Paulo, para a gente é paulista", resume Perez. "E se está aqui pode nos ajudar a aprimorar a ciência no Brasil." BOLSOS FORRADOS O governo federal pretende destinar, a partir do próximo ano, uma verba mais segura para os cientistas brasileiros. Os pesquisadores que desenvolvem soluções para a área de energia, por exemplo, deverão receber 140 milhões de reais para seus estudos. Trata-se de uma cota especial, separada do pagamento de royalties da produção de petróleo e de gás natural. Por lei, 40% desse valor deve ser investido em pesquisas e desenvolvimento de recursos humanos nas regiões Norte e Nordeste. O dinheiro só pode ser destinado a universidades e centros de pesquisa. "Nossa esperança é que essa reserva garanta a continuidade das pesquisas", diz Denis Schiozer, coordenador do Centro de Estudo de Petróleo, Cepetro, da Universidade Estadual de Campinas. "Muitos estudos eram interrompidos por falta de verbas." Uma das finalidades do Cepetro, por exemplo, é ajudar os pesquisadores da Unicamp a captar dinheiro na iniciativa privada e, assim, garantir a continuidade dos trabalhos. Há mais seis setores à espera de regulamentação de fundos especiais. As pesquisas com energia elétrica devem receber 100 milhões de reais em 2001. A mineração ficará com cerca de 5 milhões, e o setor de transportes, com 10 milhões. Os recursos hídricos levam 25 milhões. Mais 240 milhões serão destinados a projetos que unam universidades a empresas. As pesquisas espaciais ainda não têm previsão de receita. Áreas como saúde, agro-negócios, aeronáutica, informática e telecomunicações já estão na lista das que receberão injeção de capital. De acordo com as previsões do Ministério da Ciência e Tecnologia, os fundos deverão dobrar o orçamento destinado à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico no país. Ou seja, cerca de 1 bilhão de reais a mais deve ser distribuído pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, e pela Financiadora de Estudos e Projetos, Finep. "A regulamentação dos fundos setoriais foi a melhor notícia que poderíamos receber", afirma Lélio Fellows Filho, chefe de gabinete do CNPq.