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Brasil Econômico

Ciência avança com mais recursos e órgãos públicos

Publicado em 23 janeiro 2010

Por Fabiana Parajara

Número de bolsas e publicações cresce, mas ainda falta integração entre academia e empresa, dizem especialistas

A partir de março, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) terá 14 mil bolsistas de pós-graduação em sua folha de pagamento. O número é praticamente o dobro de 2003, de 7,7 mil, quando José Roberto Drugowich, diretor de programas horizontais e instrumentais chegou ao CNPq. No mesmo período, o orçamento da casa passou de R$ 500 milhões para R$ 1 bilhão. Na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), os recursos estão ainda maiores. Passaram de R$ 500 milhões para cerca de R$ 2,5 bilhões.

O resultado prático disso são mais 42 mil orientadores cadastrados na Capes como formadores de recursos humanos. E um aumento expressivo da produção científica nacional. Pelo último censo, de 2008, o número de artigos publicados cresceu 56% e o país passou a ocupar a 13ª posição no ranking mundial de produtividade. "Isso representa 2% das publicações mundiais. É equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto) nacional, que também representa 2% do mundial", afirma Marco Antonio Raupp, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Para ele, esse índice marca um avanço incrível do país, que só foi possível com o aumento dos investimentos em instituições como Capes, CNPq e mais recentemente a Financiadora de Estudos e Projetos(Finep). "Mas ainda falta muito a ser feito pela iniciativa privada", diz Raupp. "As empresas precisam aproveitar esses doutores, essa competência que se forma".

Essa integração, por enquanto, fica restrita a áreas específicas como petroquímica, Aeronáutica e agrícola. "Foram os setores nos quais avançamos pela parceira. Como na Embrapa, por exemplo, que faz pesquisa aplicada às necessidades do agronegócio", diz Raupp. Ele faz menção ainda a parceiras como a da Petrobras com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a criação de um polo de tecnologia para aviação em torno do Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial, em São José dos Campos.

Para Drugowich essa situação pode mudar rapidamente. "Temos várias empresas que agora participam de fundos coma Finep e o CNPq para o desenvolvimento de pesquisa. É o caso da Vale com mineração", exemplifica, acrescentando que a participação das fundações estaduais de amparo à pesquisa também são fundamentais para o desenvolvimento da produção científica e sua aproximação coma iniciativa privada.

O exemplo da Fapesp

A Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) tem um dos mais importantes programas de bolsas de estudos do país. Mensalmente mais de dez mil pessoas recebem auxílio para se dedicar atividades de pesquisa, da iniciação científica ao pós-doutorado. "A quantidade de bolsas se compara favoravelmente com as de outros países", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da instituição. Na Fapesp, 50% dos pedidos de bolsa de pós-doutorado são aprovados.

Nos Estados Unidos ou na Inglaterra, esta taxa é menor do que 20%. Atualmente, a área que mais recebe recursos da fundação é a de ciências da saúde, seguida por biologia, engenharias e ciências humanas e sociais. "O volume do apoio em cada área é definido pelo número de cientistas qualificados nelas, pelo custo da pesquisa naquela área e pelo interesse dos cientistas em obter apoio da fundação", afirma. Mas quando se vê a necessidade de incentivar determinadas áreas, a Fapesp trabalha com programas especiais, como Bioenergia, Mudança Climática Global, Biodiversidade, Neurociências e Tecnologia da Informação e Internet Avançada.

A maior parte dos bolsistas da Fapesp se torna pesquisador, sendo que 18% vão para outras instituições acadêmicas no Brasil e fora de São Paulo. "A quantidade que vai para empresas ainda é menor do que gostaríamos e do que o Brasil precisaria", diz Cruz.

Inovação também passa pelo ensino médio

"É no chão de fábrica que ocorrem mais de 70% das inovações", afirma Marco Antonio Raupp, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Isso porque os funcionários de nível técnico são os principais responsáveis pelas mudanças que trazem mais rentabilidade às empresas. "Eles podem inverter uma das ordens da linha de produção ou mudar a configuração de uma máquina e fazer toda a diferença", diz. Por isso, ele defende um investimento maior também no ensino médio, que aumentaria a qualificação de milhares de profissionais.

"No Brasil, a cultura é pelo bacharelado ainda, em vez do ensino técnico, que é fundamental", afirma. Mas também é importante que qualquer companhia aposte na capacidade empreendedora de seus empregados. "Os funcionários têm de ser estimulados a inovar, a propor alterações no modo de trabalho", diz o professor.

O McDonald"s está entre as empresas que aprenderam isso na prática. A partir da iniciativa de um técnico de manutenção de Natal (RN), Antônio Lindomar da Silva, a empresa conseguiu reduzir o consumo de água. Silva observou que nas lojas do Nordeste o ar-condicionado gerava um grande volume de água condensada, que poderia ser armazenada para a limpeza das áreas externas e para a manutenção dos jardins. Na prática, a iniciativa representou uma economia de 45 metros cúbicos por mês à unidade ou R$ 5,5 mil por ano. Estimativa mostra que, se aplicada em 100 restaurantes, a iniciativa de Silva pode gerar uma economia de R$ 500 mil por ano. A estratégia deve ser desenvolvida em outras unidades do Nordeste. A descoberta valeu um prêmio de revelação ao funcionário em 2009.