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Ciência aponta soluções biológicas para controlar pragas agrícolas

Publicado em 21 abril 2020

Os pulgões não têm mais do que 10 milímetros de tamanho, mas são grandes inimigos das plantações de milho, couve e outras culturas. Então, como controlar essa praga? Um estudo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) sugere a utilização de outros organismos, como fungos, bactérias, vírus e vespas, e também do silício.

A pesquisa é coordenada pelo engenheiro agrônomo Marcus Vinicius Sampaio, que, desde 1997, estuda como as vespas parasitoides (Hymenoptera: Braconidae) podem ser utilizadas para controle de pulgões (Hemiptera: Aphididae). Em 2005, Sampaio ingressou no Instituto de Ciências Agrárias (Iciag/UFU) – onde é professor de entomologia, área que estuda os insetos – e passou a integrar o grupo de pesquisa sobre o uso de silício na agricultura.

Como funciona

O pulgão vive ali, sugando a seiva da planta, até que a vespa aparece. A vespa deposita seus ovos no interior do pulgão e, em aproximadamente sete dias, as larvas se desenvolvem. O pulgão continua se alimentando da planta e crescendo, mas sua reprodução já fica comprometida. Quando uma larva atinge seu tamanho máximo, ela come os órgãos internos do pulgão, mata-o, corta o seu ventre e o prende na folha.

O pulgão vira um tipo de múmia, dentro da qual a larva se transforma em pupa até emergir a vespa adulta, que sai em busca de outros pulgões para depositar neles os seus ovos e recomeçar esse ciclo, que dura cerca de 10 a 12 dias em temperaturas amenas.

As pragas também podem ser evitadas com o uso de silício, o segundo elemento mais abundante no planeta (atrás apenas do oxigênio), encontrado em argila, granito e areia, por exemplo. O silício não chega a ser um nutriente essencial para as plantas, mas aumenta a resistência à seca, aos metais pesados, às doenças e às pragas.

“No caso da resistência aos insetos pragas, o silício fica acumulado nas folhas, formando uma barreira física que dificulta a alimentação dos insetos e fere seus sistemas digestórios”, explica Sampaio. O elemento também está envolvido no aumento da produção de substâncias de defesa, produzidas quando a planta é atacada pelos insetos.

Mas, segundo o cientista da UFU, o silício tem ainda uma face menos explorada: a atração dos inimigos naturais das pragas – logo, amigos naturais das plantas. Quando o inseto se alimenta das plantas, são formadas substâncias voláteis, percebidas pelos inimigos naturais, o que os ajuda a localizar a planta atacada e, por sua vez, suas presas e hospedeiros.

O professor Sampaio juntou as duas coisas nos seus estudos. Ele e o seu orientando Reinaldo Silva de Oliveira observaram que plantas de trigo adubadas com silício produzem uma substância (geranil acetona) que repele os pulgões e atrai o parasitoide predador deles.

“Não se sabia que o silício poderia ter ação de atração de inimigos naturais em plantas que não foram atacadas pelos insetos. Esses resultados são interessantes, pois ajudam a entender como as plantas utilizam o silício e como podemos manipular esses comportamentos para reduzir as populações das pragas”, explica Sampaio. Esse estudo foi publicado no periódico científico PlosOne.

Em outro trabalho, recém-aceito no periódico científico Neotropical Entomology, mas ainda não disponível, os pesquisadores constataram que os pulgões que se alimentaram das plantas de sorgo adubadas com silício são um alimento de maior qualidade para o parasitoide. “Então, podemos concluir que o silício pode ajudar na redução dos insetos pragas favorecendo os inimigos naturais.”

Uso na agricultura

O controle biológico de pragas já é feito por produtores agrícolas. “O Brasil conta com vários inimigos naturais registrados para o uso no controle biológico de pragas e é um mercado que cresce ao redor de 20% ao ano”, afirma Sampaio. Há ainda o controle biológico que ocorre naturalmente no campo.

As empresas que produzem sementes utilizam tecnologias que aumentam a resistência das plantas às pragas, mas o pesquisador da UFU explica que elas preferem utilizar o termo “tolerantes”, e não “resistentes”, para não levar os produtores a acreditarem que não haverá investida de pragas. “Não é assim que ocorre, você pode ter um ataque menor de pragas na variedade resistente do que na suscetível.”

Na tese de doutorado de Carlo Boer, orientada por Sampaio e defendida na UFU em 2017, os pesquisadores encontraram diferenças grandes de resistência aos pulgões em híbridos comerciais de milho. O trabalho foi publicado no periódico científico Bulletin of Entomology Research.

Sou professor da @UFU_Oficial desde 2005 e #EuParecoCientista. Trabalho com soluções biológicas para o controle de pragas na agricultura, dentre elas o controle biológico desde 1997 e a resistência de plantas aos insetos induzida pelo uso do silício desde 2010. pic.twitter.com/nWSmiR4tva

Em 2019, o Brasil liberou a utilização de 474 novos agrotóxicos, mas o cientista da UFU explica que há confusão na abordagem desse tema. “A liberação recente desses agrotóxicos está relacionada a produtos a base de moléculas que já estavam em uso no país e, inclusive, de produtos biológicos. Por isso, defendo que o termo ‘agrotóxico’ não se aplica mais”, declara Sampaio.

Ele explica que muitos produtos que não são prejudiciais à saúde e ao meio ambiente – a base de fungos, vírus, predadores e parasitoides – são colocados na mesma categoria das substâncias químicas tóxicas. “Isso confunde a opinião pública e até mesmo nós pesquisadores na hora de avaliar esse montante de produtos liberados pelo governo”, problematiza.

Sampaio defende que as mais variadas ferramentas possíveis estejam disponíveis para que o agricultor possa utilizá-las de maneira coerente e ética. “O grande problema é o mal uso e a ausência ou incipiente fiscalização de resíduos nos produtos agrícolas. Todos queremos alimentos saudáveis, livres de contaminação. O uso correto dos agrotóxicos e as ferramentas biológicas de controle de pragas têm que ser utilizadas de forma harmoniosa para reduzirmos ao máximo o uso das substâncias tóxicas.”

Parcerias e financiamento

Além de Marcus Vinicius Sampaio e de seus orientandos, participam dos estudos sobre controle biológico de pragas outros dois professores do Iciag/UFU – Gaspar Henrique Korndorferm, aposentado, e Hamilton Seron Pereira – e mais dois pesquisadores de outras instituições – os professores José Mauricio Simões Bento, da Universidade de São Paulo (USP), e Maria Fernanda Peñaflor, da Universidade Federal de Lavras (Ufla).

Os trabalhos recebem financiamento da Capes, Fapemig, CNPq e Fapesp. As bolsas de estudo e o financiamento tem sido feito, principalmente, por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Hymenoptera Parasitoides (INCT-Hympar), do qual Sampaio faz parte, e do INCT Semioquímicos na Agricultura, parceiro nos trabalhos de mestrado e doutorado de Reinaldo Silva de Oliveira.

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