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Negócios da Comunicação

Ciência acessível

Publicado em 27 abril 2012

Por Dum de Lucca

Aproximar a sociedade da ciência é um dos pontos essenciais da imprensa científica. Por que é importante, por que um cientista trabalha 20 anos em httum laboratório procurando uma bactéria e o que isso pode influenciar na vida do cidadão são pontos trazidos à luz da discussão. Num país em que a ciência é relativamente nova ó o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) foi criado apenas em 1950 ó, o mercado editorial de publicações nesse segmento ainda é pouco explorado.

A mídia científica no Brasil está em processo de formação, um passo atrás do processo de formação da ciência brasileira."Entendo que esse é um dado natural, uma vez que a ciência brasileira é ainda muito jovem: o país começou a produzir ciência de maneira sistematizada há cerca de 60, 70 anos. Ao se levar em consideração esse aspecto da ciência brasileira, vamos de pronto observar que a mídia científica nacional é mais jovem ainda", explica o assessor de imprensa da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), José Roberto Ferreira.

Os poucos anos talvez expliquem algumas características desse segmento editorial: o número relativamente reduzido de publicações de divulgação científica existentes no Brasil com viés comercial ó as revistas que são vendidas em banca ó em vista do número de leitores em potencial e da diversidade de temas aos quais a ciência se dedica.

ìTemos poucos, muito poucos na verdade, profissionais que se dedicam exclusivamente ou permanentemente ao jornalismo científico. Temos bons jornalistas científicos, mas são poucos nessa condição. Uma segunda ordem de observação diz respeito à origem das notícias publicadas pela nossa mídia científica. A ciência brasileira oferece muitos fatos e situações que nossa mídia especializada não aproveita", ressalva o assessor da SBPC.

De acordo com Célio Bermann, Professor- doutor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), diferentemente dos países mais avançados, são poucas as publicações científicas no Brasil e elas atingem um público bastante restrito. Apenas algumas delas conseguem sair do meio acadêmico para chegar a um público mais amplo.


"Entretanto, em termos de qualidade, as existentes não ficam atrás das congêneres internacionais. O problema é que as próprias instâncias de avaliação acadêmica - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por exemplo - não valorizam nossos periódicos científicos nacionais", observa. Um artigo de um cientista brasileiro, ele diz, de qualquer área de conhecimento, que for publicado em periódicos nacionais não é valorizado."Vivemos uma indesejável situação de neocolonialismo e só tem valor o que é publicado no exterior, preferencialmente na língua inglesa", avalia Bermann.

É preciso divulgar


O cientista Franklin David Rumjanek, bioquímico do Laboratório Sonda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acredita que há entre os veículos de divulgação científica diferentes níveis de qualidade e de objetivos. Segundo ele, alguns relatam o que é curioso e exótico, enquanto outros se preocupam em divulgar as pesquisas e conquistas dos cientistas.

"Às vezes uma revista coleta informação do que pode ser mais curioso, sem a preocupação com o conteúdo científico. Mas existem publicações que têm o cuidado de levar ao leitor o entendimento do processo de pesquisa e até emiti uma opinião, o que é o ideal. O cuidado em valorizar o cientista brasileiro deve ser prioridade, e posso citar a Ciência Hoje (Inst. Ciência Hoje) como uma revista que faz isso". Fornecer à população informações que possibilitem saber o que acontece em termos de pesquisas, para ele é essencial.

Conforme relata, de uma maneira geral, os cientistas olhavam torto para as revistas científicas nacionais. Quem divulgava ciência era visto como quem gastava tempo, quem enxergava a ciência como uma função apenas de bancada ou publicava revistas extremamente técnicas. Franklin afirma que essa percepção está mudando em busca de um objetivo melhor, também por que as agências de fomento - como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Faperj, similar do Rio de Janeiro - estão criando espaços para divulgação científica."As agências reconhecem que a divulgação científica é uma ação importante. E estão abrindoeditais para isso, o que significa reconhecimento. A difusão científica deixou de ser um passatempo e adquiriu um status mais amplo"

Segundo Franklin, a mídia científica cumpre o papel de divulgar e o cientista, por sua vez, deve retornar para a sociedade todos os incentivos que recebe do governo. Reforça que é importante o divulgador diferenciar a pseudociência do que é sério. Ou seja, através das revistas, sites e jornais, mostrar a população o que tem base científica e o que não tem.

Ele crê que o público recebe muito bem esse contato direto, principalmente quando se trata de questões médicas."Há pouco tempo vi uma estatística demonstrando que depois de esportes, a ciência é o que mais atrai o interesse do leitor. Existe um público cativo que espera por um conteúdo de qualidade, como questões do genoma, doenças herdadas, células tronco, e até debates como o criacionismo e a teoria das espécies. A sociedade quer participar dessa discussão, e isso só é possível com informação de qualidade".

Democratizar conhecimento


As principais publicações científicas do segmento destacadas pelos especialistas - não restritas ao círculo acadêmico - são Ciência Hoje, Scientific American Brasil e Jornal da Ciência (SBPC). Com o desafio de traduzir a linguagem científica para o leitor leigo, as revistas têm em comum o respaldo de um conselho editorial."O fator mais relevante na divulgação da ciência pela mídia é repartir o conhecimento com a sociedade. Democratizar as informações e levar às pessoas o que está sendo feito nos institutos de pesquisas é a maior missão da imprensa científica", afirma a editora Renata Dias, do Jornal da Ciência, ligado à SBPC."Com os problemas educacionais no Brasil, também cabe ao jornalista o papel de atrair a população para os temas de interesse que, no fundo, são de todos".

Ela detalha que a cobertura, pautas, reportagens, artigos e matérias, são realizados em função das pesquisas e seus leitores são estudantes, bolsistas, professores, comunidade científica e público em geral. O conselho editorial é formado por cientistas de várias áreas ligados à SBPC e, nas reuniões, são conversados temas e abordagens que podem gerar pautas.

"Captamos pautas das universidades, dos institutos de pesquisas, via assessorias, mas outra fonte que usamos são revistas científicas como a britânica Nature e a Science, publicada pela American Association for the Advancement of Science (AAAS) - entre as mais prestigiadas do mundo, as revistas publicam resultados de trabalhos de importantes pesquisadores, com linguagem acadêmica, já que os cientistas falam para seus pares. A partir desses artigos, conversamos com especialistas para traduzir aquelas informações para um jornal mais acessível", conta a editora do Jornal da Ciência.

A SBPC é responsável pelas despesas do Jornal da Ciência. Segundo Renata, recentemente o Ministério da Ciência e Tecnologia fez um corte no orçamento de 22% e o jornal está na briga por mais recursos para a pesquisa científica."Queremos saber como estão a infraestrutura, as bolsas, os programas de incentivos, a questão do código florestal [a SBPC promoveu um grande debate sobre o tema em 2011]. Tínhamos um jornal impresso, quinzenal, com 16 páginas, mas saiu de circulação em 2011. Atualmente, a edição diária é produzida em PDF, divulgado para 28 mil emails (http://www.jornaldaciencia.org.br/index2.jsp).

Linguagem simplificada


A revista Ciência Hoje é uma publicação realizada por cientistas e jornalistas especializados há 30 anos, e pertence ao Instituto Ciência Hoje. Nela, os cientistas encontram espaço para publicar suas pesquisas, devidamente editadas pelos jornalistas para que os textos fiquem palatáveis ao leitor comum. A Ciência Hoje está dividida entre a publicação das pesquisas pelos cientistas e a produção de conteúdo pelos repórteres, por meio de entrevistas estilo pingue-pongue com pessoas relevantes e matérias sobre temas variados sobre todos os ramos da ciência.

"O segredo é fazer com que o cientista consiga falar de forma simples sobre assuntos considerados difíceis para a sociedade", diz a editora-executiva Alicia Ivanissevich. Participam da reunião de pauta jornalistas e editores científicos nas áreas de biomédicas, ambientais, exatas e humanas. Todos os artigos enviados por cientistas passam por consultores e são avaliados: "Isso garante critério e rigor compatíveis com a prática acadêmica. Da mesma forma, os textos dos jornalistas passam pelo crivo de editores científicos. E um conselho editorial, formado por acadêmicos, serve como orientador e opina sobre o conteúdo", descreve.

 
Alícia, da Ciência Hoje, enfatiza que, pelo respeito que a revista tem no meio acadêmico, não encontra dificuldade ao lidar com os acadêmicos."Temos muita credibilidade e respeito no meio científico. Hoje eles estão mais abertos a entrevistas, pois sabem o papel relevante da imprensa na divulgação de seus trabalhos". Na sua opinião, o nível dos jornalistas que cobrem a área melhorou muito."Essa relação ficou mais saudável devido à qualidade da cobertura. Atualmente, temos editorias e cadernos nos jornais, então estamos fazendo no Brasil um bom jornalismo científico".

Negócio diversificado


A Ciência Hoje também é responsável pela publicação da Ciência Hoje Crianças, bem como de diversos livros na área de divulgação científica ó O Pequeno Manual de Divulgação Científica, Física Hoje,"Qual o Problema?", "Astronomia Hoje" e os três volumes da coleção Memória Hoje: "Ciências Biológicas e Ambientais","Ciências Exatas" e Ciências Humanas" são alguns títulos do portfólio. Outra atividade importante são palestras dadas pelos jornalistas em escolas e eventos.

O Instituto possui um contrato com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão do MEC, que compra cerca de 200 mil assinaturas anuais, o que representa 50% da receita, e distribui a estudantes da rede pública. Também mantém convênios com secretarias de educação de municípios, como Osasco, e São Paulo, que compram exemplares destinados aos alunos. Além disso, a comercialização dos anúncios e a venda em bancas ajudam na captação de recursos.

TÍTULOS EM NÚMEROS

Os principais anunciantes da Ciência Hoje são PUC-SP, MEC, MCT, Banco do Brasil, Petrobras, Finep, UFU, UFPR. Prefeituras também representam fonte de recursos, pois compram repartes de revistas. Entre elas, a editora-executiva destaca as prefeituras de Osasco, Rio de Janeiro, Franco da Rocha, Diadema e Guarulhos."A revista é vendida em bancas do país e as vendas representam 30% dos exemplares impressos. As assinaturas respondem por 60% da tiragem e o mailing dirigido, 10%", calcula Alícia.

Comercial bem estruturado


De acordo com Janir Hollanda, diretor do Grupo Conhecimento, que publica a Scientific American Brasil (Duetto Editorial), o momento é de revisão da estratégia de marketing."Por sermos uma publicação que abrange temas de interesse nacional, tornou-se necessário integrar todos os projetos. Estamos elaborando o prêmio Scientific American. Depois de 11 anos de revista, dispomos de ferramentas e parcerias que possibilitam, enfim, a criação desse projeto com a chancela da comunidade científica. Isso vai possibilitar a divulgação dos projetos científicos e a integração de todos os agentes do meio - vários segmentos e áreas que compõem o saber científico", explica Hollanda.

Ele ressalta que a revista que tem um público formador de opinião."Não é um veículo que tem um modelo tradicional de receita do segmento, ainda que possa absorver grandes campanhas do governo". A comunidade farmacêutica e as próprias empresas que financiam o setor passaram a publicar anúncios quando descobriram que muitos médicos usavam o conteúdo da revista para absorver conhecimento.

"Médicos, pesquisadores, jornalistas, laboratórios, universitários e professores são leitores que funcionam como intermediários que levam o conhecimento ao grande público e, consequentemente, aos anunciantes", exemplica.

Sendo assim, os governos anunciam na revista quando realizam grandes campanhas de saúde pública, porque atingem um público formador de opinião". Hollanda explica que esse aspecto levou a área comercial a trabalhar junto aos governos no sentido de mostrar a importância da Scientific American."Um professor da USP que tem centenas de alunos repercute as informações da revista em sala de aula", exemplifica.


Além da revista mensal, são publicados números especiais trimestrais sobre temas específicos."Hoje, com tantas ofertas edito riais, as pessoas não compram muitos produtos, por isso oferecemos especiais para um público certo, cativo, que com certeza serão bem faturados do ponto de vista dos anúncios".

A revista tem como principais anunciantes a área farmacêutica, os laboratórios [que também bancam edições especiais sobre seus produtos e pesquisas] e campanhas de governos. Porém, conforme revela Hollanda, a nova estratégia comercial prevê ações mais contundentes com o objetivo de captar anúncios de automóveis, roupas, agências de turismo e outros produtos. "Existe um preconceito com esse tipo de revista, por que acham que é apenas ciência pura e os leitores são pessoas que não consomem, mas estamos trabalhando para mudar esse dado de realidade", conclui o diretor.

JORNALISTAS AVALIAM

Em contrapartida, o jornalista avalia a relação com os cientistas. "Historicamente eles não gostam de falar com a gente. Isso por que, para o reconhecimento do seu trabalho procuram seus pares, gostam de conversar com quem entende a linguagem da ciência. O que acontece é que alguns deles têm uma postura arrogante, de achar que o jornalista não está compreendendo, ou que vai deturpar, mas muitos jornalistas também não assumem suas dúvidas e erram. Normalmente o cientista quer que o tema seja escrito da forma que ele considera correto, o que nem sempre é a linguagem acessívelî", destaca Renata Dias, do Jornal da Ciência.

A editora admite que a falta de preparo da imprensa em geral nessa área é o principal motivo da resistência dos cientistas. Por outro lado, o nível dos jornalistas que investiram na especialização melhorou muito. Eles estabeleceram relações, aprenderam a contextualizar a informação em uma linguagem mais simples. O cientista também desconhece o trabalho do jornalista, as questões de prazo, espaço e tempo.

"Essa resistência vem diminuindo, a ciência está ganhando mais espaço e, ao mesmo tempo, a imprensa vem se aperfeiçoando para informar bem e divulgar o progresso científico e o trabalho dos pesquisadores. Porém, faltam cursos de jornalismo científico no Brasil, e cursos de mestrado também são raros. As universidades precisam tratar esse campo do jornalismo de forma diferenciada". Ressalta que na grande mídia a parte dedicada à ciência em grandes jornais é pulverizada em editorias como saúde, meio ambiente, vida e até religião.