Notícia

DCI

Cidade inteligente esbarra em desconhecimento de gestores

Publicado em 18 março 2016

Por Henrique Julião

São Paulo - Há tecnologia disponível para o avanço das cidades inteligentes no Brasil. O que falta para que o modelo se popularize é planejamento político e financeiro por parte de gestores públicos. Essa é a percepção das empresas que atuam no ecossistema - e que têm mobilizado esforços para que os recursos se tornem mais acessíveis ao mercado.

"O Brasil é um celeiro de oportunidades, mas existe muita vontade e pouca ação. Falta visão e dinheiro", avalia o líder para setor público da SAP na América Latina e Caribe, Fernando Faria. A argumentação - corroborada por outros players do setor ouvidos pelo DCI - considera que o momento econômico instável e a falta de conhecimento por parte de entes políticos acabam limitando o potencial do mercado.

"Há uma confusão: imaginam cidades inteligentes como cidades altamente tecnológicas, quando elas não são necessariamente isso", aponta o presidente do Instituto Smart City Business America, Leopoldo Pacheco, indicando que a digitalização de serviços públicos ofertados à população não é algo fora da realidade dos municípios brasileiros.

Para entender o que são cidades inteligentes é preciso passar pelo conceito de internet das coisas, ou IoT (do inglês internet of things) - nada mais que a "sensorização" de objetos até então não conectados à internet, como eletrodomésticos, e veículos. A estimativa da consultoria Gartner é que haverá, no fim de 2016, cerca de 1,6 bilhão de dispositivos do gênero.

No caso dos municípios, tais sensores podem monitorar a malha de transporte público, a infraestrutura de fornecimento de água ou energia ou os equipamentos de segurança pública, possibilitando análises preditivas (graças à aplicação do business intelligence, ou BI) em tempo real, além de uma maior interação com o cidadão a partir de aplicativos móveis.

"São serviços que despertam interesse de cidades, mas muitas não entendem como fazer a implementação e nem mesmo como desenvolver o edital técnico", afirma a diretora de estratégia e novos negócios da integradora de serviços para smartcities Tacira, Kátia Galvane.

Para contornar o problema, a empresa firmou uma parceria com o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) cujo objetivo, entre outros aspectos, é ofertar capacitação para profissionais, pesquisadores e também gestores do setor público não familiarizados ao tema. "Vamos capacitar o comprador, apresentando tendências e modelos comerciais", aponta Kátia. "No futuro, a intenção é transformar o módulo em um MBA [mestrado de administração de negócios]", completa ela.

A pesquisa e desenvolvimento em torno de sensores para verticais cuja oferta no Brasil ainda é incipiente é outro ponto nos planos. "Muitos fornecedores trabalham com protocolos específicos que restringem a aplicação nas cidades. Em áreas como segurança não há carência, mas outras ainda são muito segmentadas", aponta Kátia.

Recentemente, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) anunciaram chamada pública no mesmo sentido: as duas entidades deverão destinar R$ 10 milhões para pequenas e médias empresas paulistas interessadas em desenvolver tecnologia para o segmento.

Planos

Na medida em que opções domésticas conquistarem maturidade, projetos como o implementado pela SAP em Buenos Aires poderão ser trazidos ao País: na capital argentina, a aplicação de sensores no sistema de drenagem de esgoto casada à análises preditivas do BI reduziram drasticamente o tempo de resposta da prefeitura diante de enchentes. "São modelos que podem ser replicados aqui, pois temos a plataforma. A habilitação depende das cidades", diz o vice-presidente de Indústrias Estratégicas na América Latina da SAP, Tonatiuh Barradas.

Segundo ele, há projetos em análise (que ainda não podem ser divulgados) e outros que já contam com participação da SAP, como os desenvolvidos no Rio de Janeiro (baseado na análise preditiva de incidentes) e em Brasília. "Como o metrô de lá é relativamente novo, fornecemos informações sobre a conexão dos modais", explica Fernando Faria. O próximo passo, explica ele, é conectar o aplicativo com a rede de serviços da capital - algo já realizado na canadense Montreal.

De acordo com um estudo da Urban Systems, Rio de Janeiro e Brasília são, respectivamente, a primeira e a quarta cidade conectadas do Brasil; São Paulo (2ª), Belo Horizonte (3ª) e Curitiba (5ª) completam o ranking. "O Paraná se destaca nesse âmbito. Um dos principais fatores foi uma iniciativa da Companhia Paranaense de Energia (Copel) em investir na criação de cidades inteligentes no interior do estado. Muitos provedores de pequeno porte são responsáveis pela popularização do serviço", avalia a diretora de marketing da Fibracem, Carina Bitencourt; a empresa fornece fibra óptica produzida no Brasil para parte das 10 cidades paranaenses que já contam com alguma iniciativa do gênero - em 2012 eles eram 42.

A tentativa do estado em se tornar um polo para as smart cities brasileiras atraiu a organização da Smart City Business America, que começa no dia 28 - é a segunda vez que Curitiba recebe o evento, após duas edições em Recife (PE). "Há um grande envolvimento da prefeitura e do estado, e cidade tem se apropriado dessa cultura", avalia o presidente do Instituto, Leopoldo Pacheco.

Para a edição de 2016 são esperados representantes de 120 cidades brasileiras - entre eles, cerca de 80 prefeitos, além de comitivas da Bolívia, Chile, China, Inglaterra e Nigéria. "A consciência [dos gestores] está crescendo", aposta. Mas o próximo passo, segundo Pacheco, se dará na escala regulatória, uma vez que as normas para o desenvolvimento da internet das coisas no País ainda estão sendo desenvolvidas. "Teremos de desbravar essa legislação."