Notícia

Jornal da Tarde

Ciclos da vida

Publicado em 29 outubro 2002

Por Carlos Vogt
Tudo indica que não é possível manter os atuais padrões de produção e de consumo e ainda assim acreditar no desenvolvimento sustentável da economia, da sociedade e das relações do homem com a natureza. Ao menos quando se leva em conta os indicadores da Organização da Nações Unidas (ONU) e do Fundo Mundial para a Natureza (WWF). O relatório Planeta Vivo 2002, do WWF, afirma que já estamos excedendo em 20% a capacidade da Terra para responder à demanda do consumo de alimentos. Como o número de habitantes do Planeta deverá passar de 6 bilhões para mais de 8,5 bilhões até 2050, pode-se prever o cenário da catástrofe global que deu origem à consciência de que é preciso praticar novas formas culturais de relacionamento do homem em sociedade e da sociedade com a natureza. O marco inicial de discussões sobre desenvolvimento sustentável foi a Conferência de Estocolmo, em 1972. Na Rio 92,175 nações assinaram a Agenda 21 e cerca de 10 mil ONGs redigiram a Carta da Terra para pautar as ações de governos. Nos anos seguintes houve a Rio+5, a Rio+10, que lançou as bases para a distribuição dos benefícios gerados pela biodiversidade, e, recentemente, cientistas de vários países discutiram no Rio ações para transferir ao governo o conhecimento produzido na área acadêmica. Os esforços para a preservação ambiental e para o desenvolvimento equilibrado da economia e da qualidade da vida são importantes. Contudo, como escreveu Washington Novaes em 19 de julho em O ESTADO DE SÃO PAULO, "apenas três pessoas juntas têm ativos equivalentes o produto bruto anual dos 48 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas [...], pouco mais de 200 pessoas, com ativos superiores a US$ 1 bilhão cada, [TÊM] o equivalente a renda anual de 45% de toda a Humanidade". Será possível, nesse quadro, almejar o equilíbrio das relações sociais e a recomposição de uma harmonia utópica do homem com a natureza? Por onde passará a utopia? Certamente por distintas soluções, mas, como o jornalista sugere, talvez ajudasse "recorrer a pensadores que, ao longo da História, colocaram no centro a ética e a metafísica". Talvez ajude também entender que o conhecimento científico acaba por encontrar-se com a sabedoria de antigas filosofias e dizer o que já fora dito pela intuição especulativa e por imagens de pura poesia. O pesquisador Aldo da Cunha Rebouças, no livro Águas Doces no Brasil, escreve: "A idéia da Terra como um sistema vem dos primórdios das civilizações. Porém, a sua visão só se tornou possível a partir das primeiras viagens espaciais, na década de 1960. Atualmente, ninguém põe em dúvida a idéia-chave da Teoria de Gaia [...], que mostra um estreito entrosamento entre as partes vivas do planeta - plantas, microrganismos e animais - e as partes não vivas - rochas, oceanos e a atmosfera." Compare-se o trecho acima com a passagem do romance de W. Sommerset Maughan, The Razor's Edge (O Fio da Navalha), de 1944. Traduzido livremente, o texto contém o relato do jovem Larry ao autor-narrador sobre seu convívio com um também jovem amigo hindu em constante jornada de busca de seu objetivo: "E qual seria este?", pergunta o narrador. E a resposta de Larry: "Tornar-se livre da servidão de renascer. De acordo com os seguidores do Vedanta, o eu, que eles chamam atmã e nós chamamos alma, é distinto do corpo e de seus sentidos, distinto da mente e de sua inteligência; não é parte do Absoluto, pois o Absoluto, sendo infinito, não pode ter partes, a não ser o próprio Absoluto. Não foi criado; existe desde a eternidade e quando, por fim, desvelar os sete véus da ignorância retornará à infinitude de onde veio. É como uma gota de água que se ergue do mar e cai com a chuva numa poça, flui depois para um regato, encontra uma torrente, cai num rio, passando por gargantas de montanhas, largas planícies, serpenteando seu leito obstruído por rochas e árvores tombadas, até que, finalmente, alcança o mar sem fim de onde se ergueu". A visão sistêmica de nosso planeta está também presente no trecho que reproduz, por metáfora, a filosofia do Vedanta. As diferenças entre uma coisa e outra são muitas. Permanece, contudo, inegável, em ambas as atitudes culturais um traço comum: não basta decompor analiticamente o todo em suas partes para a plena compreensão de seu funcionamento. Ê preciso, ao contrário, entendê-lo na sistematicidade das relações entre natureza e cultura para que as transformações de uma pela outra não engendre nem o monstro da soberba nem tampouco o querubim da apatia. Carlos Vogt é poeta e lingüista, presidente da Fapesp, coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e vice-presidente da SBPC