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Ciclone Idai no sul da África: tragédia é pior do que se imaginava

Publicado em 25 março 2019

Na quinta-feira, 14 de março de 2019, o ciclone tropical Idai atingiu a região central de Moçambique, deslocando-se para o interior e atingindo o Zimbabwe, a oeste, e depois o Malawi a noroeste.

Em muito pouco tempo, começaram a circular mensagens pelas redes sociais conclamando a ajuda humanitária. O quadro é devastador. A cidade da Beira, capital da província de Sofala e segunda maior cidade do país, foi a primeira a ser atingida e onde foram registrados os maiores impactos em área urbana. Igualmente, a província de Manica e sua capital, Chimoio, foram fortemente afetadas. As províncias da Zambézia, de Tete e de Inhambane também foram parcialmente afetadas, embora em menor grau. O ciclone veio agravar um quadro já crítico na região central do país, que vinha enfrentando calamidades produzidas por cheias. A passagem do ciclone expandiu os alagamentos para outras áreas, fazendo desaparecer aldeias inteiras sob as águas. Não se trata de uma figura de retórica: aldeias inteiras desapareceram e com elas seus moradores. Um dos autores deste texto, Luiz Henrique Passador, vem acompanhando de perto essa tragédia.

As chuvas continuam a cair uma semana após o ciclone ter-se dissipado e o ciclo de desastres ainda não se concluiu. Comportas de barragens foram abertas no Zimbabwe, para evitar que se rompam devido ao acúmulo de água produzido pelo ciclone e as chuvas, e isso fez aumentar o nível dos rios nas áreas afetadas, causando mais inundações.

Residências, hospitais, escolas, armazéns, estradas e pontes foram destruídas. Fala-se em destruição de até 90% da cidade da Beira. As comunicações entraram em colapso e muito lentamente começam a ser restabelecidas. Há áreas isoladas e inacessíveis por terra e mesmo por helicópteros. Nas zonas periurbanas e rurais, onde predominam construções de material precário, a destruição foi ainda mais crítica.

A população das áreas atingidas sofreu e continua a sofrer com as condições calamitosas. A destruição de suas casas e das infraestruturas produziu um número de desabrigados que, calcula-se até agora, em torno de 600 mil. Há no momento registro de quase 250 mortes, mas o número tende a subir, uma vez que ainda há dificuldade de se fazer levantamentos precisos. Imagens aéreas mostram pessoas sobre telhados e copas de árvores a se abrigar das inundações e esperar resgate. Relatos informais e não oficiais que circulam nas redes sociais descrevem corpos a boiar nas águas, áreas alagadas infestadas por crocodilos, saques e violência em áreas urbanas.

Há falta de comida, água e bens de primeira necessidade, agravados pelas dificuldades de se fazer chegar ajuda humanitária aos afetados. O colapso das comunicações dificulta a retirada de dinheiro nos bancos para se comprar os poucos mantimentos ainda disponíveis nas áreas urbanas, que tiveram seus preços aumentados. As plantações familiares, base da subsistência da maioria da população e do abastecimento de hortículas, foram completamente devastadas.

Os impactos de desastres climáticos são sempre aprofundados em contextos de alta vulnerabilidade social como o moçambicano. O pais está entre os dez países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e entre os dez com maior Coeficiente de Gini (que mede a desigualdade de renda entre os segmentos populacionais mais ricos e os mais pobres num mesmo país). Ou seja, apesar de ter apresentado crescimento econômico razoavelmente constante nos últimos anos, Moçambique conjuga altos índices de pobreza e desigualdade social e permanece sendo um dos países mais pobres do mundo, com grande dependência de ajuda externa para enfrentar seus problemas estruturais. Isso impacta fortemente a capacidade de resposta local para mitigar os problemas causados pelo ciclone Idai e os futuros esforços para reconstrução das áreas afetadas.

Ainda assim, o governo, as organizações não-governamentais nacionais e internacionais, as igrejas, a iniciativa privada e, especialmente, a sociedade civil organizada têm se mobilizado para prestar ajuda humanitária para as vítimas do ciclone na área afetada e em outras regiões do país. Segundo dados publicados pelo movimento Unidos por Beira em sua página no Facebook, até a última quinta-feira já haviam sido embarcadas 700 toneladas em kits de mantimentos com as doações recolhidas para famílias que necessitam de ajuda – sendo 200 toneladas resultantes de doações voluntárias diretamente ao movimento e outras 500 toneladas doadas a outras organizações. Participaram da ação cerca de 1.500 voluntários num dos terminais do porto de Maputo.

Além dessa mobilização interna, assiste-se a uma outra mobilização internacional para a necessária ajuda humanitária. A ONU está prestando ajuda na área afetada através de seus organismos (como UNICEF e PMA), da mesma maneira que organizações internacionais como a Cruz Vermelha Internacional e os Médicos Sem Fronteiras, entre outras. A União Européia anunciou que fará doações para ajuda humanitária, e países como África do Sul e Portugal já manifestaram que prestarão apoio logístico para as ações necessárias. Dessa forma, a comunidade internacional vem se juntando aos esforços internos para enfrentar o que já é considerado um dos maiores desastres de causa climática ocorridos no hemisfério sul.

O Grupo de Mulheres de Partilha de Ideias de Sofala, GMPIS Sofala, lançou uma promissora campanha de solidariedade. Trata-se de uma rede feminista de associações de base comunitária, integrante da Marcha Mundial das Mulheres. A arrecadação desta ação solidária será distribuída entre 29 associações do GMPIS, que atuam nas comunidades afetadas. O link para contribuição encontra-se abaixo:

https://www.gofundme.com/ciclone-idai-messed-with-one-messed-with-all?teamInvite=0FMsOeIAbums7cJBkKBaCUUQx4EtdSyKeParR6iER62ddgCtLpuq1qaJDY0yjA92Grupo&fbclid=

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Como pesquisadores que atuam na parte austral da África, com amigos e parceiros e uma longa história na região, esperamos que o governo brasileiro viabilize esforços para envio de missão humanitária às zonas afetadas imediatamente.

Laura Moutinho é professora livre docente pela linha de pesquisa Populações Africanas e Afrobrasileiras do depto. de Antropologia da USP

Luiz Henrique Passador é docente da Unifesp e encontra-se em Moçambique em pesquisa de pós doutorado no âmbito do projeto “Diferenças em contextos plurais”, financiado pela Fapesp.