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Chuva: radar poderia evitar tragédia

Publicado em 07 novembro 2007

O Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) teria condições de emitir alertas de aproximação de temporais, chuvas, ventos e tornados com precisão de segundos se o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) tivesse instalado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) um radar meteorológico prometido em 2005. Sem esse radar, que está inoperante em Presidente Prudente, o Cepagri utiliza imagens do equipamento de Bauru enviadas pela internet, que, além de demorarem cerca de 30 minutos para serem descarregadas, não têm definição com a qualidade necessária.

"Nos propusemos a construir a base para a instalação do radar, a pagar pela manutenção, mas o que existe é um silêncio por parte do IPMet. Foram eles que sugeriram a transferência do radar para Campinas, sem qualquer custo para a Unicamp. A antena ficaria aqui e a operação seria feita remotamente pelo IPMet em Bauru. Acertamos o acordo, mas nada ocorreu e isso está nos prejudicando muito", disse o diretor-adjunto do Cepagri, Hilton Silveira Pinto. "Até já desistimos de esperar pelo radar", disse.

Além de não poder emitir alertas com mais precisão, a instituição tem projeto de pesquisa de cerca de R$ 500 mil baseado no radar e já aprovado pela Financiadora de Projetos (Finep), mas que não pode ser desenvolvido. "É um vexame", disse Silveira Pinto.

Com a antena do radar em Campinas - seria instalada próxima da guarita na Avenida Magalhães Teixeira, que liga a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) à Unicamp -, o Cepagri teria condições de fazer o monitoramento a partir de imagens captadas a cada dez segundos. A antena tem 20 metros de altura e 4,5 metros de diâmetro.

Com uma freqüência de ocorrências de fenômenos meteorológicos mais intensos - tornados e tempestades - Campinas precisa de um monitoramento mais próximo e aprimorado do que o atual. Foi por esse perfil, que leva em conta ainda o fato de a região ser densamente povoada, com importância agrícola e com grande concentração de indústrias, que levou o IPMet a decidir pela transferência.

É um radar digital, do tipo doppler, que mede velocidade do vento, faz o monitoramento e quantificação de chuvas, e pode detectar a formação inicial e o desenvolvimento de mesaciclone (intenso sistema de ventos girando dentro de uma trovoada que freqüentemente precede o tornado). Ele detecta a direção de deslocamento e velocidade.

Defesa Civil

O plano inicial era, a partir da instalação do radar na Unicamp, colocar terminais na Defesa Civil para a recepção das imagens, com análise de forma que o órgão pudesse emitir os alertas rapidamente e ter condições de desencadear operações em menor tempo.

O Cepagri desenvolve pesquisa básica e aplicada na área meteorológica climática e agrícola, oferece treinamento para alunos e técnicos da Unicamp e de outras instituições, apóia a pesquisa e extensão e presta serviços de utilidade pública, com a previsão do tempo e análises climáticas para agricultores e público em geral. O centro ainda desenvolve pesquisas em processamento de imagens de satélites meteorológicos e de recursos naturais, planejamento agrícola, zoneamento ecológico e climático, mapeamento de fenômenos extremos (tornados, geadas, secas) e modelos gráficos para potencial de incêndios em matas.

O princípio de funcionamento do radar meteorológico é semelhante ao sistema de navegação de um morcego

O morcego emite sons de alta freqüência que, ao serem interceptados por obstáculos, retornam ao seu ouvido. Quanto mais rápido o som retornar, mais perto está o obstáculo. No radar meteorológico são empregadas, ao invés de som, ondas eletromagnéticas de alta energia para se alcançar grandes distâncias. Ao passarem por uma nuvem, essas ondas causam, nas gotas, uma ressonância na freqüência da onda incidente, de modo que cada uma delas produz ondas eletromagnéticas, irradiando em todas as direções. Parte desta energia gerada pelo volume total de gotas iluminado pelo feixe de onda do radar volta ao prato do equipamento, sabendo-se o momento em que o feixe foi emitido e quanto tempo depois o sinal retornou, determina-se a distância do alvo. A intensidade do sinal de retorno está ligada ao tamanho e distribuição das gotas no volume iluminado pelo radar. Assim, é possível determinar com precisão a região do espaço onde está chovendo.

Equipamento está fora de operação em Prudente

O radar meteorológico que deveria ser transferido de Presidente Prudente para Campinas está inoperante porque precisa da reposição do transformador de pulso, parte essencial para a irradiação do sistema. O vice-diretor do IPMet, Roberto Calheiros, informou que o retorno à operação se dará após a substituição do antigo sistema por um mais moderno, parte de um projeto aditivo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e que está em processo de aquisição. "Assim que o equipamento voltar ao status operacional, haverá condições para a sua transferência. Com a Unicamp providenciando as instalações e garantindo a operação, podemos efetivá-la", informou.

Calheiros informou que a Secretaria Estadual de Desenvolvimento solicitou ao IpMet um projeto de uma rede desejável de radares para a cobertura desde a região oeste do Estado até a região de Campinas e que o projeto será apresentado em 30 dias. Segundo ele, a rede compreende três unidades, duas já instaladas, em Presidente Prudente e Bauru, e outra a ser instalada em Campinas. "Nessa rede, Campinas será contemplada com a instalação de um novo radar", afirmou Calheiros.

Os dois radares meteorológicos já operados pelo IPMet estão passando por uma modernização desde o início de 2005, com investimentos de R$ 1,5 milhão do governo do Estado.

Levantamento das instituições mostram que, no período de temporais, com início em setembro até março, a região de Campinas é atingida em média, entre dezembro e janeiro, por 17 temporais, ou seja, um a cada dois dias, normalmente formados à tarde ou início de noite, com descargas elétricas, em algum ponto da região. Tornados são mais raros. São observados um a dois por ano em uma faixa que vai desde as regiões de Campinas-Jundiaí até a divisa com o Mato Grosso do Sul, entre Pereira Barreto e Presidente Prudente. Normalmente, eles atingem áreas de apenas 100 a 800 metros de largura e se deslocam até 20 ou 30 quilômetros de extensão, causando danos sérios a cada vez que "tocam" a superfície.