Notícia

Gazeta Mercantil

Chuva de meteoros ameaça satélites

Publicado em 06 abril 1998

Por Roberta Lippi - de São Paulo
Cientistas do mundo todo preparam-se para enfrentar uma possível pane nos sistemas de telecomunicações. Entre os dias 17 e 18 de novembro deste ano, as empresas correm o risco de ter os seus telefones mudos; os bancos, a sua rede de computadores parada, e as televisões podem sair do ar. Uma rara chuva de meteoros, que só acontece a, cada 33 anos - os leonídeos , vai cruzar a órbita da Terra, podendo atingir alguns ou vários satélites no caminho. Os astrônomos estão com as atenções voltadas para o fenômeno. Centenas de pesquisadores vão reunir-se no próximo dia 27 em Manhattan Beach, Califórnia, para discutir os possíveis efeitos da passagem dos leonídeos pela órbita da Terra. CHUVA DE METEOROS PODE AFETAR COMUNICAÇÕES Roberta Lippi - de São Paulo Comunidade científica reúne-se nos Estados Unidos para discutir' danos que poderão ser causados em satélites Cientistas do mundo todo preparam-se para enfrentar uma possível pane nos sistemas de telecomunicações. Entre os dias 17 e 18 de novembro, as empresas correm o risco de terem os seus telefones mudos; os bancos, a sua rede de computadores parada e as televisões podem sair do ar. Uma rara chuva de meteoros, que só acontece a cada 33 anos - os Leonídeos -, vai cruzar a órbita da Terra, podendo no caminho atingir alguns ou mesmo vários satélites. O fascínio desse espetáculo de milhares de estrelas cadentes - semelhantes à neve, só que formada por bolas de fogo - vem acompanhado do temor dos seus possíveis efeitos para a rotina de uma sociedade que tem suas base fincadas na alta tecnologia e na informação. Astrônomos do mundo inteiro estão com as atenções voltadas para esse fenômeno, que acabou tornando-se uma ameaça para uma larga fração dos satélites que carregam operações de telecomunicações, pesquisas e meteorologia. Centenas de pesquisadores estarão reunidos no próximo dia 27 em Manhattan Beach, Califórnia, para discutir os possíveis efeitos da passagem dos Leonídeos pela órbita da Terra. Apesar de pequenos - o diâmetro de cada meteoro não é maior do que o de um grão de arroz -, a velocidade, com que eles chegam ate os satélites pode ser de até 72 quilômetros por segundo, massa suficiente para entrar na atmosfera e capaz de danificar ou até destruir o que encontrar pela frente. Estima-se que existam mais de 500 satélites em funcionamento, mais uma grande quantidade de lixo espacial (restos de outros satélites e objetos que não são mais úteis). As chances de um satélite importante ser atingido são pequenas, o perigo maior é o efeito das colisões com objetos em órbita. A cada impacto uma pequena quantidade do material do objeto atingido é vaporizada criando uma nuvem de partículas eletricamente carregadas, também chamada de plasma. Essa nuvem, explicam os especialistas, poderá causar um curto-circuito em equipamentos sofisticados existentes nos satélites. O astrônomo Amaury de Almeida, especialista em astrofísica do sistema solar da Universidade de São Paulo (USP), diz que as chances de um satélite brasileiro (há seis em órbita atualmente) ser atingido é quase a mesma de alguém ganhar na loteria, "mas só ganha quem joga, ou seja, basta estar em órbita para correr o risco de ser afetado". Algumas ações preventivas já estão sendo tomadas. A agência espacial norte-americana (NASA), por exemplo, já divulgou que não vai colocar missões tripuladas e ônibus espaciais em órbita no período previsto para o aparecimento dos Leonídeos. Além disso, alguns satélites serão mudados de posição de forma que o menor dano possa ser causado. Dos seis satélites do Brasil que estão em órbita, cinco são da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel) e um do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A Embratel possui cerca de 500 clientes que se utilizam dos serviços dos satélites, entre eles praticamente todas as grandes redes de televisão (além de algumas redes regionais e corporativas), de telefonia (toda a rede básica da Embratel, com mais de 30 cidades que dependem exclusivamente de satélite), algumas rádios e também grandes bancos, como Bradesco, Banco do Brasil e o Itaú. O satélite do Inpe, totalmente brasileiro e que já está em funcionamento há cinco anos, é exclusivo para pesquisas meteorológicas e não. O gerente do programa Brasilsat B da Embratel, Rodolpho Knorr, diz que os satélites já são preparados para eventuais impactos. Algumas partes poderiam ser atingidas sem resultar em prejuízos nas transmissões, mas se uma pequena partícula perfurar o tanque de combustível, pode acontecer uma explosão e estragar o satélite, segundo ele. O pior é que o plasma não poderá ser evitado. Se um desses satélites brasileiros for atingido, será uma pane geral, principalmente no setor de telecomunicações, porque a maioria das transmissões de TV são feitas de uma central (São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente) para todo o País via satélite. Mas nada será irreparável, explicam os especialistas, porque há outros meios de se contornar o problema - os chamados planos de contingência -, embora nem todos imediatos. As redes de bancos, por exemplo, já possuem uma conexão imediata com Fios terrestres de microondas que desviam imediatamente as transmissões, de modo que, dependendo do horário, os clientes não vão sofrer nenhuma conseqüência, segundo o gerente de operações da rede de satélites do Itaú, Marcos Antônio Martins. "O chaveamento é instantâneo para as microondas, fibras óticas ou canais convencionais de transmissão", explica Martins. A perda de um satélite não implicaria em nenhum problema com informações, ou seja, nenhum banco de dados seria afetado. O coordenador de planejamento de transmissão de sinais da Emissora Globo de Televisão, Antônio Augusto Carrapito, diz que a perda de um satélite interromperia toda a programação da Globo imediatamente, e que apenas no Rio de Janeiro e São Paulo haveria meios de se mudar a transmissão para vias terrestres logo em seguida. "A geradora mãe da Rede Globo, no Rio, envia sinais de áudio e vídeo para o satélite, que os retransmite para todas as cerca de 10 emissoras afiliadas em todo o País", conta Carrápito. A alternativa imediata para o caso de cair a transmissão do satélite séria redirecionar os sinais de transmissão para outro satélite, más isso demandaria um certo tempo, de acordo com o coordenador. Os telespectadores que recebessem a transmissão via terrestre poderiam ter a programação de volta em cerca de uma hora, outras cidades ficariam pelo menos um dia fora do ar. O prejuízo da Emissora para cada hora parada seria em torno de US$ 300 mil, segundo cálculos do especialista. UM ESPETÁCULO A OLHO NU Os Leonídeos, formados por grãos em pó do cometa 55P/Tempel-Tuttle, surgem no espaço em novembro de todos os anos, e ficam espalhados na órbita dos cometas. Essa chuva de meteoros se forma na constelação de Leão (daí a origem do nome Leonídeos), e mostra partículas de um brilho mais intenso. Mas, a cada 33 anos, em média, quando o cometa fica mais próximo do Sol, essa chuva de meteoros se torna muito mais forte - e pode ser vista a olho nu de qualquer lugar do planeta. O fenômeno aconteceu pela última vez no dia 17 de novembro de 1966, quando milhares de meteoros extremamente brilhantes foram vistos durante a madrugada. Segundo depoimentos de alguns observadores, o número era tão grande que o céu parecia envolto em um gigante cone de luz. Algumas medições acusaram um número de 150 mil partículas por hora durante mais de duas horas. Em geral, os meteoros são formados pela emissão de partículas em pó liberadas do núcleo dos cometas, especialmente quando eles se aproximam do Sol e entram em atividade. Quando a órbita da Terra cruza essa corrente é que se produz uma chuva, de meteoros. Nesse momento, as particulas se espalham lentamente ao redor da órbita dos cometas. Os Leonídeos são um caso à parte, porque a poeira originada do cometa não chega a se espalhar ao redor de sua órbita, o que resulta na sua maior intensidade. Pelas contas dos astrônomos, o Tempel-Tuttle deveria passar mais próximo da Terra somente em 1999, quando se completam 33 anos desde o último fenômeno, mas as estimativas apontam que ele estará mais próximo neste ano, de acordo com artigo da última edição da revista americana "The Sciences". Só há registro de um caso de meteoro que atingiu um satélite, em 1993, danificando o estabilizador de giro que controlava o "Olimpo", um satélite de comunicação europeu. O equipamento acabou condenado pela grande perda de combustível. (R.L.)