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Chumbo pode causar comportamentos trangressores em jovens

Publicado em 17 março 2012

SÃO PAULO (Agência USP) - Comportamento agressivo, atos de vandalismo e baixo desempenho

 

escolar. Fatores assim, normalmente associados a problemas psicossociais

 

nos jovens, podem ter uma causa extra. Uma pesquisa da Faculdade de

 

Saúde Pública (FSP) da USP mostra que a exposição ao chumbo leva ao

 

aumento das atitudes transgressoras e causa prejuízos psicológicos.

 

Pesquisadores estrangeiros já haviam observado danos semelhantes.

 

Agora, a cirurgiã dentista Kelly Polido Kaneshiro Olympio, em seu

 

trabalho de doutorado, confirmou a relação numa amostra de 173 jovens em

 

Bauru, interior de São Paulo.

 

O corpo de crianças absorve chumbo com mais facilidade que o de

 

adultos. Além disso, os pequenos tendem a colocar objetos como

 

brinquedos na boca, aumentando o risco da exposição. "Não há um nível de

 

exposição ao chumbo que seja seguro à saúde humana. Estudos recentes

 

têm demonstrado prejuízos neurocomportamentais ligados a concentrações

 

muito baixas no sangue", diz a pesquisadora.

 

Os selecionados residiam em bairros com altos índices de violência.

 

Kelly analisou o esmalte - a parte que enxergamos do dente - para

 

identificar a carga corporal de chumbo nos jovens. Também foram

 

aplicados questionários a pais e filhos sobre o estabelecimento de

 

comportamento antissocial, cometimento de atos infracionais, condições

 

familiares e contexto socioeconômico. O cruzamento dos dados apontou uma

 

associação entre agressividade, tendência a quebrar regras, problemas

 

sociais, e queixas físicas com maiores níveis de chumbo no corpo.

 

Proximidade

 

Os mais afetados viviam em regiões próximas a fábricas que utilizam o

 

chumbo ou que conviviam com empregados dessas empresas. "O metal está

 

presente em muitos itens do nosso cotidiano, como cerâmica, plásticos,

 

pigmentos e baterias. Também em esmalte anticorrosivo para portões,

 

brinquedos piratas e produtos domésticos de baixa qualidade", explica a

 

pesquisadora.

 

Ela ressalta que a redução do uso de chumbo é muito desejável. "Há um

 

movimento global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para eliminação

 

de chumbo em tintas. Também preocupa a contaminação pelo metal causada

 

pelas baterias, devendo haver um esforço para que se regule o caminho

 

percorrido por este produto, desde sua origem até o descarte final",

 

explica. E é necessário que haja uma fiscalização mais rigorosa sobre os

 

importados, "principalmente aqueles de baixa qualidade destinados ao

 

público infantil", conclui.

 

Além disso, a pesquisadora recomenda a conscientização de pessoas que

 

trabalham com chumbo, para que saibam evitar ou minimizar a exposição e

 

não levem a ameaça para casa. E é preciso reforçar a vigilância

 

ambiental dessas indústrias, para minimizar a exposição da população

 

vizinha e os consequentes efeitos à saúde.

 

Prejuízos

Os prejuízos nos jovens permanecem até idades mais avançadas. Um estudo

 

publicado nos Estados Unidos, em 2008, mostrou uma associação entre

 

exposição a chumbo durante o crescimento e comportamento criminoso em

 

adultos. Neles, a exposição pode causar hipertensão, neuropatias, perda

 

de memória e irritabilidade, entre outras doenças. Pode-se chegar até a

 

morte, dependendo do nível da exposição.

 

Segundo Kelly, a América Latina está pouco preparada para lidar com a

 

situação. No Brasil, só em 2008 foi aprovada uma lei que limita a

 

quantidade de chumbo na fabricação de tintas imobiliárias e de uso

 

infantil e escolar, vernizes e materiais similares. A situação é

 

diferente nos Estados Unidos, onde o uso é restrito há mais tempo. Lá, a

 

lei foi recentemente atualizada, delimitando a concentração de chumbo

 

permitida a níveis mais baixos do que os fixados no Brasil.

 

"Ainda precisamos conhecer a extensão do problema da

 

contaminação por chumbo no Brasil", diz Kelly. No momento, ela coordena

 

uma pesquisa sobre a exposição de crianças ao chumbo no município de São

 

Paulo, que vem sendo desenvolvida no Departamento de Epidemiologia da

 

FSP, sob a supervisão da professora Maria Regina Alves Cardoso, com

 

apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), OMS e Organização

 

Panamericana de Saúde (OPAS).