Notícia

Correio da Paraíba

Choque elétrico combate depressão

Publicado em 14 janeiro 2007

São Paulo (Fapesp) - Ana Paula custa a se lembrar da última vez em que viu a mãe sorrir. Desde que sofreu sua primeira crise de depressão há quase 20 anos, Maria passa os dias triste, deitada no sofá remoendo pensamentos que brotam de um mundo sempre cinza. Já experimentou todos os tipos de antidepressivos conhecidos, mas nenhum foi capaz de pôr fim à apatia que ainda hoje a acompanha e a fez abandonar o trabalho na empresa da família na Região Metropolitana de São Paulo. Úteis na maioria das vezes, os remédios, no caso de Maria, no máximo adiavam a próxima recaída.
Na última, há seis meses, os médicos tiveram de recorrer à aplicação de descargas elétricas, no cérebro do paciente sob anestesia geral, ã eletroconvulsoterapia, mais conhecida co mo eletrochoque — tratamento considerado domo um dos mais eficazes para os casos mais graves, ainda que estigmatizado pôr já ter sido aplicado de mo do cruel e usado até mesmo como técnica de tortura contra presos. Esse tratamento pode ajudar a restabelecer o funciona mento normal das células nervosas, ainda que geral mente cause uma perda de memória passageira que pode durar de alguns dias até meses.

Magnetismo
Como nem as descargas elétricas funcionaram, em novembro Maria iniciou no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq/USP) uma terapia contra à depressão que nos últimos anos vem despertando o interesse de psiquiatras e neurologistas do mundo todo: a estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr), uma seqüência de pulsos magnéticos intensos capazes de estimular ou inibir a atividade do tecido nervoso. Até bem pouco tempo atrás restrita exclusivamente a experimentos científicos, a EMTr parece produzir os mesmo efeitos que a eletroconvulsoterapia no tratamento da depressão: reajusta ó funcionamento de determinadas regiões do sistema nervoso central, mas com menos efeitos indesejados. O Instituto de Psiquiatria da USP liberou o uso da EMTr para o tratamento da depressão em outubro de 2006, após a equipe do psiquiatra Mar co Antonio Marcolin testá-la experimentalmente por quase seis anos contra a depressão e também no tratamento de dores crônicas, de algumas formas de alucinação comuns na esquizofrenia e na recuperação do acidente vascular cerebral.