Notícia

Brasil Econômico

Chemyunion gera inovação em cosméticos

Publicado em 06 julho 2010

Por Martha San Juan França

Uma empresa de retaguarda, nem por isso menos estratégica, a Chemyunion começa a se tornar referência no mercado altamente competitivo de bioativos que abastecem gigantescas fabricantes de cosméticos como L"Oreal, Estée Lauder, Victoria"s Secret e Avon, semcontar as nacionais Natura e Boticário.

O diferencial da companhia é trabalhar com a biodiversidade brasileira, mas não apenas isso. A empresa se destaca por usar matérias-primas nacionais com critérios científicos, fundamentados em pesquisa de acadêmicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade (Unesp). "Nesse aspecto, não somos uma empresa típica", afirma seu presidente, o engenheiro químico Marcelo Golino.

Neste aspecto, a Chemyunion é o sonho dos empreendedores que vivem se queixando de que a integração entre empresa e universidade está longe de acontecer. Mas isso tem um custo, afirma Golino. Conseguir equipamentos de última geração, mão de obra super qualificada e fluxo de matéria-prima não é barato e tem doses de risco. Em geral, demora três anos para que um produto tenha retorno. E as novidades devem ser constantes.

Ênfase na pesquisa

A Chemyunion foi fundada há mais de dez anos e lançou cerca de 200 produtos neste período. Em 2009, o faturamento foi de R$ 40 milhões, ainda modesto, considerando o potencial da biodiversidade nacional.

Desse total, 8% vão para pesquisa. O aporte nos laboratórios é acrescido de verba de seis projetos Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e uma subvenção em nanotecnologia da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que representam de 20% a 30% do valor total gasto com inovações.

Dos cem funcionários, 40% têm pós-graduação, mestrado ou doutorado. A Chemyunion tem parceria com pesquisadores das duas grandes universidades paulistas que também indicam seus orientandos para trabalhos conjuntos com a empresa mediante bolsas de auxílio à pesquisa.

Patentes e prêmios

A empresa obteve 23 patentes no Brasil e no exterior e acaba de ganhar o primeiro prêmio da Associação Brasileira de Cosmetologia pelo desenvolvimento de um produto à base do camapu, arbusto tropical que produz efeitos parecidos como do ácido retinóico usado para tratamentos de pele, mas sem os efeitos colaterais. O produto deve entrar em breve no mercado. Até 2011, devem ser lançados mais dez novos ativos pela Chemyunion.

Para o ano que vem, a companhia investe também na ampliação de suas instalações. Neste semestre, será inaugurada uma nova fábrica em Sorocaba, interior de São Paulo. São 6 mil metros quadrados de área construída, três vezes mais do que a atual. Cerca de 700 metros quadrados foram reservados para os laboratórios de pesquisa e teste, entre eles o de biologia celular e molecular.

A empresa é uma das poucas no país a fornecer laudos de análise de eficácia e segurança in vitro de produtos acabados e de matéria-prima. Para isso, conta com o Instituto de Bioengenharia da Pele, que pertence ao mesmo grupo, dedicado aos testes de avaliação. As plantas que utiliza são cultivadas em fazenda própria no Amazonas, e no viveiro de Sorocaba; e o restante de plantações arrendadas. Assim, consegue alcançar mais segurança e certificação da origem dos produtos.

Receita Nacional

Andiroba, babaçu, murumuru e as aquaporinas do Prêmio Nobel

Óleos e polpas de andiroba, babaçu, murumuru e babaçu não faltam na receita dos produtos da Chemyunion. Além de fabricação de suas próprias matérias-primas, que correspondem a 70% de suas atividades, a empresa revende produtos da francesa Seppic, fabricante de substâncias para cosméticos. Entre as fórmulas bem-sucedidas da empresa, está o Aquasense, um ativo para a pele que atua sobre as aquaporinas, proteínas que funcionam como canais de água na pele, extraído do angico branco. A aplicação das aquaporinas, descobertas pelo prêmio Nobel de Química, Peter Age, em 2003, foi um feito da equipe. Hoje, todas as grandes companhias de cosméticos desenvolvem cremes capazes de utilizar esses canais. Entre as proezas da Chemyunion está também a extração de um óleo do grão de café que atua nas aquaporinas e serve para cremes e protetores solares. Depois vieram o camapu (com atividade semelhante à dos antiinflamatórios com efeito calmante); e o picão preto, de onde se extrai um composto parecido com o ácido retinóico, usado como medicamento, mas sem reações adversas quando a pele é exposta ao sol. M.F.

Beraca investe em ativos da Amazônia

Embora tenha várias divisões de negócios, como saúde, alimentação, tratamento de água e nutrição animal, uma das áreas mais atraentes da Beraca (o nome vem de bênção, em hebraico) é aquela dedicada à produção e distribuição de ativos naturais da biodiversidade brasileira para a indústria de cosméticos. Empresa tradicional, fundada há 54 anos pelo avô da atual geração no comando, a Beraca a princípio não tinha interesse em obter ingredientes da mata nativa até a onda ambiental do final da década de 1990. Nesta época, a segunda geração da família Sabará, proprietária do negócio, adquiriu a Brasmazon, microempresa ligada a Universidade Federal do Pará (UFPA) e voltou o foco para a Amazônia.

Hoje, Filipe Sabará, diretor de negócios, contabiliza um faturamento de cerca de R$ 100 milhões. A parte de cosméticos é responsável por 20% deste total. O apoio dos pesquisadores da universidade paraense permitiu prospectar sementes, resinas, folhas e outras matérias-primas das comunidades locais. "São estudiosos de todas as áreas que oferecem um trabalho inestimável", afirma Filipe.

A Beraca tem negócios com 54 comunidades que fornecem e matéria-prima para a fábrica em Ananindeua, perto de Belém, além de outra em São Paulo. Há ainda uma filial em Paris, inaugurada em maio, e outra deve ser aberta em Nova York.

Sabará explica que a bioprospecção não envolve apenas o negócio, mas o trato social e ambiental. "Trabalhamos com associações e cooperativas,muitas das quais ajudamos a criar", afirma. "Não é fácil trabalhar com produtos que envolvem sazonalidade e compreensão de como lidar com a natureza, mas aprendemos." Ele enfatiza que o principal ativo da marca é a confiança dos clientes.A Beraca exporta óleo de pracaxi, para condicionantes químicos em tratamentos corporais e dos cabelos; óleo e extrato de andiroba, buriti, cupuaçu e açaí para uma clientela formada por Unilever, L"Oreal, L"Occitane e Estée Lauder, além das fabricantes nacionais.  M.F.