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USP - Universidade de São Paulo

CHC resgata memória da ciência brasileira e mostra seu papel no desenvolvimento do país

Publicado em 24 novembro 2009

Em mais de duas décadas de vida, o Centro Interunidade de História da Ciência (CHC) da USP passou por algumas transformações. O objetivo fundamental, porém, permanece o mesmo: pesquisar a história da ciência e da tecnologia focalizando o desenvolvimento brasileiro no setor. Deste modo, como explica professor Shozo Motoyama, titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e fundador do Centro, espera-se que fique mais claro - como ainda não é para muitas instâncias - de que modo a ciência e a tecnologia podem contribuir para o crescimento de um país.

"Mais do que nunca, esta é uma questão relacionada à hegemonia - tanto econômica quanto cultural - das nações. Não é por acaso que um país como os Estados Unidos seja um dos que mais investe nesta área: aproximadamente 3% de seu PIB [Produto Interno Bruto]", ressalta. O investimento nacional, ao contrário, tem girado entre 0,5 e 1% do PIB, apesar de diferentes governos terem anunciado o setor como uma prioridade.

Neste sentido, os estudos e projetos desenvolvidos no CHC levam uma característica em comum, que os diferencia de boa parte do que se encontra em estudos do gênero: procuram contextualizar de uma maneira mais global os fatos científicos. "Muitas vezes somos até tachados de "antiacadêmicos" por esta marca dos nossos trabalhos. Mas o que queremos é justamente tratar a ciência de uma forma ampla, buscando entender o seu papel social", esclarece.

O professor usa a visita de Einstein ao Brasil em 1925 como exemplo. "É inegável a sua importância como cientista, e até sua genialidade. Mas o que sua visita trouxe de melhorias para a sociedade brasileira, ou mesmo, mais estritamente, para a comunidade científica local? Até onde eu saiba, nada. Então, não vejo razão para dar tanto destaque a este evento isolado", critica.

Uma segunda vertente de atuação do Centro é a preservação da memória. Para Shozo, apesar de estar havendo uma evolução da mentalidade sobre o assunto, o Brasil foi por muito tempo um país que não dava a devida importância à questão da memória, de uma maneira geral. E na prática científica não era diferente: "grande parte dos pesquisadores interessa-se somente em publicar artigos sobre seus trabalhos, preferencialmente em revistas internacionais, e assim somar pontos ao seu currículo acadêmico. Mas é provável que a maioria destes textos só seja lida por eles mesmos e por um avaliador da revista, não tendo nenhuma relevância do ponto de vista da ciência e tecnologia hoje. Entretanto, se preservamos este material, pode ser que ele ganhe uma dimensão extremamente grande daqui a cinquenta anos, quando por algum motivo ele for resgatado."

E a história, como sublinha o docente, mostra vários exemplos de descobertas científicas que só adquiriram importância muito tempo depois de terem sido feitas. "Temos realizado no Centro muitos trabalhos com a história oral, justamente para que estas memórias não se percam, e possam ter algum valor no futuro."

A(s) história(s) de um historiador da ciência

A trajetória acadêmica do professor Shozo é uma boa ilustração do caráter interdisciplinar do tema em que se especializou. Tendo a física como graduação e "paixão", como gosta de repetir, o docente acabou enveredando pelas ciências humanas - além de afinidade - por circunstâncias políticas da época do regime militar.

Após o afastamento de seu orientador, o famoso físico Mário Schenberg, de quem era tido como braço direito, Shozo acabou se distanciando um pouco da física para cumprir uma missão proposta pelo diretor da FFLCH, que naquele momento deixava de ser a Faculdade Filosofia, Ciências e Letras. "O professor Eurípedes [Simões de Paula] nos incumbiu de criar um grupo de estudos em história da ciência na unidade, para que ela não perdesse, com a mudança, sua conexão com as ciências naturais e a tecnologia. E esta ponte entre as áreas é o que tentamos fazer até hoje, por meio do Centro."

A tarefa começou da "estaca zero", com um grupo de jovens - a maioria físicos - que pesquisava o tema e ministrava cursos em diversas unidades da USP, como o Instituto de Química (IQ), Instituto de Biociências (IB), e a própria FFLCH. A disciplina até então não gozava de muito destaque nem entre os cientistas, nem entre os historiadores. O professor brinca que, de maneira análoga, por um tempo ele não era visto mais como físico, e nem reconhecido ainda como historiador.

De 20 anos para cá, segundo Shozo, este panorama começou a mudar, quando o próprio meio universitário passou a requerer pessoas especializadas na área. O crescimento do Centro acompanhou o deste interesse e, atualmente, 15 unidades da Universidade têm representantes no conselho do CHC.

Próximo da aposentadoria, o professor ainda tem perspectivas de expandir o trabalho do grupo na parte de ensino. "Queremos passar para uma etapa superior, talvez com a transformação do centro em instituto, em que possamos montar, por exemplo, um curso de pós-graduação." A ideia é ganhar autonomia, formando profissionais que possam lecionar história da ciência sem estarem obrigatoriamente vinculados ao Departamento de História da FFLCH.

Publicações e eventos

O CHC já produziu mais de 40 livros, tanto de iniciativas individuais de seus pesquisadores, como de projetos realizados coletivamente no Centro. Algumas destas obras tornaram-se, inclusive, referências internacionais em história da ciência, como é o caso de Prelúdio para uma História: Ciência e Tecnologia no Brasil, publicada pela Edusp.

Destacam-se ainda os trabalhos sobre história institucional, como Fapesp: Uma História de Política Científica e Tecnológica (Editora Fapesp); 50 anos do CNPq Contados Pelos Seus Presidentes (Editora Fapesp); e USP 70 anos: Imagens de uma História Vivida (Edusp).

E, para o público jovem, obteve bastante sucesso uma série de livros paradidáticos organizada pelo Centro abordando ciência e tecnologia.

Periodicamente, o CHC também organiza eventos - já foram mais de 50 - grande parte deles para homenagear cientistas e, ao mesmo tempo, discutir a sua respectiva área de pesquisa. Caso do simpósio realizado no último dia 18: Meio Ambiente Brasileiro em Questão: Uma Abordagem Histórica, em homenagem aos 85 anos do professor Aziz Nacib Ab"Saber, presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "Acreditamos que é importante reconhecer em vida o mérito destes estudiosos, já que muitas vezes eles deram a vida pelo trabalho acadêmico", ressalta Shozo.