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Chave contra doenças intestinais pode estar no próprio intestino

Publicado em 01 fevereiro 2020

Por Jorge Marinho e Larissa Sbaglia Celiberto

Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Alimentos e Nutrição da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, câmpus Araraquara, constatou que animais doentes que recebem as bactérias isoladas de suas próprias fezes ficam significativamente melhores em comparação aos que receberam produtos à base de microorganismos vivos industrializados, conhecidos como probióticos.

Esse é o resultado apresentado pela pesquisadora Larissa Sbaglia Celiberto, autora do estudo intitulado Intestinal homeostasis and host defense as promoted by commensal bacteria and the colonic mucus layer. O trabalho conferiu a ela o título de doutora em Alimentos e Nutrição pela UNESP, em Araraquara, São Paulo, e em Experimental Medicine pela University of British Columbia (UBC), em Vancouver, Canadá, sob orientação da Dra. Daniela Cardoso Umbelino Cavallini e do Dr. Bruce Vallance, respectivamente.

“O intestino humano é colonizado por trilhões de microorganismos, e essa comunidade é conhecida como microbiota intestinal. Em indivíduos saudáveis, a microbiota e o seu hospedeiro convivem de forma harmoniosa, porém pessoas com doenças intestinais apresentam um desequilíbrio nas bactérias que habitam o intestino e o uso de probióticos vem sendo utilizado como uma terapia complementar nessas condições”, explica Larissa Sbaglia Celiberto, que teve Bolsa de Doutorado e Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

No estudo, as bactérias benéficas foram isoladas individualmente de cada animal. Depois, cultivadas em laboratório para serem utilizadas em seus doadores no tratamento de colite, uma inflamação na porção final do intestino que foi induzida por produtos químicos em dois grupos de camundongos. O primeiro recebeu bactérias benéficas isoladas de suas próprias fezes, ou seja, um produto personalizado. Já o outro, ganhou microorganismos de origem comercial.

“A nossa ideia é que probióticos personalizados têm maior chance de sucesso nesse tipo de doença por já estarem incorporados no ecossistema complexo que é o intestino, e assim conseguem melhorar os sintomas da doença de forma superior aos probióticos comerciais isolados de fontes externas. A nossa proposta é mudar o foco do ambiente externo para o próprio hospedeiro, oferecendo um tratamento totalmente individualizado”, analisa Larissa Sbaglia Celiberto.

Para a pesquisadora, a ideia é isolar as bactérias benéficas durante a infância das pessoas que têm predisposição genética para inflamações intestinais ou durante o período em que a doença estiver sob controle em adultos. Após a coleta, os microorganismos seriam armazenados em uma espécie de “banco de probióticos personalizados” para o tratamento de futuras doenças relacionadas ao desequilíbrio da microbiota intestinal, e esse é o grande diferencial do estudo.

“O número de novos casos de doenças intestinais vem aumentando consideravelmente. Além disso, doenças como obesidade, diabetes, asma e até transtornos psicológicos vêm sendo associadas a alterações na microbiota intestinal. Logo, estratégias para melhorar a composição da microbiota intestinal, como é o caso da nossa proposta, contribuem na prevenção das doenças mencionadas, melhora a qualidade de vida dos pacientes, além de oferecer uma redução de custo significativa na rede de saúde pública”, comenta Larissa Sbaglia Celiberto.

A pesquisa foi reconhecida pela Universidade como uma das melhores teses de doutorado do ano passado no tema Saúde e Bem Estar e recebeu o Prêmio Unesp de Teses.

“Ser cientista é sempre um grande desafio, pelo trabalho árduo, demorado e com pouca visibilidade em países como o Brasil. Engana-se quem pensa que fazer pesquisa é só executar experimentos no laboratório e depois escrever/publicar os resultados. Por trás disso existe uma extensa parte burocrática, pedidos de verba nas agências de fomento, colaborações com outros grupos de pesquisas, muitas reuniões e discussões sobre os resultados, muitos erros e acertos nos experimentos e muita persistência para trazer um resultado de qualidade. Mas tudo isso vale a pena quando pensamos no objetivo final, que é melhorar a qualidade de vida e saúde das pessoas”, orgulha-se Larissa Sbaglia Celiberto.

Atualmente, a pesquisadora atua no BC Children’s Hospital, em Vancouver, Canadá, por meio do projeto de pós-doutorado em que dá continuidade às pesquisas que envolvem o estudo da microbiota intestinal e o seu impacto na saúde. Além disso, também trabalha como consultora do projeto Gut For Health, no mesmo hospital, que oferece serviços de sequenciamento genético da microbiota intestinal para grupos de pesquisa em todo Canadá.

Larissa Sbaglia Celiberto ainda colabora com o Laboratório de Pesquisa em Probióticos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, no câmpus Araraquara. “É uma honra continuar retribuindo com o grupo que deu início à minha carreira como cientista, além de continuar colaborando com o avanço da pesquisa em meu país de origem”, diz a pesquisadora.

O estudo está disponível para a leitura: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/180350.