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Jornal de Piracicaba

ChatGPT pode ser aliado no processo de ensino-aprendizagem, avalia especialista (29 notícias)

Publicado em 19 de março de 2023

Por Agência FAPESP

Desde que surgiu, no final de 2022, o ChatGPT tem gerado preocupação entre os educadores. Isso porque a ferramenta de inteligência artificial capaz de dialogar, escrever textos em diferentes estilos, fazer cálculos e responder perguntas de modo natural pode ser usada indevidamente por estudantes para elaborar redações e realizar lições e trabalhos escolares, por exemplo, burlando o processo de aprendizagem.

Porém, em vez de ser usado meramente como um oráculo ou vidente, o robô virtual (chatbot) pode ser empregado de outras maneiras mais inteligentes e se tornar um aliado no ensino, avalia Seiji Isotani, professor do Instituto de Computação e de Ciências Matemáticas da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), campus de São Carlos, e professor visitante da Faculdade de Educação da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

“O ChatGPT tem sido usado como um espécie de vidente, para dar respostas a perguntas. Essa aplicação é questionável no processo de ensino e aprendizagem porque destrói algo fundamental para a criatividade humana que é a tomada de decisões corretas e de forma consciente. Contudo, essa ferramenta de inteligência artificial pode ser utilizada como uma geradora de insights, ou seja, de novos caminhos para a resolução de um problema”, disse Isotani durante palestra em um evento on-line promovido pelo ICMC-USP em fevereiro.

Em vez de pedir ao ChatGPT para resolver e dar a resposta final para um problema de matemática que não está conseguindo entender, por exemplo, um estudante de ensino médio pode solicitar ao agente conversacional que explique o passo a passo para solucioná-lo, o que é fundamental no processo de ensino-aprendizagem, apontou Isotani.

“O ChatGPT pode ser usado como um oráculo para tentar ajudar e fornecer o que chamamos de scaffold, ou seja, o suporte para que o aluno consiga aprender e avançar”, explicou o pesquisador, que tem realizado, com apoio da FAPESP, pesquisas voltadas ao desenvolvimento e aplicação de técnicas de computação para apoiar e transformar as atividades de ensino e aprendizagem.

“Se mesmo com a ajuda de professores e tutores um aluno não está conseguindo entender e resolver uma equação matemática, por exemplo, a ferramenta pode ser aplicada para ajudá-lo por meio de exemplos trabalhados”, disse.

Outra possibilidade de aplicação do ChatGPT na educação é como agregador de conhecimento, indicou o pesquisador. O agente conversacional pode permitir fazer conexões e ajudar os estudantes a processar a imensa quantidade de informações disponíveis hoje, ajudando a construir significados.

“Podemos pensar o ChatGPT como um learning companion, ou seja, um companheiro de aprendizagem ou um tutor do estudante que vai ajudá-lo a processar as informações e trocar ideias com ele. Dessa forma, ele passa atuar não mais como um oráculo ou vidente, mas como um parceiro para a construção de conhecimento”, afirmou.

Esses agentes pedagógicos, que são pequenos avatares que interagem com os estudantes, têm sido alvo de estudos na área de sistemas inteligentes há mais de três décadas. Com o surgimento do ChatGPT será possível elevá-los a um novo patamar, estimou Isotani.

O ChatGPT pode pegar a transcrição da fala de uma criança com dificuldade de aprendizagem e processá-la para um agente pedagógico. Dessa forma, essa ferramenta pode começar a interagir de forma mais eficiente, com o intuito de resolver problemas de crianças com discalculia (dificuldade com atividades relacionadas à matemática) ou necessidades especiais, por exemplo, que precisam de ajuda no processo de aprendizagem e muitas vezes não dispõem de suporte em sala de aula ou em casa, defendeu o pesquisador.

“Uma criança com uma deficiência cognitiva grave precisa de ajuda a todo o momento quando está tentando aprender alguma coisa. E não há recursos humanos suficientes para ajudar todos esses alunos no tempo que eles precisam. O ChatGPT pode atuar como um remediador nesse processo”, disse Isotani.

O pesquisador pondera que isso não significa que o ChatGPT substituirá o professor e que os alunos serão dependentes da ferramenta o tempo todo, mas que poderão recorrer ao agente conversacional sempre que precisarem de alguém para ajudá-lo.

“Precisamos entender quais são os desafios, os problemas e as potencialidades do ChatGPT para usá-lo adequadamente no contexto da educação para começarmos a criar serviços, processar dados e trabalhar com inteligência artificial para apoiar pais, professores, alunos e gestores educacionais para conseguirmos viver bem na sociedade do conhecimento”, afirmou.