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Diário da Manhã (GO) online

Chagas no alvo da ciência

Publicado em 30 julho 2005

Por Pollyanna Pádua

Pesquisador brasileiro da USP — integrante do consórcio internacional para identificação do genoma do Trypanossoma cruzi — acredita que tratamento da doença é possível em prazo de cinco anos 

O código genético (genoma) do parasita Trypanossoma cruzi, responsável pela doença de Chagas, foi decifrado por uma equipe internacional de cientistas. Entre eles, estava o professor e parasitologista José Franco da Silveira Filho, da Univesidade Federal de São Paulo (USP). O projeto, que decifrou o genoma de três parasitas (Trypanossoma cruzi, Leishmania major e Trypanossoma crucei) foi publicado na revista Sciense, em julho, e representa importante avanço no tratamento do mal de Chagas, da Leishmaniose e da Doença do Sono, respectivamente. Todas de incidência comum na América Latina e no continente africano.

José Franco acredita que, com as informações reveladas pelo mapeamento genético do Trypanossoma cruzi, é possível que, em no máximo 10 anos, estejam disponíveis medicamentos que auxiliem no tratamento e prevenção da doença. Somente na América Latina, cerca de 20 mil pessoas morrem por ano, vítimas do mal de Chagas. "A identificação do genoma do Trypanossoma cruzi não é o final, mas o início de um trabalho. Com as informações é possível entender e identificar melhor o alvo e tornar mais eficaz o ataque ao parasita."

O próximo passo dos pesquisadores é buscar apoio da indústria farmacêutica para desenvolver medicamentos eficazes contra a doença, apesar do pequeno interesse existente já que se tratam de efermidades típicas do terceiro mundo. "É um custo alto, mas acredito que o próprio governo brasileiro tem capacidade de desenvolver essas pesquisas nos laboratórios estatais e em parcerias para ajudar a população",diz.

Em entrevista ao Diário da Manhã, por telefone, de São Paulo, Franco conta a experiência de participar das pesquisas internacionais e dos estudos no Brasil.
Entrevista — José franco da silveira Filho

DM — Como foi o trabalho do consórcio de cientistas que pesquisaram o genoma dos parasitas Trypanossoma cruzi, Leishmania major e Trypanossoma crucei?
José Franco da Silveira — O projeto foi lançado em 1994 e os seqüenciamentos iniciaram-se efetivamente em 2001. O trabalho envolveu um consórcio de cientistas e laboratórios de vários países. Só nas pesquisas do Tripanossoma participaram centenas de pesquisadores e os trabalhos foram feitos nos Estados Unidos e na Suécia. O Brasil foi representando por cientistas da USP (da Escola Paulista de Medicina) e da Universidade Federal de Minas Gerais. Também pariticiparam cientistas da América Latina, da Venezuela e da Argentina.

DM — Qual a importância da participação do Brasil em uma equipe internacional de cientistas no campo da genética?
José Franco — A participação brasileira mostra que já temos e desenvolvemos uma experiência cosiderável no seqüenciamento de genes. No caso específico do mal de Chagas, foi um pesquisador brasileiro, em 1909, o cientista Carlos Chagas que descreveu e identificou a doença. O Brasil lidera e realiza várias pesquisas sobre o mal que mata por ano cerca de 20 mil pessoas na América Latina.

DM — Qual a importância da identificação do genoma do parasita responsável pelo mal de Chagas?
José Franco — A partir do seqüenciamento do genoma temos agora uma plataforma para desenvolvimento de medicamentos e estudo da doença. Agora é preciso buscar o apoio da indústria farmacêutica, apesar de não haver muito interesse, por se tratar de uma doença que atinge países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Mas acredito que o próprio governo brasileiro pode investir nestas pesquisas, e não apenas esperar a indústria. Usar as empresas estatais e centros de pesquisa financiados pelo governo. Um exemplo é a Embraer que hoje disputa mercado e tecnologia com grandes potências. Temos os centros de referência e pessoal (pesquisadores e cientistas) capacitados para desenvolver pesquisas sobre medicamentos contra o mal de Chagas diante da quantidade de informações sobre o genoma do parasita. Ou, se necessário, buscar parcerias junto à indústria. Por ano, são formados cerca de 8 mil doutores no país.

DM — Houve surpresas diante do mapeamento do Trypanossoma cruzi em relação a pesquisas anteriores?
José Franco — Um dos pontos importantes foi identificar a semelhança entre os parasitas Trypanossoma cruzi, Leishmania major e Trypanossoma crucei, o que permite que sejam desenvolvidas drogas capazes de serem usadas para os três ao mesmo tempo. Mas há também as especificidades de cada parasita durante seu desenvolvimento no hospedeiro, para escapar dos sistemas de defesa dos organismos atingidos. Com o genoma foi possível chegar a um grande número de informações para o entendimento da doença e do parasita.

DM — O mapeamentos é um ponto final ou um reinício?
José Franco — É preciso deixar claro que o mapeamento do genoma não é o fim da pesquisa, mas um novo começo, pois traz a tona uma série de novas informações sobre o objeto de estudo. A finalidade do mapeamento é chegar à informação sobre a genética do organismo estudado. Isso nos permite identificar um maior número de alvos que podem ser atingidos e atacados. E o desenvolvimento dessas drogas e medicamentos é um trabalho com resultados a médio e longo prazo a partir do genoma.

DM — Quando a população deve receber resultados práticos da pesquisa do genoma?
José Franco — Acredito que dentro de 5 a 10 anos, se houver investimento, já possamos ter resultados concretos no tratamento do Chagas. Os especialistas que se debruçarem sobre as informações trazidas à luz pelo mapeamento do Trypanossoma cruzi, que conhecem bem suas características, têm condições de identificar e desenvolver tratamentos eficazes. Pode-se dizer que o entendimento sobre o Chagas já não está mais tão escuro. Mas existe um custo alto de investimento nas pesquisas.

DM — Como avaliar os casos de Chagas por transmissão oral registrados no sul do país em março deste ano?
José Franco — A transmissão oral tem sua importância e ocorre em várias regiões do país, mas nem sempre é notificada corretamente. Falta informações e prática aos médicos para identificar os sintomas do Chagas, os quais acabam sendo atribuídos a outras doenças e fatores. Há uma certa desatenção com a efermidade.

DM — Levantamento feito pela Apae-Goiás entre grávidas goianas que realizaram o teste da mamãe identificou que 337 das 52 mil mulheres analisadas tinham Chagas, apesar do Estado já ter erradicado a transmissão pelo Barbeiro — vetor da doença. Qual a explicação?
José Franco — A transmissão congênita — de mãe para filho — é extremamente comum em alguns países da América Latina. Situação que pode ter ocorrido também para infectar as mulheres em Goiás durante sangramentos no momento dos partos, já que a transmissão pelo barbeiro está controlada.

DM — Como pesquisador, qual sua opinião sobre a realidade da pesquisa científica brasileira sobre genoma?
José Franco — O Brasil tem experiência e atuação de peso no campo do seqüenciamento e mapeamento genético. O projeto genoma iniciado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo hoje integra grande rede de centros de pesquisa e universidades brasileiras. Há trabalhos importantes de mapeamento no campo da agriculura. Mas, infelizmente, ainda estamos atrasados na área da biotecnologia, atrás de Argentina e Chile. Realiza-se o mapeamento, mas falta investimento para estudar as informações reveladas e chegar a resultados práticos e concretos do dia-a-dia.